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O impacto dos juros nas contas externas

É improvável o retorno da cotação do dólar para níveis inferiores a R$ 4,10

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

30 de janeiro de 2020 | 19h08

Se as condições gerais da economia vêm melhorando, por que as cotações do dólar disparam e por que o déficit das contas externas ficou maior, podendo crescer ainda mais ao longo deste ano?

Convém quantificar essas afirmações. De junho até esta quinta-feira, embora o Banco Central tenha vendido US$ 30 bilhões das reservas externas, as cotações do dólar aumentaram 9,5%. E, ao longo de 2019, o rombo nas transações correntes – onde são contabilizadas entradas e saídas de moeda estrangeira (exceto fluxos de capital) – cresceu de 4,15% do PIB para 4,27% do PIB. Em números absolutos, o rombo cresceu de US$ 41,5 bilhões para US$ 50,8 bilhões. (Veja o gráfico.)

Por paradoxal que pareça, uma das mais importantes razões dessa piora estatística é uma coisa boa: é a derrubada dos juros no mercado interno, que, em última análise, reflete o recuo da inflação aos mínimos históricos.

São várias as correias de transmissão por meio das quais os juros mais baixos pioram as contas externas e puxam as cotações do dólar para cima. Grande número de exportadores prefere deixar depositados no exterior os dólares por eles faturados porque já não vê vantagem em aplicá-los em reais no mercado financeiro interno.

Essa mesma razão levou empresas endividadas em moeda estrangeira a trocar essas posições por passivos em reais a juros mais favoráveis. E também há uma forte queda das tais operações de carry-over. Quando os juros estavam altos, era forte a entrada de dólares que os investidores trocavam por reais para aplicá-los no mercado financeiro interno e, assim, tirar proveito da remuneração mais alta. Com o tombo dos juros, esses movimentos de arbitragem deixaram de valer a pena.

Esses fluxos não contam tudo. O superávit da balança comercial (exportações menos importações) está em queda e tende a cair ainda mais, por motivos que nada têm a ver com os juros. 

Em 2019, as exportações caíram 6,4% por um conjunto de fatores: pela crise da Argentina, que ficou incapacitada de importar até mesmo o essencial; pela atividade relativamente fraca na Europa; e pelos efeitos da guerra comercial entre Estados Unidos e China

As importações caíram menos, 2,1%. Essa menor queda é reflexo de um fator positivo: o aumento da atividade econômica (crescimento do PIB do Brasil, provavelmente de alguma coisa em torno de 1% em 2019), que puxou as despesas com importações e transportes. E, de relativa importância, em 2019, as contas do balanço de pagamentos foram submetidas a revisão metodológica, o que aumentou o déficit.

As contas externas devem se enfraquecer mais nos próximos meses. A situação da Argentina, importante parceiro comercial, tende a piorar. O alastramento do coronavírus deve abater a economia da China e, consequentemente, as exportações para lá, que, no ano passado, foram de US$ 62 bilhões (ou 28% do total). O estrago só não deverá ser maior porque a maior parte das exportações do Brasil para a China é de produtos alimentícios. E não haverá de ser uma grave crise de saúde que levará os chineses a se alimentar menos. Mas o acordo comercial fase 1 prevê maiores compras de alimentos pela China nos Estados Unidos, que, de alguma maneira, poderão tomar fatia das exportações brasileiras.

Apesar de tudo isso, o enfraquecimento das contas externas não preocupa porque a entrada de investimentos estrangeiros diretos continua forte. Foi de US$ 78,6 bilhões no ano passado e deve ficar em torno dos US$ 80 bilhões neste ano.

Em todo caso, este é um quadro geral que deixa improvável o retorno da cotação do dólar para níveis inferiores a R$ 4,10, nos quais se fixaram as últimas projeções do mercado medidas pela Pesquisa Focus.

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