O impacto do corte da energia russa
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O impacto do corte da energia russa

Decisão da União Europeia de suspender grande parte das importações de petróleo e gás da Rússia terá desdobramentos econômicos negativos, mas pode acelerar a transição para fontes renováveis

Celso Ming*, O Estado de S.Paulo

13 de abril de 2022 | 19h35

Grande parte das análises sobre as consequências produzidas pelas reduções de importação de petróleo e gás da Rússia pela Europa limita-se aos impactos sobre a economia da União Europeia. No entanto, o mundo inteiro acabará por ter de pagar o preço, a começar pela própria Rússia.

A guerra na Ucrânia levou as autoridades da Europa a rever a excessiva dependência do fornecimento de gás pela Rússia.

No ano passado, os países da União Europeia importaram nada menos que 155 bilhões de metros cúbicos de gás natural da Rússia. Apenas a título de comparação, o Brasil importa, por ano, 25 bilhões de metros cúbicos da Bolívia. Cerca de 60% do consumo de gás da Alemanha vem da Rússia. A Itália é outra dependente: se abastece na Rússia de 29 bilhões de metros cúbicos, 40% do gás que consome.

Em 2021, a União Europeia importou 99 bilhões de euros (US$ 108 bilhões) de petróleo e gás da Rússia, o equivalente a 62% das importações russas feitas para o bloco em 2021. 

 

A União Europeia decidiu reduzir em 66% suas importações de gás russo ainda neste ano. Não está claro como esse suprimento, essencial para o Produto Interno Bruto europeu, será substituído. As autoridades esperam importar de outros países cerca de 55 bilhões de metros cúbicos de gás liquefeito. Se isso se confirmar, ficará faltando gás para outros consumidores. Além de pagar mais caro, o resto do mundo terá de apelar para outras fontes de energia, como o sujo carvão mineral, que vinham sendo abandonadas por questões ambientais.

Tanto pelo efeito sanção quanto pela redução da dependência, a forte redução das exportações de gás natural para a Europa deverá produzir enormes estragos nas contas de comércio da Rússia. Essas exportações se fazem por meio de gasodutos, que ficarão ociosos. Apenas no primeiro trimestre deste ano, a Rússia faturou US$ 58 bilhões com exportações de petróleo e gás, mais do que o dobro do que obteve em igual período do ano passado. Por aí já se pode ter ideia do rombo que apenas essa decisão da Europa produzirá nas receitas da Rússia.

Como a Europa não conseguirá substituir toda a energia proveniente da Rússia, parece inevitável alguma redução do consumo – cujo principal custo será a queda da atividade econômica, portanto, certa recessão.

Mas, a longo prazo, essa megaoperação de redução da dependência não produzirá apenas mais custos e mais sacrifícios. Terá o efeito positivo de apressar investimentos em energia renovável (energia solar e eólica). Se não fizer lambanças, o Brasil poderá aproveitar essa nova demanda europeia por energia limpa e exportar hidrogênio verde a ser obtido com a própria energia solar e eólica.

*CELSO MING É COMENTARISTA DE ECONOMIA

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