Roberta Machado/Embaixada do Japão/Divulgação
Roberta Machado/Embaixada do Japão/Divulgação

'O interesse chinês pela América Latina é grande com ou sem Trump'

Em passagem pelo Brasil, o professor japonês Nobuaki Hamaguchi disse que com guerra comercial aumenta interesse do país asiático por áreas produtoras de alimentos

Entrevista com

Nobuaki Hamaguchi, professor da Universidade de Kobe

Lu Aiko Otta, O Estado de S.Paulo

03 Setembro 2018 | 05h00

BRASÍLIA - A guerra comercial entre Estados Unidos e China aumenta a atenção do país asiático em áreas produtoras de alimentos, como a América do Sul. Mas o interesse é forte e crescente “com Trump ou sem Trump”, disse ao Estado o professor Nobuaki Hamaguchi, da Universidade de Kobe. O avanço chinês na região pressiona o Japão a buscar um acordo comercial com o Mercosul.

Hamaguchi e mais dois estudiosos asiáticos sobre a América Latina, Jie Guo, da Universidade de Beijing, e Chong-Sup Kim, da Universidade de Seul, lançarão neste ano um livro intitulado Cutting the Distance. Neste mês, ele proferiu na Universidade de Brasília uma palestra sobre a presença asiática na região. 

A guerra comercial traz mais riscos ou benefícios para o Brasil?

Não sei dizer. Porque a intensidade e duração da guerra, ninguém sabe. Meu coautor, lá de Pequim, disse que há um interesse forte na área de alimentos. E nesse contexto os interesses chineses na América Latina são muito fortes e estão crescendo. Com Trump ou sem Trump.

O sr. disse em sua palestra que a região deve se integrar à iniciativa chinesa, mas deve ter uma estratégia para isso. Não parece ser o nosso caso.

Precisamos fazer mais estudos, mais análises técnicas sobre a geopolítica de recursos e a geopolítica do agronegócio. O Brasil precisa colocar seu próprio plano de desenvolvimento e investimento para o futuro olhando com essa perspectiva mundial.

A iniciativa Belt and Road de integração econômica, que a China quer expandir para a América Latina, é algo que acontecerá independentemente da nossa vontade ou temos opção de não estar nela?

Os investimentos chineses já estão acontecendo, em transmissão de energia, compra de áreas de produção. A guerra comercial promove ainda mais interesse da China no Brasil quanto a alimentação, na área de soja especialmente. Eles podem comprar terrenos, estruturas de produção, armazenagem. E infraestrutura de portos e tudo isso. Isso vai aumentar o interesse. Eles querem comprar. Se os brasileiros não querem, não vendam. Façam com seus recursos.

Esse maior pragmatismo do Japão é reação ao avanço da China na América Latina?

Isso promove, certamente. Minha perspectiva é essa. Se nada for feito, há um vácuo de interesses internacionais e a China tem sua estratégia de apresentar oportunidades para produtores aqui. A China precisa buscar demanda no mercado externo, e certamente aqui tem essa oportunidade. O Japão, que sempre se considerou a referência de Ásia para a América Latina, observa esse movimento. A entrada forte da China parece uma invasão de território.

O que Mercosul e Japão têm a ganhar com um acordo comercial?

O Mercosul, inclusive o Brasil, pode ganhar mais participação no mercado japonês em áreas em que já tem vantagem comparativa. Certamente, produtos agrícolas, como carne e frutas. Para as empresas japonesas, o mais importante seria o setor automobilístico, que gradualmente está se expandindo no Brasil. Com o acordo, elas podem reorganizar cadeias produtivas, importando do Japão algumas peças importantes que atualmente são produzidas no Brasil. Isso pode baixar o custo e aumentar a qualidade.

Isso não parece interessante para a indústria brasileira.

O Mercosul negocia um acordo de livre-comércio com a União Europeia. Então, existe esse vetor: a busca de uma competição mais equilibrada. É bom para a indústria japonesa ter a mesma condição que os produtores europeus.

Brasil e Japão têm uma parceria econômica antiga, mas só agora se fala no acordo. Por quê?

Não é só agora. Tem-se falado do acordo desde a década de 1990. Em julho, em Tóquio, a Confederação Nacional da Indústria (CNI) e o Keidanren fizeram uma declaração a favor do acordo. O Japão está se esforçando mais em sua estratégia de acordos internacionais e regionais. Os interesses que já existiam ficaram mais relevantes.

O setor agrícola japonês seria um empecilho ao acordo?

Esse é um ponto que sempre requer cautela. Segundo informação que tive, a negociação (do Japão) com a Colômbia está um pouco atrasada por causa disso. O acordo não abre totalmente os mercados, mas cria cotas para o livre-comércio. Então, a negociação é de quantidades. O Brasil e o Japão ainda não fizeram análise sistemática sobre quais são os produtos e setores mais sensíveis. Geralmente, no Japão, são: arroz, carne, algumas frutas, especialmente laranja, produtos lácteos. E o açúcar, certamente, em função da população de Okinawa, que é uma região mais pobre. Esses produtos são tradicionalmente protegidos. Seria possível o Brasil exportar arroz para o Japão?

Aqui tem arroz. Se os japoneses vão comprar, é outra discussão.

Não é só uma questão de tarifa, mas há regulamentos sanitários e fitossanitários que são barreiras grandes. Mas o Japão já tem acumulada uma experiência de livre-comércio, especialmente por causa das negociações do TPP (Aliança Trans-Pacífica). Não é o Japão dos anos 1980. Ainda que existam, as dificuldades não são tão grandes quanto antes.

O sr.  se refere a um acúmulo de estudos, análises e conhecimentos durante as negociações, que facilitam um novo acordo?

Sim. Em geral, a dificuldade do setor agrícola japonês não é mais importação e exportação, mas sua própria estrutura produtiva. Com a diminuição populacional e a escala do mercado interno menor do que antes, os produtores precisam procurar o mercado externo, em vez de proteger o mercado interno. Alguns produtores pensam em exportar carne wagyu para o Brasil, por exemplo. Ou até exportar arroz especial para sushi, que não é igual aqui. Vocês poderão comer um sushi melhor.

 

 

 

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