O jogo da galinha: cena de filme ajuda a entender a dívida da Grécia

Em trecho de Juventude Transviada, com James Dean, dois jovens disputam um racha em direção a um penhasco: quem pular do carro primeiro, perde o jogo; veja trailer

Neil Irwin, Internacional New York Times

28 Abril 2015 | 19h15

Se você é o ministro das finanças de um país e circulam rumores de que seu papel em negociações cruciais está sendo reduzido e o custo dos empréstimos para seu país despencam, isto não é geralmente visto como um endosso de suas habilidades. É o equivalente governamental a um CEO renunciar e as ações da companhia darem um salto.

Mas foi precisamente isso que ocorreu na segunda-feira, 29, com o ministro das finanças da Grécia, Yanis Varoufakis; depois que o governo reorganizou sua equipe de negociadores para diminuir seu papel nas conversações sobre a reestruturação da dívida da Grécia, o rendimento do bônus do país com vencimento em dois anos caiu espantosos 378 pontos-base, ou 3,8 pontos porcentuais.

Os mercados estavam analisando as mudanças de pessoal procurando sinais sobre se as negociações cruciais terminarão num calote da dívida grega ou na saída da área monetária do euro, eventos que repercutiriam na economia global de maneira perigosa e difícil de prever. Para uma outra maneira de compreender os acontecimentos na Europa, porém, ajuda assistir a um filme de 1955 de James Dean.

A versão reduzida das conversações gregas é a seguinte: um governo novo e esquerdista chegou ao poder na Grécia, em janeiro, prometendo rever os acordos do país com seus credores internacionais e, com isso, abrandar as severas medidas de austeridade que devastaram a economia grega. Os credores, a saber, outros países europeus, o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Central Europeu (BCE), estavam dispostos a fazer algumas concessões, mas basicamente esperam que a Grécia honre seus compromissos.

Ao longo do caminho, os líderes do governo grego conseguiram aborrecer quase todas as pessoas e instituições com as quais precisam lidar. A Bloomberg registrou o quanto líderes europeus ficaram exasperados com Varoufakis sobre tudo, do estilo professoral às fotos fora de hora com sua mulher numa revista francesa.

As negociações entre a Grécia e seus credores são um jogo da galinha clássico, uma versão bem mais complexa do que ocorre no filme Juventude Transviada. Jim Stark, o personagem de James Dean nesse filme, é desafiado para uma "Corrida da Galinha", em que ele e seu rival, Buzz, dirigem carros roubados para a beira de um penhasco, e sai perdedor o jovem que saltar primeiro do seu carro.

O que torna um jogo da galinha assustador é que cada competidor precisa arriscar a vida para obter o melhor resultado. A coisa mais segura que os rivais poderiam ter feito seria saltar de seus carros para a segurança imediatamente (ou talvez nem sequer entrar neles), mas isso significaria conceder vitória total a seu adversário.

Da mesma maneira, o governo grego tem mais probabilidade de conseguir termos acordáveis quanto mais iminente parecer uma saída grega da zona do euro, com suas concomitantes consequências imprevisíveis.

Parte do que vem ocorrendo nas últimas semanas é que todos estão tentando avaliar o quão ruim seria esse desfecho. Se o seus carros se projetaram do penhasco, isso significa morte certa ou meros ferimentos? Neste último caso, ambas as partes provavelmente aguentariam mais tempo e, com isso, o risco de despencar do penhasco aumentaria.

Do ponto de vista dos credores, a Europa estaria em melhor posição para enfrentar uma saída grega da zona do euro do que alguns anos atrás no auge da crise no Continente. Há uma barreira de proteção centralizada e mais forte do BCE para impedir que a crise grega repercuta na forma de falências de bancos e calotes de governos em países como Espanha e Portugal.

Mas ninguém sabe muito bem o que exatamente ocorreria, e transcorridos apenas sete anos da quebra do Lehman Brothers e da crise global resultante, os estrategistas políticos globais prefeririam não ter de descobrir o quão resiliente estaria o restante do sistema financeiro global na eventualidade de uma saída grega. E diplomaticamente, a Grécia vem se aproximando furtivamente da Rússia, um lembrete nada sutil de que uma saída grega da Europa poderia levar o país a formar uma aliança mais profunda com Vladimir Putin.

Do ponto de vista da Grécia, uma saída da zona do euro tem aspectos negativos ainda mais diretos. Uma moeda recém-introduzida despencaria, deixando seus cidadãos mais pobres em meio a uma inflação provavelmente alta e uma maior retração econômica. Isso poderia preparar o cenário para um crescimento futuro, mas os primeiros anos seriam penosos, razão porque as pesquisas de opinião gregas têm manifestado uma forte oposição a semelhante medida, e o governo tem consistentemente prometido não deixar que ela aconteça.

Para tentar não chegar à beira do penhasco, o governo grego parece estar mudando motoristas. O primeiro-ministro Alexis Tsipras garantiu que Varoufakis permanecerá encarregado da equipe, mas que um vice-chanceler assumiria as negociações do dia a dia.

É uma questão indefinida se os gregos se mostrarão mais abertos a concessões substantivas do que estavam antes da mudança. É possível que a desconfiança pessoal que se estabeleceu entre Varoufakis e outros ministros europeus das finanças estava no caminho de um potencial acordo; por outro lado, pode ocorrer que sua posição dura era o caminho do melhor resultado para o povo grego, que gostaria de ver o fim dos cortes intermináveis em salários e pensões.

Seja como for, convém lembrar do que ocorreu em Juventude Transviada. As coisas não deram nada certo para Buzz - sua manga ficou enganchada no trinco da porta e ele despencou no penhasco e morreu. Mas tampouco funcionaram muito bem para o vencedor ostensivo, que passou o resto do filme lidando com as consequências legais e morais de um malogrado jogo da galinha.

(Tradução de Celso Paciornik)

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