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O inimigo somos nós

Com o novo coronavírus, o nacionalismo parece bater à porta em quase todo lugar

Albert Fishlow, O Estado de S.Paulo

19 de abril de 2020 | 04h00

Os acontecimentos dos meses mais recentes ameaçam recriar o mundo. Quem poderia imaginar que um simples coronavírus teria um impacto tão extraordinário. Afinal, era apenas uma gripe, exagerada pelos intelectuais para inibir a nova liderança da direita.

A globalização, fonte de impulso positivo para a economia global durante 75 anos, está agora sob séria ameaça. O comércio internacional foi um mecanismo central da expansão econômica no período do pós-guerra, crescendo a um ritmo médio duas vezes mais rápido que o PIB mundial. A eficiência cada vez melhor é descartada em favor do estímulo local.

Agora, o nacionalismo parece bater à porta, em quase todo lugar. Não existe nenhum grau de cooperação entre os membros do G-20. A imigração é desencorajada. Mesmo dentro dos próprios países, os deslocamentos foram limitados. Estão sob ameaça o processo de crescimento acelerado nos países em desenvolvimento e as infusões de mais capital e tecnologia externos.

Os juros caíram a patamares mínimos, e a política monetária perdeu sua influência. Nem o grande aumento nos déficits fiscais foi capaz de estimular a produção. A falta de confiança disparou. O setor de serviços, importante fonte de expansão, foi dizimado. Os menos qualificados são empurrados para a pobreza, além de uma mortalidade muito mais alta. O que fazer? A receita não é inovadora. Confrontados com essa doença, alguns países fizeram boas escolhas; outros, infelizmente – incluindo os Estados Unidos e o Brasil – decidiram acreditar que estão imunes.

Primeiro vem a necessidade de testes em massa e a distribuição eficiente do essencial para um tratamento eficaz: equipamento de proteção individual para médicos e enfermeiros, como máscaras e aventais, bem como espaço nos hospitais e equipamento adequado, os respiradores, para os casos mais graves. Ligadas a isso temos as restrições ao livre deslocamento de indivíduos: máscaras para o rosto, distanciamento ao fazer compras e, principalmente, ficar em casa. Isso também significa o fechamento de muitas instalações industriais e praticamente todos os serviços.

Um segundo estágio ocorre quando há um declínio regular e contínuo na mortalidade e no número de novos casos. Isso pode permitir mais contato, ainda que limitado, e a abertura de estabelecimentos antes fechados. A participação em larga escala continuará uma raridade. Teremos mais uso das informações particulares de contato para localizar e limitar o ritmo de contágio geograficamente conforme o necessário. Eis aqui um ponto em que os países divergem: alguns usam meios eletrônicos para rastrear indivíduos, enquanto outros exigem participação telefônica.

Um terceiro estágio consiste em um retorno prolongado à normalidade. A vigilância seguirá necessária para evitar um ressurgimento. Ao mesmo tempo, a abundância de pesquisas científicas acabará resultando em uma vacina para evitar que a doença se torne recorrente. No Brasil e nos Estados Unidos, Bolsonaro e Trump desdenharam regularmente de todos os limites a suas decisões e ao seu poder pessoal. Apenas a família conta. E as próximas eleições ocorrem daqui a meses.

Relutantemente, Trump foi obrigado a ceder parte do controle ao dr. Anthony Fauci, apesar de uma preferência por criticar os outros por seus erros imaginários. Assim, em vez de igrejas lotadas na Páscoa, ele aceitou contrariado o conselho dos especialistas e prorrogou a quarentena até o dia 1.º de maio. Do ponto de vista ético, ele não está perturbado pela grande necessidade de conter o desemprego ao custo de muitas mortes adicionais.

Seu ganho temporário de popularidade foi perdido conforme o contágio se espalhou, enquanto a popularidade da maioria dos governadores aumentou substancialmente. Foram eles que obtiveram os suprimentos necessários e os distribuíram de maneira eficiente. Os prefeitos também tiveram seus esforços reconhecidos.

O que segue aparente é a continuidade da divisão política. Desta vez, Trump enfrenta um rival que esperava evitar. Lidou com os governadores democratas com críticas, desdém e a falta da distribuição de suprimentos necessários. Em vez disso, quando disponíveis, esses recursos foram destinados aos seus defensores republicanos, preparados para reabrir tudo rapidamente. Ele fará qualquer coisa para vencer Biden.

No Brasil, Bolsonaro tem se comportado de maneira semelhante. Relutantemente, permitiu que o Congresso lidasse com os grandes gastos necessários para a resposta à disseminação da doença. Ele demitiu o ministro da saúde (Luiz Henrique) Mandetta por causa de seus esforços pessoais na tentativa de obter recursos do Congresso e sua cooperação com os governos estaduais na imposição de limites à livre circulação do público.

Bolsonaro também é tido como figura heroica entre seus partidários, e também defende o uso de remédios contra a malária para aliviar rapidamente os sintomas.

Haverá um imenso déficit no ano que vem e um crescente endividamento líquido e bruto. Será que o Brasil conseguirá retornar a um orçamento mais reduzido já em 2021, como insiste Mansueto Almeida, ou será que a decisão de Bolsonaro de lançar sua campanha terá precedência? A resposta é fácil, mas o problema contínuo é difícil. / TRADUÇÃO AUGUSTO CALIL 

* ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. ESCREVE MENSALMENTE 

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