O maior tombo

Foi um vexame. Não houve analista que não tivesse errado nas projeções sobre a Bolsa em 2008. Na tabela publicada aqui há um ano, o mais pessimista previa para o final de 2008 um fechamento de 72 mil pontos (alta de 13%) e o mais otimista, 82 mil pontos (alta de 28%). O resultado foi o que se viu, o Índice Bovespa virou o ano com 37,6 mil pontos e baixa de 41%, o pior desempenho desde 1972. O medo de errar novamente foi a razão pela qual grande número de instituições financeiras se recusou a abrir suas projeções para o fim de 2009. Esta coluna consultou 30 bancos e corretoras cadastrados pela BM&FBovespa. Apenas 9 venceram suas restrições para divulgar as estimativas. (Veja tabela no Confira.) Como ninguém tem segurança sobre os desdobramentos da crise, qualquer projeção para 2009 tem de ser vista mais como aposta do que como prognóstico confiável. A favor de um bom desempenho há o fato de que as ações negociáveis na Bolsa brasileira perderam em 2008 algo em torno de US$ 850 bilhões de seu valor, ou 33% do PIB. Foi um tombo desproporcional quando comparado com o desempenho da economia. A melhor explicação para isso é a de que os fundos de hedge estavam excessivamente alavancados. Tiveram de vender US$ 6 milhões a cada US$ 1 milhão resgatado pelos cotistas. Como não puderam desovar títulos podres (porque não tinham preço), despejaram ações brasileiras negociadas em Nova York. Enfim, se caiu demais, a Bolsa pode recuperar-se mais depressa. Outro argumento encorajador é o de que, se não foi atingido, o fundo do poço pode estar próximo de ser alcançado e, a partir daí, é só alegria. Uma indicação de que a hipótese pode estar certa está no fato de que, apesar da piora dos prognósticos sobre o desempenho do setor produtivo mundial, as bolsas deixaram de mostrar quedas acentuadas desde outubro. Ou seja, o pior já pode estar precificado. Mas podem ser avançados outros argumentos. Um deles, focado na Bolsa, é o de que, mal ou bem, a economia do País vai crescer cerca de 3%, numa paisagem global desoladora. Assim, investidores nacionais e estrangeiros saberão dar valor ao que isso significa. Outro indicador favorável é o de que, ao redor do mundo, os ativos globais de renda fixa apresentarão rendimentos reais negativos, o que, mais cedo ou mais tarde, aguçará o apetite ao risco. O problema é que não há certeza de que esses fatores prevalecerão sobre tanta ameaça. A recessão global derrubará os resultados das empresas com ações nas bolsas internacionais e muitas serão obrigadas a pedir concordata. Assim, parece inevitável que todos os dias alguma notícia ruim contamine o ambiente e derrube esse mercado tão globalizado. Quando não é banco, é montadora. Quando não é seguradora, é um grande grupo siderúrgico. Além disso, as empresas ficaram fortemente dependentes dos governos, portanto ainda mais expostas às adversidades do jogo político. O economista Nouriel Roubini, por exemplo, o analista mais catastrofista desta crise, garante que as bolsas ainda têm muito o que derreter ao longo de 2009. Enfim, a Bolsa continua sendo uma aposta emocionante, mas cheia de riscos. É para quem pode esperar pela virada. Confira É isso aí - Este é o desempenho esperado para a Bolsa brasileira em 2009 por 9 instituições financeiras. Como está na matéria ao lado, 21 não se dispuseram a fazer um prognóstico.

Celso Ming, celso.ming@grupoestado.com.br, O Estadao de S.Paulo

31 Dezembro 2008 | 00h00

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