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O lucro que vem do comunismo

Movimento conhecido como Ostalgie, ou nostalgia do Leste, atrai legião de seguidores na Alemanha e começa a conquistar turistas 

Fernando Scheller, enviado especial de O Estado de S.Paulo,

24 de outubro de 2011 | 10h38

BERLIM - A queda do muro de Berlim, em 1989, foi saudada como a unificação da Alemanha em uma só nação. Em termos culturais e econômicos, no entanto, tratou-se menos de uma fusão e mais de uma incorporação. A Alemanha Oriental, sucateada pelas dificuldades do regime socialista nos anos 80, precisava de infraestrutura, transporte, escolas e novos edifícios. O consenso era que a vida no Leste tinha de refletir os padrões da Alemanha Ocidental. Bilhões de euros foram investidos, mas essa padronização nunca aconteceu.

Nos primeiros anos após a queda do muro, houve uma enxurrada dos símbolos ocidentais na antiga área comunista. O creme Nivea veio para substituir o Florena, a Vita Cola perdeu espaço para a Coca-Cola e de repente os habitantes se viram capazes de escolher produtos de uma grande quantidade de marcas de todo o mundo. No entanto, as dificuldades em equilibrar as diferenças entre o Leste e o Oeste voltaram a aparecer nos anos 90, quando os habitantes da antiga Alemanha Oriental se deram conta de que todos os símbolos das últimas décadas estavam sendo varridos do mapa. Essa consciência deu origem a um movimento chamado Ostalgie, ou nostalgia do Leste, tendência que hoje tem uma legião de seguidores na Alemanha e começa a conquistar também os turistas.

O designer Markus Heckhausen é um dos precursores do movimento. Em 1995, percebeu que todos os sinais para travessia de pedestres do lado oriental estavam sendo substituídos pelo modelo ocidental. Sem dinheiro e precisando pagar o aluguel, passou a recolher os vidros no lixo e também a procurar quem tivesse uma ou duas peças guardadas. Foi assim que ele desenhou e confeccionou, na sala do seu apartamento, as primeiras 200 lâmpadas com a figura dos Ampelmännchen (os "homenzinhos do trânsito"). "Descia as escadas e vendia meu produto na rua", lembra.

O jovem designer atraiu a atenção da imprensa alemã, iniciando o debate sobre a rápida substituição dos símbolos orientais pelos ocidentais. No caso dos Ampelmännchen, diz Heckhausen, era óbvio que a troca era desvantajosa para a cidade, uma vez que o design da Alemanha Oriental era muito mais interessante. No ano seguinte, com a atenção recebida da mídia, Heckhausen percebeu que era possível transformar a ideia em um negócio. Assim, em 1996, surgiu a Ampelmann, dedicada a transformar os sinais de trânsito da Alemanha Oriental em produto de moda. O designer original dos bonequinhos, Karl Peglau, colaborou com a empresa até a sua morte, em 2009.

Expansão. Hoje, a Ampelmann tem 80 funcionários e fatura cerca de  8 milhões por ano. Tem quatro lojas e um restaurante em Berlim e conquistou especialmente os fãs asiáticos - existe uma loja da marca em Seul, na Coreia do Sul, e outra em Tóquio, no Japão. Para 2012, a empresa planeja mais uma unidade no novo aeroporto que está sendo construído na região metropolitana da capital alemã.

A companhia vende 80 diferentes itens, de chaveiros a camisetas, de canecas a abajures, de roupas de bebê a refrigerantes. Todo o desenvolvimento dos produtos é feito em um escritório no centro de Berlim. Apesar de os turistas responderem por quase a totalidade das vendas da empresa, Heckhausen diz que a companhia quer se distanciar cada vez mais da pecha de fábrica de suvenires. "Tomamos a decisão de nos tornarmos uma empresa de moda. Agora, por exemplo, estamos lançando uma coleção de roupas de cama e de jogos educativos para crianças."

O empresário ganhou fama também por capitanear, no fim dos anos 90, uma campanha pela volta dos sinais de trânsito da Alemanha Oriental para as ruas de Berlim. Hoje, qualquer turista que visite a cidade percebe que, na maioria dos cruzamentos, são os Ampelmännchen que orientam os pedestres - o sucesso na capital fez com que algumas outras cidades também adotassem o design de Karl Peglau. "Sempre me pareceu uma campanha que só precisava de um empurrão", lembra.

Resgate. A discussão sobre a identidade do Leste abriu espaço para que outras marcas fossem resgatadas. O Rotkäppchen (que significa Chapeuzinho Vermelho), por exemplo, sobreviveu ao fim do regime comunista e se tornou um dos espumantes mais consumidos no país. Das várias versões, a mais conhecida é um produto popular, de gosto adocicado.

O refrigerante Vita Cola, a versão socialista da Coca-Cola e da Pepsi, ficou fora de circulação por quatro anos. Em 1994, foi comprada por uma empresa da Alemanha Ocidental. Atualmente, é vendido em diferentes versões e foi adaptado para ganhar um apelo jovem.

O mesmo ocorreu com o creme Florena, que era a versão do Nivea na Alemanha Oriental. O produto tornou-se sinônimo de cosméticos em todo o bloco comunista, sendo largamente consumido na União Soviética nos anos 80. Com a queda do Muro de Berlim, a Florena foi privatizada - desde 2002, a empresa se tornou subsidiária da Beiersdorf, fabricante do Nivea. Atualmente, a Florena é uma segunda marca para a gigante alemã, com posicionamento de preço mais popular.

O saudosismo dos tempos do comunismo também motivou a abertura do museu da DDR, no centro de Berlim. No local, turistas podem ter uma noção de como era a vida "do outro lado do muro". Na internet, há vários sites que revendem produtos feitos na Alemanha Oriental - algumas marcas são resgatadas quase que artesanalmente, vendidas em pequenas quantidades. O mais completo é o Ostpaket, ou pacote de produtos do Leste, vendido por  39,95. Inclui diversos produtos, desde o Rotkäppchen, espumante mais usado nas festas de família, às camisinhas produzida pelos socialistas, com a marca Sei bereit, immer bereit (Esteja preparado, sempre preparado).

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