O longo inverno brasileiro

Ao ritmo de recuperação dos últimos trimestres, o investimento só recuperará seu nível pré-crise após 2025

Fernando Honorato*, O Estado de S.Paulo

31 Agosto 2018 | 11h45

O PIB encerrou o segundo trimestre crescendo apenas 0,2%. Ainda que a paralisação do setor de transportes responda parcialmente pelo fraco desempenho, os fatores estruturais estão por trás dessa lenta recuperação. O consumo das famílias está 6% abaixo do seu melhor momento, em 2014, e o investimento, 28%. Ao ritmo de recuperação dos últimos trimestres, o investimento só recuperará seu nível pré-crise após 2025: um longo inverno para o Brasil se esse quadro se confirmar.

A crise de balanço das empresas e as instabilidades políticas explicam boa parte do fraco desempenho entre 2015 e 2017. As dúvidas quanto ao futuro da política econômica explicam a frustração em 2018, apesar da correta reorientação nos últimos anos. Enquanto a incerteza fiscal não diminuir, será difícil acelerar o PIB.

Essa incerteza pesa no risco país e nas curvas de juros, que afetam o custo do dinheiro. Mais recentemente, começam a afetar o câmbio que, quanto mais depreciado, retarda a retomada do investimento, muito dependente e correlacionado com as importações em um país com baixa poupança doméstica, 15% do PIB.

Acelerar o crescimento potencial não é uma tarefa trivial – o PIB brasileiro cresce em média 2,2% desde a década de 80. Irá envolver reformas do lado da oferta que melhorem o ambiente de negócios, a segurança jurídica, abram a economia, ampliem a infraestrutura, a qualidade da educação básica, o acesso à tecnologia e, consequentemente, melhorem a produtividade.

Mas, com ociosidade no mercado de trabalho e necessidade de ampliação dos investimentos, o crescimento cíclico pode acelerar rapidamente com a redução da incerteza macro. Os setores de bens duráveis e imobiliário, inclusive, já respondem positivamente à queda de juros. A situação patrimonial das empresas tem melhorado e não será mais uma restrição se as reformas avançarem.

E crescimento e emprego sempre geram dividendos políticos, o que, juntamente com o desafio fiscal, conferem o incentivo e a urgência para que o próximo presidente as implemente.

Se esse cenário mais positivo se materializar, a recuperação da economia brasileira surpreenderá e se dará mais rapidamente do que aquela sugerida pelo ritmo recente.

*Economista-chefe do Bradesco

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