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O impasse de Chipre

A rejeição categórica do plano de salvação da dívida e dos bancos de Chipre, tal como formulado pela troica europeia (União Europeia, Banco Central Europeu e Fundo Monetário Internacional), aumenta as incertezas que pairam sobre toda a economia mundial.

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2013 | 02h04

Como a Coluna de ontem comentou, a contrapartida exigida para a liberação da ajuda oficial de 10 bilhões de euros, correspondentes a perto de 60% do PIB, foi a cobrança de quase um dízimo (no caso, 9,9%) sobre os depósitos bancários a partir de 100 mil euros e de 6,7% sobre os de valor inferior a essa quantia.

A rejeição exige a negociação de novo pacote e a continuação do feriado bancário imposto para impedir a corrida aos depósitos - que a imprensa global vem chamando de Corralito Cipriota, em referência ao bloqueio (e racionamento) de retiradas adotado em 2001 pelo então governo De la Rúa, na Argentina.

Seja qual for a decisão que prevalecerá a partir dessa lambança aprontada pelas autoridades, os saques são inevitáveis. Pelos cálculos do governo cipriota divulgados ontem, caso sejam resgatados somente 10% dos depósitos, os depositantes estarão retirando dos bancos o equivalente a 38% do PIB. Na Grécia, onde, apesar de tudo o que aconteceu, ninguém ousou meter a mão no patrimônio dos correntistas, as retiradas alcançaram, em alguns meses, 30% dos depósitos.

Ainda ontem, circulou insistentemente na imprensa mundial o boato de que Chipre se retiraria ou seria empurrado para fora da área do euro - o que implicaria o retorno da moeda nacional (que antes do euro era a lira cipriota), a ser administrada pelo banco central local. E seria um desastre de proporções incomensuráveis.

Como a economia cipriota foi (literalmente) para a bancarrota, a lira, com esse ou outro nome, seria ressuscitada fortemente desvalorizada ante o euro, sujeita a novas depreciações. Bastaria esse motivo para que os correntistas fossem imediatamente aos saques. E, nesse caso, as autoridades seriam obrigadas a montar um corralito especial, ou seja, um cronograma de liberação dos depósitos que voltariam aos correntistas, sabe-se lá em que prazo e com que corrosões.

Também ontem, o governo de Chipre tentava negociar assistência especial com o governo da Rússia, baseado no pressuposto de que em torno de 40% dos depósitos em bancos cipriotas pertencem a instituições financeiras e companhias russas. Seria uma proposta que, para os russos, equivaleria a perder os anéis para não perder os dedos. O problema é que essas negociações são complicadas e os bancos não podem permanecer fechados por muito tempo.

Chipre é uma economia nanica, de PIB inferior a 20 bilhões de euros. (Só para comparar, o Bradesco tem um patrimônio líquido na casa dos 25 bilhões de euros.) Poderia parecer que, embora localmente impressionante, o estrago infligido à economia europeia teria tudo para ser irrelevante.

Mas não é assim, há o enorme potencial do efeito contágio. Se um país-membro do euro está sujeito a um desastre dessa magnitude, outros também estão. De nada vale as autoridades da troica repetirem que Chipre é um caso único. Já disseram o mesmo sobre Grécia, Irlanda e Espanha...

No mais, persiste o espanto geral sobre quais terão sido as razões pelas quais as autoridades da troica tomaram uma decisão tão arriscada e, mais que tudo, tão idiota.

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