'O mar pode ser muito revolto à frente'

Economia estagnada, inflação alta, situação fiscal difícil e denúncias de corrupção devem complicar o quadro

Entrevista com

RICARDO LEOPOLDO, TERESA NAVARRO, RICARDO GRINBAUM, O Estado de S.Paulo

24 Dezembro 2014 | 02h03

Conhecido por seu otimismo, que no passado ajudou a atrair investidores estrangeiros e desenvolver o mercado de capitais brasileiro, José Olympio Pereira, presidente do banco Credit Suisse não esconde a atual preocupação com a economia em 2015 e chega a falar na possibilidade de cenário de "tempestade perfeita". Uma soma de dificuldades internas - economia estagnada, inflação alta, situação fiscal difícil e denúncias de corrupção - com incertezas externas vindas da queda do preço do petróleo e da expectativa de alta dos juros nos Estados Unidos.

Em entrevista ao Broadcast, serviço em tempo real da Agência Estado, e ao jornal Estado, o executivo do Credit Suisse mostra plena confiança no ministro indicado da Fazenda, Joaquim Levy: "Estamos em excelentes mãos para tocar o barco nesse mar revolto. Mas eu acho que o mar pode ser muito revolto à frente." Mesmo diante deste cenário adverso, acredita que o investimento de longo prazo, sobretudo em infraestrutura, não deixará de vir para o Brasil.

Sobre as dificuldades enfrentadas pela Petrobrás, José Olympio diz que a queda no preço do petróleo exigiria da empresa a tomada de decisões estratégicas, difíceis de serem pensadas em momento de tanta turbulência em meio às denúncias de corrupção. A seguir os principais trechos da entrevista:

Qual a sua avaliação sobre o cenário externo atual marcado por queda intensa na cotação do petróleo e crise na Rússia?

O cenário internacional apresenta uma queda muito rápida dos preços do petróleo que estão abalando o mundo. O principal país que sofre as consequências é a Rússia, que está numa situação extremamente delicada devido à dependência imensa da commodity. Mas não acredito que seja igual à crise da década de 90. As economias emergentes são muito diferentes hoje do que eram em 1998, quando estavam bem mais endividadas. O Brasil, por exemplo, tem um nível de reservas internacionais muito maior e o nosso câmbio é flutuante. Em 1998, ocorreu um cataclismo que eu não gostaria de viver de novo.

Qual cenário o senhor vislumbra para o Brasil no próximo ano?

Estou muito preocupado com o cenário brasileiro para 2015. Temos um pouco de cenário de tempestade perfeita. De um lado, temos uma economia com crescimento nulo, inflação alta, uma situação fiscal difícil. Temos também este escândalo de corrupção que afeta as atividades econômica e política, além de diminuir investimentos. Há também a queda no preço do petróleo que força a Petrobrás a repensar seu negócio, com decisões empresariais importantes. Fica a pergunta se a companhia está em condições neste momento de tomar tais decisões. E ainda temos que ver o que os Estados Unidos farão com os juros.

O que seria a tempestade perfeita na economia brasileira?

Uma retração do nível de atividade brusca com impactos no lado fiscal. Sem crescimento, sem arrecadação é muito difícil buscar superávits. Então, se tivermos uma retração forte do PIB (Produto Interno Bruto), a situação fiscal vai se contrair e piorar. Contudo, temos um excelente operador a frente da Fazenda, o ministro indicado Joaquim Levy. O mercado inteiro tem imensa confiança nele. Estamos em excelentes mãos para tocar o barco nesse mar revolto. Mas eu acho que o mar pode ser muito revolto à frente.

O cenário de tempestade perfeita pode dificultar os investimentos de longo prazo no Brasil?

O Brasil tem muitas oportunidades de investimento. O nosso analista de infraestrutura apontou em um estudo que o País tem um déficit no setor de R$ 1 trilhão. Todas as minhas conversas com grandes fundos soberanos e investidores de longo prazo indicam que há um enorme interesse em investir em infraestrutura no Brasil. Minha preocupação é até que ponto um cenário de tempestade perfeita pode inibir o potencial desse investidor de longo prazo em 2015. Eu ainda não tenho nenhuma evidência nesse sentido.

Qual o efeito da Operação Lava-Jato sobre os investidores de infraestrutura no Brasil?

Eu acho que o investidor estrangeiro vai continuar interessado. Nós temos um problema com empresas que eu não sei onde vai acabar. Mas não podemos perder a perspectiva que dentro destas empresas existem engenheiros, técnicos, conhecimento que estão aí e não acabam. As empresas podem acabar, mas aqueles quadros existem e podem ser aproveitados em outras companhias. Podemos ter um período de transição, mas não compromete nossa capacidade de executar obras no médio prazo. Podem surgir oportunidades para quem queira investir em construção pesada. Eu não sei o que pode resultar dessa crise, mas ela pode abrir espaço para outros grupos entrarem e se organizarem em novas empresas.

E os investimento no mercado de capitais...?

Eu passei o ano de 2014 fazendo a distinção entre o interesse do investidor de portfólio e o investidor de longo prazo. O investidor de portfólio tem a capacidade de entrar e sair a qualquer momento. Mas só é possível comprar empresas, como GVT, uma vez. Então, os investidores de longo prazo confrontados com essas oportunidades únicas não as perderam.

O investidor de longo prazo continua acreditando no Brasil. A maior evidência disso foi o Investimento Direto Estrangeiro que ficou acima de US$ 60 bilhões pelo quarto ano seguido. Em contrapartida, o investidor de portfólio ficou extremamente reticente em trazer dinheiro para cá. E isso se refletiu na atividade do mercado de capitais em 2014, que foi a pior em 10 anos. Mesmo em 2008 e 2009, não tivemos um volume de capital tão baixo.

O que o senhor espera de investimentos de longo prazo no Brasil em 2015?

Os fundos de private equity que estão mais comprometidos com o País podem ter uma visão mais positiva, pois seria uma boa hora para comprar ativos, dado que estão baratos e o câmbio está depreciado. O Brasil hoje tem escritórios de todos os principais fundos de private equity do mundo, como o Carlyle, Blackstone, KKR. Muitos fundos soberanos se estabeleceram no Brasil, como o Temasek e GIC de Cingapura.

Denúncias de corrupção podem impedir a expansão destes investimentos no País?

Podem assustar. Nesse momento a gente está vivendo um cenário que não sabe até onde vai, quais são os desdobramentos. Esse cenário pode fazer com que as pessoas esperem um pouco para ver.

Qual a sua avaliação sobre as perspectivas para a Petrobrás?

A Petrobrás enfrenta dois desafios imensos ao mesmo tempo. De um lado, há denúncias de corrupção e os impactos que elas podem ter, inclusive com a SEC(Securities and Exchange Comission). Tudo isto é muito sério. E ao mesmo tempo o preço do principal produto, o petróleo, caiu pela metade e isso requer decisões estratégicas. Eu me questiono até que ponto a empresa está capacitada para adotá-las num momento de tanta turbulência.

Como o senhor avalia o desafio do Banco Central em relação ao câmbio em 2015, quando os Estados Unidos deverão iniciar o processo de normalização da política monetária?

Vimos em 2014 a valorização do dólar frente a moedas de países emergentes com a melhora da economia americana. E provavelmente o dólar continuará a se valorizar. Eu acho que é ruim ter movimentos muito bruscos no câmbio. O Banco Central visa não deixar que ocorra volatilidade excessiva do câmbio e tem sido bastante eficiente nesse sentido. O BC decidiu estender o programa de swap cambial em 2015. Essa foi a decisão certa. Ao mesmo tempo que renova o programa diário de swaps há o vencimento do estoque de operações de swap cambial. E com a rolagem do estoque o BC pode calibrar, o que é uma ferramenta muito inteligente para lidar com a questão do câmbio.

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