O lado ruim do ajuste

Retração das importações dificulta a recuperação da competitividade da economia

José Paulo Kupfer, O Estado de S.Paulo

05 de abril de 2016 | 05h00

Apesar das perspectivas negativas do mercado de trabalho, da crescente pressão fiscal sobre a dívida pública e do rastejante ritmo da produção, o setor externo da economia brasileira vem apresentando sucessivos recordes positivos. Não foi diferente em março, quando o saldo comercial alcançou o nível mais elevado para meses de março desde 2002 e somou, no primeiro trimestre, o maior valor nesse período em quase dez anos.

As projeções para o conjunto do ano sustentam expectativas de resultados recordistas. O saldo comercial pode bater em US$ 50 bilhões e, caso se confirme, será o maior de todos os tempos. Com isso, a tendência dos déficits em transações correntes continuará indicando recuo forte e veloz, podendo ficar abaixo de US$ 15 bilhões em 2016 e chegar a zero em 2017, depois de declinar de mais de US$ 100 bilhões em 2014 para US$ 60 bilhões no ano passado.

Mesmo com a paralisia da economia e as instabilidades provocadas pela gravíssima crise política que pode resultar na destituição do governo antes das próximas eleições gerais, também o ingresso de recursos externos não dá sinais de retração. Seja porque o valor dos ativos brasileiros ficou mais atraente em dólares, seja porque as taxas de juros no País são altamente sedutoras, num mundo de juros muito baixos ou mesmo negativos, ou ainda porque as políticas monetárias nas economias maduras inundam de liquidez a praça financeira global, o fato é que o dinheiro de fora continua entrando em abundância. A expectativa é que o volume de investimento direto acumulado no ano chegue a cerca de quatro vezes as necessidades de cobertura do déficit em transações correntes.

A folga externa é uma fonte importante de alívio no quadro econômico tenso e conturbado. Opera, de um lado, na blindagem do mercado cambial, ajudando também a neutralizar a transmissão de volatilidade para outros mercados. De outro, colabora para mitigar o mergulho da recessão, compensando, pelo menos em parte, com a contribuição das exportações líquidas, a pesada contração da demanda doméstica e dos investimentos. Não fosse isso, a recessão tenderia a ser ainda mais profunda.

Não existe controvérsia em relação aos fatores que explicam esse ajuste surpreendentemente rápido das contas externas. Desde o início do ano passado, a reversão dos déficits externos se deve, sem sombra de dúvida, à combinação de uma taxa de câmbio mais desvalorizada, que estimula exportações e inibe importações, com uma recessão econômica de grande amplitude, que age na mesma direção. O padrão da recuperação externa brasileira é dado, assim, principalmente por uma retração tão acentuada das importações que, apesar das limitações apresentadas pelas vendas ao exterior, permite obter um saldo respeitável.

Em março, por exemplo, o valor das importações recuou 30% sobre o mesmo mês do ano passado, enquanto as receitas de exportação caíram “apenas” 5,8%. A verdade é que a corrente de comércio brasileira vem encolhendo – no primeiro trimestre, a soma de exportações e importações caiu 20% em relação ao acumulado nos primeiros três meses de 2015 e ficou 30% abaixo do total alcançado no pico de 2010 –, e isso comprova que a consistência do atual ciclo de recuperação do setor externo deixa a desejar.

Esse é o lado ruim do ajuste. Deixar de importar bens intermediários ou bens de consumo finais é decorrência direta da fragilidade da demanda interna, que tende a reverter assim que a economia der sinais de retomada. Mas abrir mão de importações de máquinas e equipamentos, como vem ocorrendo com intensidade – no primeiro trimestre, a queda sobre o mesmo período do ano anterior foi de 27% –, tem outro e muito mais grave significado. Significa retardar a renovação e modernização do parque produtivo, dificultando a recomposição da produtividade e da competitividade da economia.

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