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O impacto da guerra na Ucrânia

A inflação mundial, antes pressionada pelos impactos nas cadeias de produção e distribuição causados ao longo da pandemia, tende agora a se acentuar ainda mais com o conflito no Leste Europeu

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

24 de março de 2022 | 20h08

A guerra da Ucrânia completa um mês e já vem produzindo importantes consequências sobre a economia.

Elas se misturam com as que foram produzidas pela pandemia que não só matou 6,1 milhões de pessoas (das quais 660 mil no Brasil), como, também, impôs grandes mudanças nas cadeias globais de produção e distribuição.

As sanções impostas à Rússia pelo bloco ocidental aumentaram a escassez de insumos e produtos essenciais. A economia mundial ainda não havia se recuperado da desorganização dos fluxos de comércio imposta pela covid-19 e, no entanto, enfrenta ainda mais desestruturação com a interrupção de processos de produção e com o bloqueio de rotas de navegação. Por toda a parte, empresas e autoridades públicas vêm sendo obrigadas a reforçar estoques de produtos essenciais, o que acentua as demandas e provoca galopada das cotações. É o que está acontecendo com o petróleo, com os fertilizantes e com os alimentos, especialmente o trigo, milho e soja. A inflação mundial, que já vinha acentuada com o aumento de custos ao longo da pandemia, tende agora a aumentar ainda mais.

Alguns analistas veem nisso uma volta atrás no processo de globalização porque induz os agentes econômicos a buscar mais segurança e mais fornecedores, em vez de se aterem a mais eficiência e a custos mais baixos. Exemplo: se não se conseguem fertilizantes da Rússia, há que buscá-los onde houver, a preços mais altos. Mas globalização é mais do que isso. A Europa se uniu como nunca, jamais o resto do mundo havia imposto represálias tão drásticas e tão rápidas a uma grande potência.

Os grandes bancos centrais parecem desnorteados. São pressionados a aumentar os juros para combater a inflação e também para aumentar a retirada dos trilhões em recursos despejados durante a pandemia para enfrentar a derrubada da atividade econômica. Mas atuam travados, porque não podem acentuar a desaceleração dos negócios.

A economia do Brasil enfrenta a mistura de efeitos bons e ruins. Entre os bons está o grande aumento de receitas com exportação de commodities, como petróleo, minérios e grãos. De quebra, esse aumento de receitas tende a melhorar o desempenho das contas públicas, graças à bonança produzida pelos royalties do petróleo e ao aumento da arrecadação proporcionado pela alta dos combustíveis e dos alimentos.

A melhora das contas externas mais a forte aceleração dos juros vêm derrubando as cotações da moeda estrangeira e, por essa correia de transmissão, atuando para atenuar a alta dos preços dos produtos importados, o que também pode ajudar a conter a inflação.

Mas o balão da inflação ganhou mais ar quente e vai disseminando pelos mercados com os movimentos de defesa geral (conflito distributivo), cujo efeito mais pronunciado é ainda maior disparada dos preços. 

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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