O mantra do câmbio
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O mantra do câmbio

Apenas em parte o câmbio tem a ver com os problemas de competitividade da indústria brasileira, tanto para o mercado interno como para o externo

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

28 Setembro 2017 | 21h00

Anos a fio, a queixa recorrente dos empresários é a de que o dólar no Brasil está barato demais (em reais) e que essa valorização da moeda nacional sepulta a competitividade do setor produtivo. E reivindicam forte desvalorização do real, “para estancar a desindustrialização”.

O pessoal da Fiesp e da indústria de máquinas não diz outra coisa. Nesta quarta-feira, por exemplo, o representante da indústria têxtil, Fernando Pimentel, repetiu essa queixa.

Boa parte do setor produtivo nacional não é competitiva, ou seja, não consegue enfrentar nem a concorrência do produto importado nem a competição no mercado externo. É uma situação que, em princípio, apenas em parte tem a ver com o câmbio.

 

A falta de competitividade se deve a grande número de outros fatores: o custo Brasil muito mais alto do que em grandes países do exterior, a precariedade da infraestrutura, o excesso de proteção que deixa o setor mal-acostumado, a demasiada burocracia que emperra os negócios, o alto custo do capital, juros altos demais, o baixo nível de educação e treinamento da mão de obra... e por aí vai.

Um jeito de compensar esse jogo contra é promover a desvalorização da moeda, recurso que barateia em dólares a produção local e encarece o produto importado. O problema é que nem sempre é possível promover essa desvalorização.

O câmbio é um dos preços da moeda (o outro são os juros) e, nesta condição, está sujeito à lei da oferta e da procura. Uma das funções de qualquer banco central é intervir para regular esse jogo ao nível pretendido pela política econômica. Quando é preciso agir para valorizar a moeda nacional, o Banco Central aumenta ou permite que aumente a oferta de moeda estrangeira no mercado, o dólar fica mais barato em reais; quando decide desvalorizar, aumenta a procura por dólares, pela compra no câmbio interno ou por permitir que se torne mais escasso.

O atual regime de câmbio no Brasil é o de flutuação suja. Nele, as cotações são determinadas pela oferta e procura, mas com alguma intervenção a fim de eliminar grandes oscilações. Neste momento em que as contas externas estão em excelente condição e a entrada de investimentos corresponde a quase três vezes o déficit dos demais pagamentos, é inevitável que o País tenha de conviver com a oferta folgada de dólares.

Empresários e muitos economistas que os assessoram pregam mais intervenção. Querem que o Banco Central compre mais moeda estrangeira ou coíba a entrada de capital, por meio de medidas administrativas ou de impostos.

Mas aí há dois problemas. Primeiro, a compra de dólares pelo Banco Central exige emissão de reais, o que é inflacionário, ou aumento de dívida pública, já alta demais. O outro problema é o de que o mercado global está inundado de dólares, variável fora do controle do Banco Central. Assim, boa parcela desses recursos continuará desembarcando no Brasil para negócios, aumentando a oferta de moeda estrangeira.

Quanto mais saudável a economia, maior o afluxo de moeda estrangeira, situação que tende a manter o câmbio relativamente valorizado. Paradoxalmente, a maneira mais fácil de provocar maior procura de dólares é deixar que a crise derrube a economia.

CONFIRA

» Alargamento do rombo

 

Apenas nos oito primeiros meses deste ano, o déficit das contas da Previdência Social atingiu R$ 113,3 bilhões. A previsão para o ano todo é de que chegue aos R$ 152 bilhões, volume que corresponde a quase o total da meta do déficit do governo central, definida em R$ 159 bilhões. O gráfico ao lado mostra como esse rombo tem evoluído. Informação adicional: as despesas com Previdência (incluídas a dos funcionários públicos) somam 56% de tudo o que o governo gasta, excetuados os juros.

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