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O incansável colecionador de empresas

Fundador de marcas como Kaiser e Kero Coco, Luiz Otávio Pôssas Gonçalves não para de inventar negócios: da criação de insetos para ração animal à produção de madeira de lei

Cátia Luz, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2011 | 00h00

Perfil - Luiz Otávio Pôssas Gonçalves

Aos 69 anos, o mineiro Luiz Otávio Pôssas Gonçalves se enche de entusiasmo para falar que em sua fazenda Vale Verde, em Betim (MG), nasceram em cativeiro cinco filhotes de arara azul gigante, espécie em extinção. "É uma reprodução muito difícil", diz. "Há ainda ararajuba, papagaio chauá, arara vermelha, cuiú-cuiú...". No mesmo lugar, a 42 km de Belo Horizonte, está sua coleção de 20 mil orquídeas. Quem acha que a conversa vai parar no dia a dia de um empresário que pendurou as chuteiras após se desfazer de grandes companhias engana-se. Com a venda da Amacoco para PepsiCo em 2009 e da Kaiser há quase uma década, Pôssas multiplicou os negócios. A razão é que ele vê oportunidade em tudo o que gosta.

Exemplo disso foi a criação da MegaZoo, empresa de rações feitas com proteína originada de insetos. A ideia, nada ortodoxa, surgiu depois que Pôssas decidiu financiar um estudo de pesquisadores da Universidade Federal de Minas Gerais para buscar opções de alimentação para sua criação de mais de 1.300 aves. Ironicamente, foi em caçadas que ele pegou gosto pelos bichos. "Hoje é até proibido falar disso, né? Mas já estou no crédito há muito tempo, com a criação em cativeiro."

Para abastecer a fábrica de rações e atender clientes como zoológicos, Pôssas criou ainda a Nutrinsecta, que fornece por mês 1 tonelada de moscas, besouros, grilos e baratas. O faturamento ainda é pequeno, mas o sócios já têm pedidos para exportação e esperam quintuplicar a produção com a entrada em operação de uma nova fábrica. "Sempre foi assim. Um negócio atrás do outro. Ele adora gente, conversa com todo mundo e considera todas as possibilidades", diz Renato Barcellos Guimarães, dono da consultoria em fusões e aquisições RBG Consulting, que foi diretor financeiro do grupo de Pôssas nos anos 90.

Com a facilidade com que cria empresas, Pôssas se desfaz delas. Além da Kaiser e da Amacoco, o empresário perdeu as contas de quantos negócios passou pra frente. "Vendo com prazer. Não tenho saudades. Tudo meu está à venda. Menos a minha família. E o meu caráter", diz.

O projeto dos insetos representa muito pouco de seu portfólio de negócios. O empresário está entre os maiores fornecedores de coco do País (com fazendas na Bahia, Espírito Santo e Pará), mantém operações de grande porte no mercado imobiliário mineiro (como incorporação de shoppings e prédios corporativos), tem fazendas de gado, criação de trutas e agora investe pesado em projetos florestais, como plantação de eucalipto e de madeira de lei. "Temos 20 mil hectares voltados para isso. Até fim do ano serão 40 mil hectares ", diz José Renato Araújo, diretor comercial do Grupo Vale Verde.

Empreendedor serial. Quando Pôssas estreou no mundo dos negócios, na década de 70, o termo empreendedor serial nem existia por aqui. Mas o significado da expressão que ganhou o mundo nos anos 90 já corria nas veias do empresário. Pôssas começou carregando caixas na distribuidora da Coca-Cola de sua família,em Minas. "Foi como um castigo, já que eu não gostava de estudar. Depois passei à produção, dirigi caminhão, fui gerente e diretor." Mais tarde, além de assumir o controle da indústria herdada do pai, deu início à coleção de novos negócios.

Enquanto trabalhou para Pôssas, Guimarães, da RBG Consulting, tocava uma corretora de valores, uma empresa de exportação e importação e a Amacoco, parceria do empresário mineiro com a Sococo, que chegou a ter 70% do mercado nacional de água de coco. "Um dia ele saiu de uma reunião com um representante da GNC (General Nutrition Center), multinacional americana de nutrição, e me disse: "Vamos entrar nisso aí". Falei que iria fazer um estudo. "Precisa não. Isso é muito bom", ele respondeu", diz Guimarães. Foram 16 lojas de suplementos alimentares no País. Para tocar o dia a dia, faltava paciência. "Ele queria a novidade. Era capaz de dormir vendo um relatório financeiro." Quanto às apostas erradas de Pôssas, Guimarães é econômico: "Só acerta quem tenta".

Na mesma época, o empresário tinha ainda lojas de fast-food, distribuidora de bebidas e 17 restaurantes comprados para fortalecer a marca Kaiser. Rodrigo Veloso, criador da água de coco O.N.E, vendida para a PepsiCo em 2010, diz que vê no empresário uma inspiração. "Não importa se o negocio é grande ou se vai dar muito dinheiro. O que ele quer ver é o sonho realizado".

Parque ecológico. A própria fazenda Vale Verde ele transformou em um parque ecológico, que fatura R$ 6 milhões por ano. Sem contar a premiada cachaça que leva o nome da propriedade. "Comecei a fazer de brincadeira, usando a tecnologia que aprendi na Kaiser", diz. Com uma produção de 200 mil litros, a marca fatura R$ 3,6 milhões por ano.

Mas foi com a criação da Kaiser que Pôssas deu seu tiro mais certeiro. Como distribuidor da Coca-Cola, ele pensou em ter uma cerveja para usar como arma de combate. "A gente enfrentava a venda casada, em que o dono do bar, para ter determinada cerveja, tinha que levar os refrigerantes do mesmo fabricante", diz. Como a Coca-Cola não tinha bebida alcoólica, ele tentou convencer a matriz a instalar uma cervejaria no País. Recebeu como incentivo uma nota de US$ 1 do então vice-presidente mundial, Donald Keugh.

Com um empréstimo de US$ 6 milhões, criou a cervejaria por conta própria. A Kaiser, que chegou a ter 19% do mercado de cerveja brasileiro, foi vendida em 2002 para a canadense Molson e hoje pertence à Heineken. Pelos 12% que detinha na empresa, Pôssas embolsou US$ 91,8 milhões. A nota de US$ 1, ele emoldurou. Hoje é um quadro na parede.

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