REUTERS/Max Rossi
REUTERS/Max Rossi

O imbróglio italiano

Os bancos da Itália, que têm € 360 bilhões de créditos duvidosos, serão o estopim da próxima crise europeia

The Economist

08 Julho 2016 | 05h00

No mundo inteiro, os investidores andam com os nervos à flor da pele. Nos últimos dias, a rentabilidade dos títulos do Tesouro americano atingiu o nível mais baixo já registrado; e quem se dispõe a comprar os títulos de 50 anos do governo suíço, aceita rentabilidade negativa. Parte da inquietação tem origem no Reino Unido, que há duas semanas resolveu se lançar no desconhecido.

A libra, que na quarta-feira, chegou a seu patamar mais baixo em 31 anos em relação ao dólar, ainda não chegou ao fundo do poço; alguns fundos imobiliários britânicos viram-se obrigados a suspender os resgates, a fim de fazer frente à queda acentuada no valor de seus ativos.

Mas a vitória do Brexit não é suficiente para explicar o desassossego cambial. Outra ameaça financeira, potencialmente mais perigosa, desponta no horizonte, do outro lado do Canal da Mancha, onde as claudicantes instituições de crédito italianas estão à beira de uma crise.

A economia da Itália é a quarta maior da Europa, mas também é uma das que se encontram em situação mais delicada. A dívida pública do país equivale a 135% do PIB; no interior da União Europeia, a taxa de emprego entre os italianos adultos só não é mais baixa do que a observada na Grécia.

Faz anos que a economia italiana, sufocada pelo excesso de regulamentações e pela baixa produtividade, está moribunda. Em meio à estagnação e à deflação, os bancos do país carregam um fardo de cerca de € 360 bilhões (US$ 400 bilhões) em empréstimos de liquidação duvidosa, valor que corresponde a um quinto do PIB. Juntas, as instituições de crédito detêm provisões para apenas 45% desse montante. Na melhor das hipóteses, a fragilidade dos bancos limitará o crescimento econômico da Itália; na pior, alguns deles levarão a breca.

Não admira que os investidores tenham batido em retirada. De abril para cá, as ações dos maiores bancos italianos perderam aproximadamente 50% de seu valor, num movimento que se intensificou depois da vitória do Brexit no referendo britânico de 23 de junho. A preocupação mais imediata é com a insolvência do Monte dei Paschi di Siena, o banco mais antigo do mundo. Malograram várias tentativas feitas para recuperá-lo: a instituição vale hoje apenas um décimo de seu valor contábil e corre sério risco de não ser aprovada no teste de estresse a que o Banco Central Europeu a submeterá no fim do mês.

Se, por um lado, as tribulações por que passa o sistema bancário italiano são perigosas por conta do próprio porte das instituições que estão em jogo, por outro, também são reflexo de dois males que afetam em maior escala a área do euro como um todo: a tensão entre regras elaboradas em Bruxelas e a dinâmica política interna de cada país; e o conflito entre países credores e devedores. Ambos são consequência de reformas financeiras insuficientes. Se não for enfrentado de forma adequada, o imbróglio italiano pode levar ao fim da zona do euro.

A ideia é boa, mas... A Itália precisa submeter urgentemente seus bancos a uma faxina ousada e abrangente. Com o capital privado em fuga e grande parte dos recursos do fundo de emergência destinado a socorrer instituições financeiras em dificuldades já utilizada, isso exigirá aportes de dinheiro público. A questão é que, politicamente, a solução é quase impossível de ser implementada.

Na zona do euro, normas recém-criadas determinam que os bancos não podem ser socorridos, a menos que os primeiros a sofrerem perdas sejam os detentores de seus títulos de crédito. A ideia de impor prejuízos aos credores, em vez de passar a conta para os contribuintes é ótima. Na maioria dos países, os títulos dos bancos ficam com grandes investidores institucionais, que conhecem os riscos e têm condições de suportar eventuais perdas.

Mas, na Itália, em virtude de uma peculiaridade do código tributário do país, cerca de € 200 bilhões em títulos emitidos por instituições bancárias estão nãos mãos de pessoas físicas. Quando, em novembro, alguns bancos pequenos foram socorridos em conformidade com a nova regulamentação, um investidor se suicidou. Sobreveio um temporal político. Obrigar italianos comuns a absorver novos prejuízos causará sérios danos ao primeiro-ministro Matteo Renzi, lançando por terra suas esperanças de vencer o referendo, a ser realizado no segundo semestre deste ano, sobre uma reforma constitucional que altera a organização do Parlamento do país. Renzi quer que as normas sobre a ajuda a bancos sejam aplicadas com flexibilidade.

Mas a política também impõe restrições à liberdade de ação dos países credores. Os alemães dizem, com razão, que os problemas dos italianos foram causados, em larga medida, por eles mesmos, que demoraram demais a abrir os olhos para as dificuldades de suas instituições bancárias. Qualquer sistema que permita que os integrantes da zona do euro sejam seletivos na aplicação das novas regras deve provocar insatisfação entre os eleitores alemães.

Se Renzi tem muito a ganhar com a flexibilização ou suspensão das normas, é provável que a indulgência represente custos políticos na Alemanha, que deve realizar eleições no ano que vem. “Acabamos de estabelecer as normas do sistema de crédito”, disse Angela Merkel em resposta a um apelo de Renzi por tratamento leniente. “Não podemos alterá-las a cada dois anos.”

Mas o primeiro-ministro italiano tem razão. A pressão do mercado sobre os bancos italianos não diminuirá enquanto a confiança não for minimamente restabelecida, e isso só vai acontecer com intervenção governamental. Se a nova regulamentação do sistema de crédito for aplicada de forma rígida na Itália, a reação dos pequenos investidores terá efeitos negativos sobre a confiança e viabilizará a chegada ao poder do Movimento Cinco Estrelas, um grupo que responsabiliza o euro pelas dificuldades econômicas do país.

Aumentará a sensação de que a Itália é pouco beneficiada pelo compartilhamento de riscos no interior da área do euro e sofre com as inúmeras restrições a que está sujeita – como a impossibilidade de promover desvalorizações cambiais para estimular a economia, o pacto fiscal que engessa seu orçamento e, agora, o respeito a regras sobre o socorro a instituições financeiras, as quais entraram em vigor depois que outros países socorreram seus bancos. Se os italianos perderem a fé no euro, a sobrevivência da moeda única estará comprometida.

Não faz sentido seguir à risca as novas normas se isso levar ao fim da moeda única. Portanto, o melhor a fazer é permitir que o governo italiano injete capital em seus bancos, a fim de aplacar os temores de uma crise sistêmica. A ajuda precisa vir com algumas condições: uma reforma do sistema bancário que obrigue a fusão das pequenas instituições e promova um corte de despesas com a eliminação do número excessivo de agências que há no país. Para aumentar as chances de que as normas sobre o socorro a instituições financeiras venham a ser aplicadas no futuro, elas precisariam ser modificadas, de modo que os pequenos investidores que já detenham títulos de bancos sejam explicitamente protegidos.

O mais provável é que se opte por algum tipo de remendo paliativo. Já se fala na inclusão de uma cláusula que permita uma injeção temporária de capital no Monte dei Paschi. Talvez isso seja suficiente estancar a queda das ações, de modo que outros bancos italianos, como o UniCredit, consigam levantar capital no mercado. Os europeus certamente saudariam esse resultado como um exemplo de solidariedade embasada no respeito às regras. Mas, se a história serve de guia, tal medida não tornará as instituições financeiras italianas suficientemente saudáveis, e tampouco resolverá os problemas estruturais do bloco europeu. Uma das lições do Brexit é que ignorar as preocupações dos eleitores não é uma estratégia sustentável. A precária arquitetura financeira da zona do euro duplica o problema, passando por cima do que pensam os cidadãos de países credores e devedores. Não vai dar para empurrar a coisa com a barriga para sempre – e é por isso que os investidores têm toda a razão de estar tão apreensivos.

© 2016 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ALEXANDRE HUBNER, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM.

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