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O jogo da galinha

Clássico da "teoria dos jogos" conta com muitas aplicações na vida real, na economia e na política, por isso o jogo é muito estudado pelos especialistas em estratégia

Gustavo H.B. Franco*, O Estado de S.Paulo

29 de agosto de 2021 | 05h00

Esse clássico da “teoria dos jogos” não possui uma denominação muito clara em português. Em inglês é “the game of chicken”. Traduzido ao pé da letra, como no título acima, parece uma coisa tola, mas não é.

Em sua formulação mais simples, o jogo funciona assim: dois rapazes disputam o coração de uma moça em um jogo onde cada qual dirige um carro em velocidade na direção do outro. Perde o jogo quem desviar primeiro. 

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O perdedor é considerado “galinha”: “Chicken”, em inglês, designa pessoa medrosa ou covarde.

É um jogo idiota, feito sob medida para valentões irresponsáveis.

Mas o problema é que existem muitas aplicações na vida real, na economia e na política, por isso o jogo é muito estudado pelos especialistas em estratégia.

Pense em um duopólio onde os produtores estão vendendo abaixo do custo, ambos sofrendo, para forçar o concorrente a sair do mercado. Ou na corrida armamentista. Ou em Jair Bolsonaro testando os limites da liberdade de expressão com o STF (e as “instituições”).

É a escalada da insensatez, um título mais adequado para o “jogo”.

Há aplicações do jogo da galinha na biologia evolutiva: modela-se como um jogo desse tipo, por exemplo, a disputa por alimento entre dois ursos, os maiores e mais ferozes animais da floresta, na qual ganha quem não desistir, sendo que o conflito debilita muito seriamente os contendores. 

Uma teoria, ou uma “solução” para o jogo, na esfera da evolução: as espécies que sobreviveram à recorrência desses embates são as que introduziram alguma fórmula tácita de desistir coordenadamente do conflito, sem que tenham de se machucar muito, com isso evitando a mútua exterminação.

Existem inúmeros formatos para o jogo, as escolas militares estudam essas possibilidades à exaustão. Ocorre-me que Jair Bolsonaro deve ter estudado esses jogos, mas não foi o caso, segundo o testemunho do general Mourão: o presidente só viveu a fase “física” da carreira militar, do zero ao tenente, mas não a fase “intelectual”, pertinente à formação dos oficiais superiores. Se colocarmos na balança – explica o general –, ele ficou 15 anos na carreira militar e 30 como político.

Talvez por isso esteja levando longe demais o jogo da galinha com a democracia brasileira.

Na falta de formação técnica na ciência galinácea, é muito recomendável adquirir um “suplemento”: assistir ao documentário sobre Robert McNamara (The Fog of War, Oscar de melhor documentário em 2003) que, de forma didática, define 11 lições (pérolas de sabedoria a posteriori) de sua vasta experiência nesses assuntos galináceos. 

Bastam duas para nós: ponha-se no lugar do inimigo para entendê-lo (#1) e esteja sempre preparado para reconsiderar sua estratégia (#8).

Mas, segundo ele bem explica, com armas nucleares tudo muda. O jogo deixa de ser um jogo: basta um erro que a espécie é extinta.

O quadro de resultados abaixo oferece apenas uma ilustração, típica das formulações de “teoria dos jogos” para o problema, tomando como exemplo a corrida nuclear entre americanos e russos. 

Cada um dos atores escolhe uma estratégia entre duas alternativas, transigir ou escalar. Depois, é jogo jogado, a tabela mostra os resultados para cada um deles, medidos em pontos, nas quatro situações possíveis. 

Se os dois transigem, a vida segue, 5 pontos para cada lado. Se um resolve escalar, e o outro desiste, o valentão vence (100 pontos) e o outro se torna a (o) galinha (0). Se ambos escalam, entretanto, temos um evento nuclear, terrivelmente negativo para os dois, menos mil pontos para os dois.

Como os jogos desse tipo se desenrolam na vida prática? O incentivo é para escalar ou não? Como evitar o desastre?

O desfecho da corrida nuclear foi o de um “acordo tácito”, como no exemplo dos ursos, que preservou a espécie. Ambos fazem demonstrações teatrais de força, mas, de verdade, precisam relevar certas coisas, fingir que não viram outras tantas e fazer conta. Muita conta.

Permanece indefinida a crise dos mísseis de Brasília, mas com bastante gente trabalhando para não haver conflito.

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