Claudia Trevisan/Estadão
Claudia Trevisan/Estadão

'O investimento segue catastrófico para um País do tamanho do Brasil', diz economista

Para pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, nos Estados Unidos, PIB do primeiro trimestre demonstra como a economia brasileira perdeu dinamismo; na avaliação dela, há risco de o País voltar a ter recessão

Entrevista com

Monica De Bolle, economista

Renée Pereira, O Estado de S.Paulo

30 de maio de 2019 | 14h46

A economista Monica de Bolle, pesquisadora do Instituto Peterson de Economia Internacional, em Washington (EUA), viu nos números divulgados nesta quinta-feira, 30, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) uma demonstração de como a economia brasileira perdeu dinamismo - de janeiro a março, o Produto Interno Bruto (PIB) do País recuou 0,2%. Na avaliação dela, o País está sem rumo e sem perspectivas de curto prazo.

Para piorar, a economista não vê no governo pessoas com “imaginação” suficiente para tirar o País dessa trajetória de paralisia. Para ela, não há motor de crescimento pelo lado da oferta, pelo lado do serviço e pela indústria. E, para piorar, diz, o "investimento segue absolutamente catastrófico para um País do tamanho do Brasil".

A seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a sua avaliação sobre o resultado do PIB no primeiro trimestre?

Foi horrível. É claro que tivemos os efeitos da tragédia de Brumadinho e a crise na Argentina, mas isso não explica tudo o que vimos no primeiro trimestre. Vejo algumas coisas importantes: uma delas é que, desde que o Brasil saiu da recessão (no início de 2017), parece que as forças de crescimento estão completamente emperradas, não por motivos de curto prazo ou que possam ser resolvidas rapidamente. Elas estão emperradas por razões estruturais muito sérias.

Quais razões são essas?

O Brasil está com uma cara de economia que perdeu completamente o dinamismo. Vemos isso olhando os resultados de agora e também os anteriores.  Temos uma indústria que não tem dinamismo nenhum, já estamos vendo isso há 20 anos, mas se agravou continuamente até chegar no ponto atual; o setor de serviços é dependente da capacidade de consumo das pessoas; e o consumo das famílias está num ritmo de expansão muito fraco desde a saída da recessão. De um lado porque o desemprego está muito alto e de outro por causa das incertezas causadas exatamente pela falta de emprego e pelas discussões sem rumo econômico do País. A renda real está crescendo num nível muito baixo e os empregos criados, inclusive por causa da reforma trabalhista, têm sido muito precários, em que as pessoas não têm segurança. Tudo isso conspira para tornar o consumo das famílias fraco. Portanto, não há motor de crescimento pelo lado da oferta, pelo lado do serviço e pela indústria.

E os investimentos também continuam caindo.

O investimento segue absolutamente catastrófico para um País do tamanho do Brasil, o que sinaliza exatamente as fragilidades estruturais sobre as quais eu comentei. Investimento é uma coisa que não depende das variáveis de curto prazo. Ele reflete as perspectivas futuras de como as empresas estão vendo o futuro do País. Já tivemos ocasiões em que, mesmo com o quadro econômico ruim, o investimento não caiu tanto quanto agora e até reagiu porque havia uma perspectiva de melhoria futura. Não tem sido o caso dos últimos três anos. Quando a gente olha para trajetória dos investimentos tem sido sistematicamente fraca porque existe essa visão do setor produtivo brasileiro de que falta dinamismo para que as empresas tenham vontade investir e aumentar a capacidade produtiva. Isso reforça o quadro de demanda reprimida.

E quais medidas o governo precisa tomar?

O problema é que no momento não há espaço para tomar medidas anticíclicas nem para dar respiro de curto prazo. O investimento público caiu loucamente. Mas acho que tem algo do qual tem se falado pouco no tempos que é o papel do BNDES (Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social). No passado, sempre que a economia não estava indo bem, as empresas podiam contar com certo auxílio do BNDES. Não estou falando de crédito do BNDES nos moldes da Dilma (Rousseff), mas a nossa realidade é que o sistema para funcionar ainda é muito dependente do BNDES. E o BNDES está fazendo exatamente o contrário e segurando o crédito. Então tem um nó aqui que é: vamos fazer o que com o BNDES, que papel ele terá na economia brasileira. Enquanto isso não é respondido, as empresas ficam a ver navios porque os bancos privados só concedem crédito a taxas extremamente elevadas. Tem um problema aí que ninguém consegue explicar. Por que os bancos só concedem a taxas elevadas? Se não tem crédito circulando, não tem como ter investimento.

O desempenho do agronegócio também não ajudou no primeiro trimestre. Isso pode prejudicar o crescimento do ano?

A agropecuária foi o único motor de crescimento da economia brasileira nos últimos três anos. Em 2017 e 2018 foi muito forte porque teve uma supersafra. Neste ano, não tivemos uma supersafra e não tivemos crescimento do PIB no primeiro trimestre. Sem isso, o resto do ano fica muito fragilizado porque o segundo e o terceiro trimestres são mais fracos e vão estar contaminados por essa discussão em torno da reforma da Previdência e, no quarto trimestre, já estaremos entrando num clima de ano eleitoral – em 2020 teremos eleições municipais. O quadro é muito ruim.

Há risco de nova recessão?

Não está descartado. Há risco de nova recessão. Acho que o cenário por enquanto é de crescimento próximo ao de 2017 e 2018, de 1%. Mas estou começando a duvidar desse crescimento exatamente porque em 2017 e 2018 o resultado, de crescimento de 1,1% foi decorrente da reação do agronegócio no primeiro trimestre e neste ano não tivemos isso. Só mesmo se a gente acreditar que a reforma da Previdência vai ter algum impacto extraordinário sobre a expectativa, o que eu duvido. Porque a reforma da Previdência vai demorar para passar e isso não tem efeito no curto prazo. Para mim, acho que o cenário de crescimento é abaixo de 1%.

A reforma da Previdência não tem capacidade de trazer novos investimento? Há quem diga que há investimentos represados esperando a reforma passar.

Não acredito em nada disso. Para mim, é realismo mágico, claramente. Cadê o investimento represado? Olho em volta e não vejo nada. São os investidores externos? Não. O Brasil está perdendo relevância externa, rapidamente.

Por que?

O PIB de hoje não ajuda muito. Mostra uma economia sem dinamismo. E qual investidor vai querer colocar dinheiro numa economia sem dinamismo? Antes disso, acho que tudo que a gente viu nos primeiros quase seis meses de governo Bolsonaro é muito indicativo do tipo de governo que é esse. É um governo que está mais empenhado em criar barulho e ruído e em falar para a base do que fazer coisas que possam colocar o Brasil em algum tipo de rumo. O investidor estrangeiro, e tenho conversado com alguns deles, já se deram conta de que esse governo está muito aquém do que imaginavam há seis meses. Então não estou  vendo investimento represado. Estou vendo muito mais cautela e até um certo descaso em relação ao Brasil. Podem dizer que o Brasil é uma economia importante, a maior da América Latina, mas é uma economia que não tem dinamismo nenhum. Não vale a pena. Os riscos são altos.

O cenário internacional pode ser um entrave a mais para a retomada da economia brasileira?

Sim. No meio disso tudo temos a guerra comercial entre Estados Unidos e China, que tende a ter um efeito ainda pior sobre países emergentes com vulnerabilidade como o Brasil. Não adianta achar que a soja vai nos salvar, não é verdade. Olha o desempenho da soja no primeiro trimestre de 2019.

Há uma carência muito grande de investimentos. O governo não tem dinheiro e investidores estão sem apetite. Tudo está no limite.

Tá tudo muito no limite, sem perspectivas de investimentos e sem ter um governo que tenha capacidade de colocar a cabeça no lugar e pensar fora da caixinha extremamente liberal, excessivamente liberal, que é o que permeia o Ministério da Economia. Tudo passa pela reforma da Previdência, reforma tributária e privatização. Nenhuma dessas coisas é fácil de fazer. A reforma da Previdência está mais avançada; a tributária tem muita discussão, tem o nó dos Estados em crise. As privatizações também não são fáceis. Você não sai vendendo empresas de um dia para o outro. Tem um processo. Tem de desenhar o pacote de privatizações, escolher os ativos e ver se há apetite dos investidores por esses ativos. Além disso, o que entra de caixa é temporário. Esse é um governo sem imaginação. São bons técnicos, são pessoas sérias, tem boa cabeça, mas não têm imaginação. O Brasil precisa pensar fora da caixa. O que podemos fazer?

O que?

Já levantei a questão das nossas reservas, a única coisa que temos de sobra. Boa parte dela, que não está comprometida com nada, é um seguro e uma poupança. O pedaço que é excedente não serve para nós como seguro, serve mais como poupança. E podemos usar essa poupança para abater dívidas, que não têm efeito muito indireto sobre demanda agregada. Outra maneira é usar as reservas para respaldar linhas de créditos, que podem ser concedidas pelo BNDES para investimentos específicos que venham a ser feito pelo setor privado. Aí você daria um papel para o BNDES, impulso no crédito e com retorno maior da poupança do que temos hoje, que é o rendimento do título americano de dez anos. Por que não estamos botando a cabeça para pensar nessas coisas? Ficam com essa coisa refratária. Aí é uma paralisia completa.

A queda no PIB já era esperada? 

Embora o mercado diga que sim, todo mundo achava que a economia ia crescer 2,5% em 2019. Esse cenário se foi, não tem probabilidade de isso ocorrer com esse resultado do primeiro trimestre. O problema é que esse desempenho afeta a expectativa de muita gente, do pequeno comerciante ao trabalhador. Pode ser um número de retrovisor, mas afeta as expectativas.

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