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O impacto da Lava Jato

Ninguém se iluda, tal como aconteceu na Itália, onde os políticos conseguiram pulverizar a Operação Mãos Limpas, a tentativa é de fazer o mesmo com a versão brasileira

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2016 | 21h00

Quando afirmou, na gravação divulgada quarta-feira, que “a Odebrecht é uma metralhadora de ponto 100”, o ex-presidente José Sarney referia-se, na verdade, à Operação Lava Jato e aos estragos que vem produzindo entre os políticos.

Até agora, a atuação do Ministério Público Federal do Paraná e do juiz Sérgio Moro contra a corrupção não conseguiu ser contida. Mas o jogo de forças para acabar com esse combate é amplo e poderoso.

A presidente Dilma, por exemplo, afirmara há pouco menos de um ano que “não respeita delatores”, sem ter levado em conta, então, que foi ela própria que sancionou a lei que instituiu a delação premiada. Com isso, já tentava pulverizar a Lava Jato, por contrariar seus interesses imediatos.

De lá para cá, não há candidato a enrosco na operação nem advogado que o defenda que não combatam a delação premiada. O PT, até mesmo em documentos oficiais, faz o que pode para tentar desmoralizá-la. Vem apontando-a como instrumento “seletivo” a serviço do “golpe”, embora a festeje quando os acusados são gente do PMDB e do PSDB. Projeto de lei que proíbe a delação premiada de réu na cadeia, de autoria do deputado Wadih Damous (PT-RJ), está em tramitação na Câmara, em nome do PT, e nisso converge a já conhecida posição do presidente do Senado, Renan Calheiros.

O quase ministro Antônio Claudio Mariz de Oliveira chegou a assinar manifesto contra a delação premiada em que afirma tratar-se de recurso que leva à condenação sem processo. Em consequência dessa posição, deixou de ser nomeado ministro da Justiça pelo presidente em exercício Michel Temer, como era iminente.

O senador Romero Jucá, em declaração gravada como armação pelo ex-presidente da Transpetro Sérgio Machado para servir de abraço de afogado e levar junto com ele pesos-pesados da política, sugeriu a costura de um pacto entre políticos para bloquear a Operação Lava Jato.

Enfim, o instituto da delação premiada está apavorando os políticos e os corruptos porque produz resultados (veja o Confira). A corrupção é velha de guerra, mas no Brasil tornou-se endêmica, principalmente em consequência dos esquemas em vigor que sustentam os financiamentos de campanha eleitoral.

Essa é uma das razões que pedem profunda reforma política. Infelizmente, este é um projeto que não avança porque os representantes do povo, que foram eleitos graças a esse jogo e com ele alimentam suas bases de sustento, não querem acabar com ele.

Em compensação, a luta contra a corrupção virou bandeira popular. As tentativas de abafar a Lava Jato vêm tendo imediata reação e já não há político que ouse publicamente alinhar-se contra ela. Por enquanto, as tentativas destinadas a limitar sua força esbarram na forte indignação da opinião pública.

O líder da força-tarefa do Ministério Público Federal do Paraná, Deltan Dallagnol, avisa que é preciso reforçar a luta contra a corrupção para impedir que ela se esvaia. E sugere a aprovação de dez medidas já encaminhadas com o apoio de mais de 2 milhões de assinaturas.

Mas ninguém se iluda, tal como aconteceu na Itália, onde os políticos conseguiram pulverizar a Operação Mãos Limpas, a tentativa é de fazer o mesmo com a versão brasileira.

CONFIRA:

Operação Lava Jato

Em pouco mais de dois anos (até 10 de maio), a Operação Lava Jato conseguiu os seguintes resultados: 574 buscas e apreensões, 70 prisões preventivas, 85 prisões temporárias, 51 acordos de colaboração premiada e 5 acordos de leniência.

Crimes

Até agora, as 93 condenações somam 990 anos de cadeia, pelos crimes de corrupção, tráfico internacional de drogas, formação de organização criminosa e lavagem de ativos.

Devolução

O ressarcimento pedido por práticas de corrupção (incluindo multas) alcança um total de  R$ 37,6 bilhões. Até agora, R$ 2,9 bilhões já foram recuperados por acordos de colaboração, sendo R$ 659 milhões objeto de repatriação e R$ 2,4 bilhões em bens dos réus já bloqueados. 

Rapidez

Levando-se em conta a ineficiência e a demora da Justiça tradicional, são resultados altamente significativos obtidos em tempo recorde. 

 

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