O malogro do leilão de transmissão de energia

Dos 11 lotes de linhas de transmissão de eletricidade oferecidos pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), apenas 4 foram arrematados na quarta-feira. Por isso o leilão foi considerado um fracasso não só por analistas do setor privado, mas também pelo governo. “O resultado foi abaixo da nossa expectativa”, disse o diretor da agência reguladora Reive Barros.

O Estado de S. Paulo

29 de agosto de 2015 | 03h00

No leilão anterior, em julho, do segundo linhão de transmissão da energia a ser gerada pela Usina de Belo Monte, somente 2 empresas participaram e já era clara a percepção do aumento de riscos nesse segmento. Nos últimos 2 anos, 30 lotes de transmissão não despertaram interesse dos investidores. Mas só nesta semana ficou evidente que a combinação de regras duvidosas com juros altos e recessão compromete o certame. Desta vez, nem os chineses quiseram participar.

Dois lotes foram arrematados pela espanhola Isolux, 1 pela estatal Celg e outro pela privada Planova, que participou pela primeira vez de um leilão. Não houve interessados na transmissão de energia das Usinas Telles Pires e São Manoel nem nas linhas para escoar a energia eólica do Nordeste. E o deságio oferecido pelos vencedores foi, em média, de apenas 2,04% em relação ao teto fixado pela Aneel. Os investimentos assumidos pelos vencedores, de R$ 1,9 bilhão, representam menos de 20% do previsto. A Aneel quer ouvir as empresas para conhecer melhor os problemas do leilão.

No início do ano, a agência elevou a taxa mínima de retorno de 5,5% para 8% ao ano e aumentou o prazo para a construção das linhas. O novo leilão mostrou que não foi o bastante. Apesar do aumento, “a taxa de retorno está longe de ser apropriada”, disse o presidente do Instituto Acende Brasil, Claudio Sales.

Além disso, diminuiu a parcela de recursos que o BNDES empresta para os empreendedores e as alternativas para obter capital têm custo mais alto. Uma das vencedoras do leilão empregará 20% de recursos próprios e lançará debêntures de infraestrutura, cujo custo anual é estimado em 9%, mais a inflação. Outra informou que usará 80% de recursos próprios nas linhas.

Historicamente, o investimento em transmissão é visto como atrativo pela renda estável das concessões. Mas, se o custo do financiamento for elevado, provavelmente muitas empresas prefiram esperar até que os juros caiam para voltar a investir. E a Aneel não quer – ou não pode – aceitar taxas maiores de retorno.

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