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E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

'O líder tem que exercer o papel de comunicar'

No trajeto entre o estagiário que foi trabalhar em 1980 na empresa de manutenção de turbinas de aviação Celma, em Petrópolis (RJ), até o CEO da G.E. Energy na América Latina, Marcelo Soares, 54 anos, enfrentou uma forte turbulência. Foi em 2001, quando assumiu a presidência da companhia que o havia abrigado no começo de sua vida profissional. Pode-se dizer que a empresa foi mais uma das vítimas dos atentados de 11 de Setembro. "Os trabalhos sumiram do dia para a noite.".

Entrevista com

., O Estado de S.Paulo

30 de outubro de 2011 | 03h09

Na época, a ex-estatal já era uma empresa privada controlada pela multinacional americana General Eletric. Em vista da situação, a Celma fez drástica redução de custos e cortou fundo na força de trabalho. Mas o engenheiro mecânico Soares, formado pela Universidade Católica de Petrópolis (RJ), conta que a situação foi revertida e a companhia ficou ainda mais forte. Na organização, ele ocupou diferentes posições até chegar ao comando. A transferência para a G.E. Energy ocorreu quando ele foi chamado a ser líder de suplly chain para a América Latina, antes de ser CEO. No ano passado, a empresa faturou US$ 3,2 bilhões.

Como foi a passagem de estatal para privatizada?

Quando entrei na empresa, em 1980, ela era uma estatal do Ministério da Aeronáutica. Em 1991, foi privatizada pelo governo Collor. O consórcio controlador era formado por G.E., Banco Safra, Banco Boavista e Andrade Gutierrez. Em 1996, a G.E. assumiu 100% do controle. Este fato obrigou toda a equipe a pensar de maneira globalizada. Mas a adaptação foi bem tranquila, pois de certa maneira estávamos preparados para crescer e virar uma empresa globalmente conhecida. E tudo foi feito de maneira bem transparente com muita honestidade, com comunicação muito forte, tipo olho no olho, falando em cumprir prazos, em não escorregar na qualidade, ficar de olho nos custos o tempo todo. Até hoje pode-se perguntar a um soldador, a um mecânico, a um inspetor, e eles vão ser capazes de dizer o seguinte: no que estamos bem, no que estamos mal, o que é importante, qual o foco. O ponto chave foi isso, comunicação farta, transparente, eficiente, simples de entender. Uma linguagem adaptada para cada grupo de funcionários.

Qual foi o fato mais marcante na sua trajetória?

São vários fatos marcantes, mas o que eu considero mais forte foi que após os atentados de 11 de Setembro de 2001, ano em que virei presidente da Celma, o mercado de aviação foi duramente atingido. Eu tinha começado como estagiário e no ano que me tornei presidente houve uma das maiores crises da nossa história, e eu não queria ser lembrado como aquele que estava administrando a empresa no momento em que ela faliu, em que ela desapareceu por conta de um evento externo. Por causa dos atentados ficou sem trabalho da noite para o dia. E tivemos, na Celma, que demitir 70% da equipe. Nós tínhamos 1.800 funcionários e fomos para 500 em pouco mais de um ano. Tivemos que tomar medidas drásticas de redução de custo. Felizmente, conseguimos dar a virada. A Celma hoje fatura mais, é mais forte, é mais conhecida no mercado do que era em 2001. Acho que foi a fase mais importante da minha carreira (conseguir dar a virada).

Como se conseguiu obter esse resultado?

O mote para a época era não vamos desistir, vamos lutar porque nós vamos sobreviver, vai existir o futuro. Então, mesmo que eu não acreditasse naquilo uma vez ou outra, eu tinha que repetir aquilo exaustivamente e estar sempre com um sorriso no rosto e dizendo 'vamos lá, vamos lá', vai ter futuro. Hoje, a Celma é considerada pelo presidente mundial da G.E. como a melhor operação da divisão da aviação no mundo. A empresa ganhou prêmios de todos os tipos, de desempenho, de qualidade, de reconhecimento de cliente. E continua se investindo na empresa, nas pessoas, no crescimento dos talentos, há gente da Celma espalhada em todos os negócios da G.E.

E o que mais influenciou a sua carreira?

Foram as oportunidades de fazer treinamento aqui no País e fora dele, de ter uma experiência internacional. Com a G.E., a quantidade de treinamento aumentou, passamos a ficar muito mais expostos ao cenário internacional do que éramos antes. Viajar para quem trabalha numa empresa globalizada é fundamental. Mas nunca se deve esquecer da equipe, em nenhuma atividade, especialmente na Celma, cuja atividade é revisão de turbinas de aviação, um setor de automatização baixíssima. Então, é preciso confiar nas pessoas, cada um fazendo o seu trabalho bem feito. E para garantir que tudo saia bem, volto ao ponto da comunicação. Então, o líder tem que exercer esse papel de comunicar, de estar ali presente./C.M

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