O legado de Thomas Edison no Brasil

O 'Estado' visitou o centro de pesquisas da GE, fundado por Edison, que será referência para a unidade que a companhia vai montar no País

, O Estado de S.Paulo

20 de setembro de 2010 | 00h00

Gustavo Chacra

ENVIADO ESPECIAL NISKAYUNA (NOVA YORK)

Economistas costumam dizer que a inovação sempre determinou a liderança americana no capitalismo mundial desde o século 19. De um lado, as universidades dominam as primeiras posições nos rankings internacionais, atraindo os jovens mais brilhantes de países como o Brasil, a Índia e a China, além dos próprios americanos.

Do outro, a determinação das companhias americanas em avançar e criar produtos que ninguém nunca imaginou que pudessem existir décadas antes, a não ser em livro de ficção científica. Nas últimas décadas, algumas empresas dos Estados Unidos, como a General Motors, não acompanharam a onda de inovação e ficaram para trás de rivais japoneses e europeus. Mas os americanos mantiveram a liderança graças a empresas como Microsoft, Apple e Google.

Fundada por Thomas Edison, a General Electric foi uma das que conseguiram se manter inovadoras ao longo das últimas décadas, com uma fórmula que mistura liberdade de pensamento, criação de um ambiente acadêmico e recursos generosos. Mais do que inventar a lâmpada, o grande legado de Edison foi ter criado o conceito de laboratório industrial, com fixação de metas para inovação.

Hoje, a GE tem quatro centros de pesquisa multi-disciplinares no mundo - Niskayuna (Estado de Nova York), Índia, China e Alemanha. O Brasil receberá a quinta unidade. "Escolhemos o Brasil por ser uma economia vibrante e por termos clientes importantes como a Petrobrás, Vale do Rio Doce e Embraer", afirmou ao Estado Mark Little, diretor do Centro de Pesquisas da GE em Niskayuna (NY). Além disso, segundo ele, o Brasil possui grandes talentos e boas universidades, o que pode facilitar o trabalho da GE.

Nesses centros, a companhia emprega mais de 1.100 doutores, sem falar em outros milhares de técnicos que realizam pesquisas em nanotecnologia, energia solar e eólica, baterias, metalurgia, aviação e medicina, tendo já conquistado dois prêmios Nobel para a instituição.

As universidades servem de modelo para esses centros, com prédios espalhados por um amplo campus no meio de um vale. O objetivo é criar um ambiente ao qual esses cientistas estão acostumados, sem terem de se preocupar com dinheiro ou estabilidade no emprego. A única obrigação deles é criar e encontrar soluções.

Mesmo a carreira acadêmica não precisa ser deixada de lado. Esses doutores continuam escrevendo artigos em publicações importantes e, em muitos casos, lecionam em universidades. O Estado visitou o de Niskayuna e encontrou cientistas de áreas que vão da matemática à medicina, da biologia à física. Alguns vieram do Irã, outros do Brasil, do Paquistão, da França, da China e, acima de tudo, da Índia.

Experiências. No laboratório de nanotecnologia, os cientistas buscam desenvolver uma superfície que seja um teflon quase perfeito para a água. Será usado na aviação e também em turbinas de moinhos de vento que produzem energia. O objetivo é evitar a acumulação de sujeira e gelo que, no longo prazo, causam fissuras. Na experiência, o cientista pinga uma gota na superfície. Imediatamente, ela escorrega sem deixar rastro algum - até mesmo o mel escorrega. Em outra, com proteções dos lados da superfície, a gota da água fica batendo de um lado a outro tentando escapar daquele teflon.

Outro experimento impressionante é o ímã de líquidos. Uma espécie de contraste é colocado em um pote. Em seguida, o cientista posiciona um instrumento magnético que atrai o líquido, formando uma espécie de cogumelo semelhante à imagem da explosão da bomba atômica em Hiroshima.

Os cientistas concluíram o desenvolvimento de um ultrassom um pouco maior do que um iPhone que já está no mercado. Um de seus laboratórios também desenvolve produtos em parceria com a indústria farmacêutica que podem revolucionar o tratamento de diabetes e do câncer.

Softwares para melhorar a eficiência das torres de controle de aeroportos começaram a ser desenvolvidos. Com uma logística melhor e aparelhos mais avançados do que os atualmente existentes, as companhias aéreas seriam capazes de economizar mais combustível e reduzir a poluição e os custos econômicos. Um projeto similar foi implementado na operação de trens. No futuro, a empresa pretende criar os primeiros aviões elétricos. Os primeiros protótipos já foram apresentados.

Centro brasileiro. A escolha do Brasil também está relacionada ao longo histórico da GE no País. A multinacional americana se instalou aqui há mais de 90 anos.

A abertura do centro deve ocorrer antes da Copa do Mundo de 2014 e da Olimpíada, dois anos mais tarde. Ironicamente, a final do Mundial e a abertura e o encerramento dos Jogos Olímpicos serão no estádio do Maracanã, que teve o seu primeiro sistema de iluminação implementado pela GE - o mesmo vale para o Cristo Redentor e a Lagoa Rodrigo de Freitas. Por esse motivo, ela tentará também se envolver na infraestrutura para os dois eventos.

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