O IPCA de março antecipa novas frustrações

Ao atingir 1,32% em março, a inflação oficial medida pelo IPCA foi a maior em 20 anos para o mês e confirmou as expectativas dominantes - embora houvesse previsões ainda piores. Em 12 meses, o índice de 8,13% aproximou-se do que os agentes econômicos preveem para 2015. O índice de difusão de 74% mostrou quão disseminado é o fenômeno inflacionário. E a inflação afetou com mais intensidade as famílias de menor renda, pois foi puxada por itens como energia elétrica, alimentos e bebidas.

O Estado de S.Paulo

09 de abril de 2015 | 02h00

Como comparação, a inflação de 3,83% no trimestre consumiu 43,5% do reajuste de 8,8% do salário mínimo e 61,5% da correção das aposentadorias pelo INPC em 2015.

A inflação do primeiro trimestre antecipou, assim, as dificuldades que a economia tende a apresentar no trimestre em curso. Como o resultado da alta de preços é a perda do poder de compra dos salários, o consumo continuará comprometido, salvo para as pessoas que conseguirem aumentos reais de renda. Mas isso não vem ocorrendo nem para os detentores de capital financeiro, pois, com a exceção do dólar, pouquíssimos ativos alcançaram valorização comparável ao IPCA.

Houve, de fato, a inflação corretiva decorrente da elevação dos preços administrados das tarifas de energia elétrica estancadas no ano eleitoral de 2014, o que representou mais da metade da variação do IPCA em março. Mas também subiram muito os custos com educação, saúde e cuidados pessoais - ou seja, com serviços essenciais. Em especial, aumentaram entre 5% e 15% os preços de alimentos como cebola, ovos, alho, feijão-fradinho e hortaliças. Os preços do tomate subiram 4,4%; do óleo de soja, 3,9%; do leite longa vida, 2,7%; e do pão francês, 0,9%. É provável que muitas famílias tenham reduzido a qualidade da refeição ou sacado recursos da caderneta de poupança para não se endividar no cartão de crédito.

Nem só o IPCA exibiu um resultado desastroso. Outro índice calculado pelo IBGE, o INPC, que mostra a inflação em 13 regiões metropolitanas ou grandes cidades, subiu 1,51% em março e 8,42% em 12 meses. E o IGP-DI calculado pela FGV aumentou 1,21% em março e 2,43% no trimestre. Reflete a alta de preços no atacado, que depois chega ao varejo.

É provável que o IPCA recue bastante neste mês, mas é improvável que caia abaixo dos 8% em 12 meses. Isso significa que o trabalho forçado de corrigir a inflação via aperto monetário e fiscal está só começando. A recessão é o corolário natural.

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