O longo e o curto prazo podem se reconciliar

O que vale mais, o longo prazo ou o curto prazo?

MARCO ANTONIO, ROCHA, JORNALISTA. E-MAIL: MARCOANTONIO.ROCHA@GRUPOESTADO.COM.BR, MARCO ANTONIO, ROCHA, JORNALISTA. E-MAIL: MARCOANTONIO.ROCHA@GRUPOESTADO.COM.BR, O Estado de S.Paulo

18 de junho de 2012 | 03h06

"No longo prazo todos estaremos mortos" - frase repetida por dezenas de economistas, depois que John Maynard Keynes a inscreveu no prefácio de seu livro Teoria Geral do Emprego, dos Juros e da Moeda, de 1935. Numa interpretação rombuda, ela sugeriria que deixemos de pensar ou nos preocupar com o longo prazo e cuidemos do que é imediato.

O problema é que o curto prazo atropela e cria problemas para o longo prazo, podendo até inviabilizá-lo - como também repetem dezenas de economistas. A história dos elefantes é famosa: de repente a atividade humana começou a ter grande necessidade de marfim, que se valorizou enormemente. O atendimento imediato dessa necessidade lançou centenas de caçadores atrás do animal, cuja espécie quase foi extinta, exigindo de governos e instituições mundiais enérgicas medidas de proteção e cerceamento do abate - ou seja, uma política de longo prazo para corrigir defeitos (e efeitos) do curto prazo.

Outro caso famoso foi o das baleias. A descoberta de que o óleo de baleia purificado propiciava excelente iluminação (embora um pouco mal cheirosa) nos palácios e salões da Europa incentivou a frenética matança dos bichos só amenizada quando os derivados do petróleo e o gás entraram nos lampiões. Hoje, as baleias ainda precisam de proteção porque há povos que apreciam sua carne.

Enfim, é essa a questão: a pressa de atender às necessidades contra a necessidade de preservar a sustentabilidade.

A Rio+20 é a nova tentativa de estabelecer compromissos políticos nacionais de longo prazo para corrigir defeitos que foram provocados pelo curto prazo - e evitar novos.

Disse muito bem a presidente Dilma que não podemos, em razão de problemas e crises do dia a dia, deixar de lado os cuidados e prevenções quanto ao futuro. Não usou essas palavras, mas acho que foi esse o sentido do que disse no discurso de abertura da conferência.

E a advertência era oportuna porque logo se viu que uma das principais resoluções que a Rio+20 deveria (ou deverá) tomar, para melhorar o longo prazo, esbarra num problema de curto prazo. A proposta de criação de um fundo internacional de US$ 30 bilhões por ano para financiar e desenvolver atividades economicamente sustentáveis encontra resistências porque os países desenvolvidos - principalmente a Europa e os EUA - reclamam que já estão desembolsando busilhões, como diz o vulgo, para salvar da falência bancos encalacrados.

É mais um pretexto, pois os países ricos já os vinham procurando para descartar a ideia de criação desse fundo antes mesmo da crise dos bancos e governos. E alegavam que a maior parte do dinheiro tinha que sair dos cofres deles. E daí? O Banco Central Europeu não acaba de colocar 100 bilhões (equivalentes a US$ 126 bilhões) a serviço da salvação apenas dos bancos espanhóis? - 4,2 vezes mais do que a proposta de criação do fundo ecológico.

Sem falar que o Banco da Inglaterra e o Tesouro inglês também anunciaram um plano de 100 bilhões de libras (US$ 155 bilhões) para combater os efeitos da crise, isto é, resgatar bancos da falência.

Mas, desde a semana passada, um outro óbice de caráter imediatista à criação do fundo de salvamento do planeta foi colocado na mesa de discussões: as eleições parlamentares na Grécia, pois temia-se ou teme-se que o seu resultado determine a saída do país da zona do euro, com todas as consequências tenebrosas que isso alegadamente traria para a economia mundial, especialmente a europeia.

De qualquer forma, as duas coisas, a criação do fundo ecológico e a salvação do euro, não precisariam dar trombada, com uma anulando ou inviabilizando a outra. A imediata criação do fundo é importante porque é um farol que ilumina o futuro do meio ambiente no planeta e gera expectativas de que ele pode ser melhorado. Traz confiança.

Qualquer raciocínio inteligente mostra que o desembolso para o fundo não precisa ser imediato, nem pode ser. O que precisa de imediatismo é o "tutu" para a salvação do euro. Assim, como diz o brasileiro esperto, cada coisa é uma coisa - e não precisam caminhar simultâneas. Dá para criar já o fundo e continuar salvando o euro.

Em todo caso, as duas políticas - a de longo prazo e a de curto prazo - podem ter alguma resposta inteligente nessa semana, se é que os atuais líderes dos negócios mundiais são capazes de laivos de inteligência.

Hoje, em Los Cabos (no México), os países do G-20 começam uma reunião (deve terminar amanhã) que objetiva articular um firme compromisso entre eles de usarem todos os meios possíveis para "salvaguardar a integridade da zona do euro", como reportava Assis Moreira, de Genebra, para o jornal Valor, na última sexta-feira.

E nos dois últimos dias da Rio+20, ainda nesta semana, uma cúpula de chefes de Estado presentes deverá dar a sua aprovação ao documento final da reunião, e a torcida dos ambientalistas é de que no documento conste o aval dos cabeças coroadas à criação do fundo (coisa que parece difícil, mas pode acontecer).

De qualquer forma, é uma rara oportunidade para o longo e o curto prazo se apoiarem.

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