O insustentável desejo de viver como a cigarra

O insustentável desejo de viver como a cigarra

Pessoas físicas, governos e sistemas financeiros apresentam em comum uma certa dose de apego ao perigo, algo que psicólogos talvez qualificassem como atração do abismo.

Marco Antonio Rocha, O Estado de S.Paulo

29 de março de 2010 | 00h00

Essa pode parecer uma avaliação superficial, mas não é despropositada, pois de fato, em certos comportamentos, governos, bancos e gente comum exibem notável semelhança.

No caso das pessoas físicas, um exemplo bem do dia a dia é o do fumante que não consegue abandonar o hábito, mesmo cercado de provas dos danos que pode causar à sua saúde e da probabilidade de um fim de vida muito cruel. Com os alcoólatras acontece a mesma coisa: conhecem perfeitamente o risco que estão correndo, mas caminham para ele como se o ignorassem. E o jogador viciado, cuja propensão para o desastre - que sabe cada vez mais próximo - não o demove do retorno ao carteado.

Está presente nessas atitudes a ideia de que "comigo essas coisas não acontecem" ou, no caso do investidor ambicioso, que persegue a quimera do ganho fácil nas correntes ou pirâmides de capitalização, a de que "eu pulo fora antes que estoure". O recente caso de Bernard Madoff, nos EUA, que deu um golpe de US$ 50 bilhões e está preso, mostrou bem como se pode erigir um monumental conto do vigário alicerçado não na ilusão das viúvas, mas na ganância de quem sabe do risco, mas acha que sai fora antes de chegar nele.

No mundo dos bancos é também a avidez do ganho alto e rápido que os leva a assumir riscos despropositados, embora sabendo melhor do que o comum dos mortais que é preciso evitar o canto da cotovia. No entanto, não o evitaram quando se puseram a atender à demanda de crédito nos EUA por pessoas que claramente não tinham, nem teriam, como pagar seus empréstimos, pois, na prática, eles, os bancos, simplesmente revendiam as promissórias podres para outras instituições, como fundos de pensão e seguradoras, que acreditavam poder lucrar muito mais do que os emprestadores iniciais. E assim a nave andou até soçobrar...

No âmbito dos governos é sempre a busca da popularidade e do lucro político que os encaminha para o terreno dos riscos e os mantém nele até a corda rebentar. Ninguém estará esquecido do congelamento de preços no mandato do ex-presidente José Sarney. Toda a equipe econômica do governo sabia, e ele próprio também sabia, que aquilo era uma jogada de curtíssimo fôlego, cuja única serventia - se alguma tivesse - era a de ganhar algum tempo para que se pudesse aprontar uma política econômica séria. O risco envolvido era altíssimo, era o risco de desmoralização de um governo que apenas iniciava a redemocratização do País depois de 20 anos de autoritarismo. Mas não se conseguiu evitar o caminho do risco. Aconteceu o que todo mundo previa: o congelamento fracassou e um tsunami inflacionário se levantou, só sendo contido dez anos depois, já no governo Fernando Henrique.

Agora, estamos com o risco de nova fase de desorganização financeira, que todo mundo no governo já anteviu, mas o imobilismo prevalece.

Os alertas estão soando de todo lado. Há sinais, embora ainda leves, de recrudescimento da inflação. O déficit em conta corrente do balanço de pagamentos cresce de maneira inquietante. A Dívida Pública Mobiliária Federal interna (DPMFi) apresentou em fevereiro uma alta de 3,6%, significativa, em seu estoque e, não obstante, as autoridades pensam em novas emissões de títulos da dívida para capitalizar a Petrobrás e acelerar obras do PAC que estão engatinhando, além de precisarem "rolar" cerca de um quarto da dívida nos próximos 12 meses.

Pairando sobre um cenário que começa a criar inquietações, há o problema do crescimento do consumo em ritmo superior ao da capacidade de oferta da indústria nacional, o que leva o comércio a um frenesi de importações para atender a freguesia, e a própria indústria a lançar mão de itens intermediários importados para dinamizar a produção. Isso é resultado da política de incentivo ao consumo do governo, desde o seu início, anabolizada em 2009 sob a justificativa de evitar os efeitos internos da recessão mundial.

Só que agora o remédio parece exagerado para muitos analistas. Não haveria mais necessidade de continuar estimulando o consumo. Ao contrário, já deveriam ter sido adotadas medidas, não para reduzir abruptamente o nível de consumo, mas para abrandar, pelo menos, sua aceleração - como a contenção do crédito, das vendas a prazo e a elevação das taxas de juros.

Mas as decisões do Comitê de Política Monetária mostram que é mais conveniente para o governo, em ano eleitoral, manter a festa consumista do que pensar em cuidados com a inflação e com as contas públicas.

Resta torcer para que o facilitário não vá além da conta e exija, em 2011, o garroteamento vigoroso da economia.

JORNALISTA. E-MAIL: MARCOANTONIO.ROCHA@GRUPOESTADO.COM.BR

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