Jared Soares/The New York Times
Jared Soares/The New York Times

O lucrativo negócio do retorno ao trabalho

Empresas desenvolvem ferramentas para garantir a segurança dos funcionários

Natasha Singer e Julie Creswell, The New York Times

27 de junho de 2020 | 05h00

A Truework, uma startup de verificação de renda, lançou recentemente um software para ajudar os empregadores a monitorar a saúde de seus funcionários. A Gensler, empresa de arquitetura e design, tem um aplicativo de planejamento do espaço do local de trabalho que gera a disposição da mobília para favorecer o distanciamento interpessoal. A PwC, firma de serviços profissionais, está usando uma tecnologia, originalmente desenvolvida para rastrear o estoque, para um novo sistema de verificação do contato que registra as interações dos funcionários de maneira a poder notificar os trabalhadores em caso de exposição ao novo coronavírus.

Enquanto as companhias se esforçam para procurar reabrir com segurança os locais de trabalho, indústrias de todo o tipo, de mobiliário de escritório a sistemas de ventilação inteligentes apressam-se a vender-lhes produtos e serviços como soluções. Algumas, como as fabricantes de câmeras térmicas sensíveis à temperatura da pele, estão redefinindo os seus produtos como rastreadores da febre destinados a conter o vírus. Outras estão criando serviços inteiramente novos.

E elas têm um mercado cativo. Para proteger os funcionários e reduzir a possibilidade de surtos de contágio no trabalho, as empresas procuram cumprir as diretrizes de saúde pública no que se refere à triagem dos empregados e ao distanciamento social. Nos Estados Unidos, o mercado de tecnologias para o monitoramento dos contatos dos funcionários logo movimentará algo como US$ 4 bilhões por ano, segundo estimativas da International Data Corp., empresa de pesquisa de mercado.

Mas os instrumentos de prevenção e as normas para o local de trabalho na pandemia são tão novos – como a ciência incipiente para o estudo do vírus – que é muito cedo ainda para saber se funcionarão bem. E se funcionarão.

“São teorias e métodos ainda não testados”, disse Laura Becker, gerente de pesquisa falando da experiência dos funcionários na IDC. “Qual será o componente mais eficiente de todas essas estratégias para a volta dos funcionários ao local de trabalho? Não sabemos.”

O saguão

Quando os trabalhadores voltarem aos escritórios, poderão encontrar o saguão do prédio mais parecido com o posto de checagem de segurança de um aeroporto. Pelo menos esta é a visão que a Kastle Systems, companhia criada há 48 anos em Falls Church, que projeta, instala e monitora sistemas de segurança para vários milhares de edifícios comerciais. As empresas que usam o sistema de gestão do coronavírus da companhia, o KastleSafeSpaces, podem sugerir aos funcionários que baixem um aplicativo que abrirá automaticamente as portas de entrada a fim de que as pessoas que passarem pela triagem entrem no escritório. Os funcionários que respondem de antemão a um questionário sobre a sua saúde poderão se dirigir para um caminho mais rápido no saguão para a verificação de sua temperatura. 

A Clear, companhia de identificação biométrica conhecida por seu serviço de identificação de quem viaja de avião, lançou recentemente um sistema chamado Health Pass. O aparelho usará o reconhecimento facial para confirmar a identidade dos funcionários, e examinar as informações sobre saúde fornecidas pelo trabalhador para que possam ser considerados aptos a entrar no local de trabalho.

Os elevadores

A Kastle afirmou que está modificando um aplicativo que abre automaticamente as portas do escritório para permitir que os funcionários chamem um elevador e indiquem o andar que querem, sem tocar nos botões. Jennifer Burns, vice-presidente sênior de gestão de edifícios e operações da Monday Properties, proprietária, operadora e incorporadora de imóveis comerciais, informou que a sua companhia limitou a capacidade dos elevadores a quatro pessoas. 

Layout do escritório

A Steelcase, uma das maiores fabricantes de mobiliário de escritório, há muito tempo criou e instalou sistemas de mesas projetadas para incentivar uma maior colaboração, aproximando mais os funcionários e baixando as divisórias . Agora, companhias procuram inverter essa tendência de maneira flexível e a um custo reduzido. O plano é retirar as cadeiras e as mesas e instalar telas ou outras divisórias entre as mesas restantes, explicou Allan Smith, vice-presidente de marketing global da Steelcase.

A pausa do café

Será preciso dizer adeus às multidões ao redor da máquina do café, no meio da manhã, para conversar a respeito do último programa da Netflix de que você não gostou. Será difícil administrar as exigências de distanciamento social em qualquer espaço onde haja uma oportunidade para as pessoas se encontrarem e socializarem, na opinião de David Bingley, diretor executivo de serviços corporativos para a Sodexo, a gigante da alimentação francesa. Em vez disso, a Sodexo criou um aplicativo chamado Twelve, que permite que o empregado da companhia encomende e pague de antemão o café com bolinhos do meio da manhã. “As companhias estão espalhando locais para essas coisas em três ou quatro pontos do edifício. Além disso, o app usa um algoritmo que administra os períodos de tempo para garantir que não haja aglomeração”.

Rastreamento

Em maio, a PwC lançou um aplicativo para smartphone para os empregadores que usam sinais do Bluetooth, Wi-Fi, GPS e outros dados controlarem onde os funcionários vão no interior do escritório, com quem entram em contato e por quanto tempo. A Microshare, uma companhia de software da Filadélfia que usa sensores para monitorar fatores ambientais está adaptando a tecnologia Bluetooth que desenvolveu originalmente para rastrear a localização de cadeiras de rodas e leitos em hospitais para monitorar os funcionários. Os empregados usarão pulseiras ou crachás do tamanho de cartões de crédito que coletam os sinais de sua localização e da proximidade entre si; estes dados são enviados para dispositivos que os transmitem para a nuvem. Mas até as pulseiras e os crachás de monitoramento levantam questões como a instalação de um sistema de espionagem pelos empregadores.

“As pessoas podem começar a se revoltar contra coisas como: alguém estará indo ao banheiro demais? Alguém está indo para o café muitas vezes? Alguém estará fumando demais, observou Ron Rock, diretor executivo da Microshare./TRADUÇÃO DE ANNA CAPOVILLA

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