O IGP-M surpreende

O avanço do IGP-M em julho, de 1,34%, foi mais do que o dobro do registrado no mês anterior. Mais ainda, ficou muito além do que estava nos radares dos observadores. Ontem, por exemplo, o Banco Central divulgou sua Pesquisa Focus, levantada semanalmente entre cerca de 100 consultorias, bancos e diretorias de Finanças. E, no entanto, na média, a expectativa era de que o IGP-M não passaria de 0,99%.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

31 de julho de 2012 | 03h06

Essa esticada preocupa por que, em geral, antecede o que acontecerá depois com o custo de vida. Explicando melhor, o IGP-M é um cestão de preços em que o que se passa no mercado atacadista entra com nada menos que 60% de sua composição. Como o que ocorre no atacado costuma antecipar o que virá depois no varejo, pode-se prever novo foco de pressão sobre o custo de vida, ou seja, sobre o IPCA, o medidor de inflação que é tomado para a definição dos juros.

Preocupa, também, porque o IGP-M continua sendo fortemente utilizado para corrigir aluguéis (residenciais ou não residenciais), saldos de dívidas assumidas em contratos financeiros e tarifas públicas. Esse é um segundo foco de pressão sobre os preços internos.

Dessa vez, são três as principais fontes de alta de preços no mercado atacadista: a disparada dos alimentos (milho, trigo e soja), em consequência da forte estiagem no principal produtor mundial, os Estados Unidos; os reajustes do óleo diesel, que oneram os fretes e praticamente toda a logística do País; e o avanço da cotação do dólar no câmbio nos últimos três meses, de quase 7,0%, fator que encareceu os produtos importados.

O Banco Central não contava com essa disparada dos preços dos alimentos. A última Ata do Copom previa "pressões baixistas sobre os preços das commodities". Seu diagnóstico era de que a economia mundial seguiria rastejando e que, nessas condições, a demanda por matérias-primas e alimentos se manteria deprimida. Logo em seguida, no entanto, os mercados globais apontavam a cavalgada nos preços dos cereais, algo que alguma chuva no Meio-Oeste americano na semana passada não foi capaz de reverter. Apenas em julho, as cotações da soja no mercado futuro saltaram 15%; as do trigo, 21%; e as do milho, 28%.

Boa pergunta está em saber até que ponto esse novo impacto dos preços vai interferir na atual política monetária (de juros) do Banco Central.

O mercado permanece apostando em que no dia 29 de agosto o Copom cortará os juros básicos (Selic) em mais meio ponto porcentual, para 7,5%. É o que se pode conferir na Pesquisa Focus divulgada ontem. A percepção do mercado ainda é de que a redução dos juros, mesmo que feita "com parcimônia", é hoje mais uma decisão política do que puramente técnica. No entanto, não há indicação alguma por parte do Banco Central de que se disponha a interromper abruptamente o atual ciclo baixista. Isso quer dizer que, até segundo aviso, a ideia será insistir com os cortes, ainda que, em reação ao atual surto inflacionário, o Banco Central possa maneirar na dose.

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