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O impacto do xisto

Os incrédulos e os que fizeram pouco-caso da revolução do xisto nos Estados Unidos agora não têm como ignorar suas consequências.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

23 Dezembro 2014 | 02h03

Nos últimos quatro anos, os Estados Unidos aumentaram sua produção anual em 4 milhões de barris diários (o dobro da atual produção brasileira) apenas a partir da exploração de suas reservas de xisto. Estão agora não só à beira da autossuficiência. Devem transformar-se em exportadores de petróleo e gás.

O maior impacto global dessas novidades não foi o tombo de 50% nos preços internacionais do petróleo. Foi a desestabilização econômica da Rússia, governada por Vladimir Putin. Isso não havia sido conseguido com as sanções impostas pelas potências do Ocidente como represália pela invasão da Ucrânia. Outro impacto produzido ou a ser produzido pelo fim da dependência do petróleo importado tem a ver com o jogo geopolítico dos Estados Unidos no Oriente Médio.

Esses efeitos macropolíticos são a principal razão pela qual a exploração de petróleo e gás de xisto deve seguir com força, a despeito da derrubada dos preços do petróleo que possam ter inviabilizado projetos que enfrentam custos mais altos. Agora, as empresas engajadas neste tipo de exploração deverão batalhar para aumentar sua competitividade. Provavelmente, contarão para isso com o auxílio do governo norte-americano, que tem agora razões mais fortes para apoiá-las.

A queda dos preços do petróleo, por sua vez, deverá contribuir para a recuperação das economias maduras, especialmente dos Estados Unidos, da Europa e do Japão, como foi comentado por esta Coluna há dias.

Do ponto de vista do Brasil, três são as principais consequências de natureza econômica. A primeira delas é a de que os Estados Unidos deverão se transformar em nova meca dos investimentos. Estes já contavam com o fornecimento de energia elétrica e gás natural a um terço dos preços vigentes na Europa e na Ásia. Passam agora a desfrutar das vantagens proporcionadas pela nova derrubada geral dos preços do petróleo e dos seus derivados. Ou seja, a indústria do Brasil perde ainda mais competitividade em relação à indústria norte-americana.

A segunda consequência é a de que outros países tomam a dianteira na exploração do gás de xisto e podem deixar o Brasil para trás. A Argentina, por exemplo, prepara-se para explorar intensivamente suas reservas de Vaca Muerta, uma das maiores do mundo. A China, altamente dependente do fornecimento de petróleo e de energia, começa a dedicar-se ao setor.

Enquanto isso, o Brasil continua paralisado. As primeiras iniciativas para exploração do gás natural de xisto estão bloqueadas por ações na Justiça interpostas por grupos ambientalistas. O problema não está na necessidade de enfrentar restrições ambientais. É não ter resposta para elas. É verdade que o Brasil optou por dar prioridade ao desenvolvimento do pré-sal. Mas não pode ignorar as novas opções de produção de energia.

A terceira consequência está na área da petroquímica. Como os concorrentes externos, principalmente os dos Estados Unidos e do Canadá, terão acesso a insumos substancialmente mais baratos, o futuro da petroquímica brasileira só estará assegurado se resolver sua própria equação de custos.

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