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Gilles Lapouge
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O jogo de pôquer do 'Grexit'

Será que todos estão arregaçando as mangas para evitar o temido "Grexit"? O que será isso? É o termo usado na Europa para referir-se à possível saída (exit, em inglês) da Grécia da zona do euro. Certamente, algumas eminências europeias, exasperadas com a inflexibilidade dos gregos, com o lirismo opressivo dos seus líderes, a arrogância do ministro das Finanças, Yanis Varoufakis, e sua atitude de "prima donna", e com a obstinação da equipe de ultraesquerda do partido Tsipras, pensam num possível "Grexit".

Gilles Lapouge, O Estado de S.Paulo

20 de março de 2015 | 02h05

Mas os responsáveis de Bruxelas usam a eventual saída como espantalho para aterrorizar os gregos e conseguir dobrar os ideólogos intransigentes que subiram ao poder em Atenas. Na realidade, estamos assistindo a um jogo de pôquer de mentira: Atenas afirma estar disposta a deixar o euro se suas reivindicações não forem ouvidas por Bruxelas. E os europeus respondem aos gregos que, se não estiverem satisfeitos, podem arrumar suas malas.

A bem da verdade, todo mundo trapaceia. Todos desejam evitar a saída da Grécia. Mas essas escaramuças à beira do abismo são perigosas: um passo em falso, uma provocação, uma frase pouco hábil, e a Grécia poderá decidir por si, sem que ninguém no fundo deseje sua saída. Nessa hipótese, a Atenas "só restariam os olhos para chorar".

Nesse imbróglio, distinguem-se dois países. A Grécia, obviamente, porque o país corre o risco de pedir uma moratória, falência, no prazo de poucas horas, caso seus credores fechem a torneira da ajuda financeira. E, entre os europeus, evidentemente da Alemanha, e sua chanceler que lidera os esforços , porque é a verdadeira "patroa" da União Europeia, a "grande sacerdotisa" do rigor econômico e financeiro que os "engraçadinhos" de Atenas espezinham o dia inteiro.

A Alemanha é detestada pelos gregos. Segundo eles, todo o mal vem de Berlim. Irresponsáveis, incapazes de pagar seus impostos, com uma predileção pela improvisação, amantes das férias, da praia e das estrelas, os gregos odeiam Madame Merkel que impede que dancem, e os lembra continuamente de que a vida é uma dura provação, que é preciso ser austeros, severos, sérios, e que o trabalho é precípuo do homem.

A Alemanha é cansativa. É um espírito tacanho. Não para de insistir bobamente nos mesmos conselhos: é preciso saldar as dívidas, honrar as próprias obrigações, respeitar a própria assinatura, não gastar mais do que se ganha. Quantas banalidades! Pobre Madame Merkel! Pobre Alemanha! E os estrategistas de Atenas contra-atacam.

Voltando atrás no tempo, lembram que a Alemanha também tem uma dívida com a Grécia, uma dívida antiga de 70 anos. De fato, Atenas foi obrigada a conceder à Alemanha nazista um crédito forçado de 10 bilhões, que jamais foram reembolsados. Além disso, Berlim deve a Atenas indenizações por outros crimes de guerra nazistas. Ao todo, a fatura alemã se elevaria a 300 bilhões.

No início, os alemães deram risada. Descartaram os argumentos gregos com um subterfúgio jurídico. Depois, curiosamente, mudaram o tom. O estranho é que alguns alemãs decidiram atender às exigências de Tsipras, afirmando que, de fato, Berlim tem uma enorme dívida com a Grécia.

Die Linke, o partido alemão da esquerda radical, muito próximo, na verdade, ao líder grego Alexis Tsipras, calcula que a queixa grega é admissível. Há poucos dias, no Spiegel online, uma ex-candidata à presidência da República, Gesine Schwan (do SPD) considerou que o crédito forçado obtido pelos nazistas deve, evidentemente, ser reembolsado. O presidente do grupo dos Verdes, Anton Hofreiter, declamou que "este capítulo da dívida dos nazistas não está definitivamente concluído nem no plano moral, nem no plano jurídico".

Mais preocupante ainda é que simples cidadãos alemães começam a fazer exame de consciência. Na terça-feira, um casal de aposentados alemães visitou a cidade grega de Neapoli, de onde enviou ao povo grego a soma de 875 para começar a reembolsar o crédito forçado do tempo dos nazistas. E ainda pediram desculpas por não ter podido pagar mais, porque não são ricos, mas sabem que essa soma é insuficiente. De fato, segundo os seus cálculos, e, na sua opinião, cada alemão deve à Grécia a soma de 70 mil pelos crimes de guerra perpetrados pelos nazistas. / TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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