PIETER BRUEGEL/WIKIMEDIA COMMONS
PIETER BRUEGEL/WIKIMEDIA COMMONS

Ações

Empresas de Eike disparam na bolsa após fim de recuperação judicial da OSX

Imagem Celso Ming
Colunista
Celso Ming
Conteúdo Exclusivo para Assinante

O medo da peste

Quando o medo se transforma em pânico, pode produzir efeitos ainda mais devastadores do que o próprio vírus

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 de janeiro de 2020 | 19h01

A humanidade é movida a medo, essa emoção primária. Quando se transforma em pânico, como agora, com as atuais manifestações da epidemia de coronavírus, esse medo pode produzir efeitos ainda mais devastadores do que o próprio vírus.

Para o filósofo e pensador inglês Thomas Hobbes, autor de O Leviatã, a insegurança e o medo dos perigos que cercam a vida das pessoas e das nações são os responsáveis pela criação do Estado e pela entrega do monopólio da violência e do exercício do poder para um chefe ou para um conjunto de dirigentes políticos.

Há muitos tipos de medo: da morte, da invasão dos bárbaros, do fim dos tempos, do diabo, do escuro, da mulher, da feitiçaria, da doença. Em 1978, o historiador francês Jean Delumeau escreveu um livro notável, História do Medo no Ocidente, traduzido para o português pela Companhia das Letras. Lá, reserva um capítulo sobre o medo da peste, mal que assolou a Europa entre 1348 e 1720, período que matou cerca de dois terços da população.

A peste está entre as doenças epidêmicas temidas, ainda mais que o cólera, o tifo e a sífilis. Na Ladainha de Todos os Santos, cantada em situações especiais, a Igreja Católica pede que o Senhor livre a todos “da peste, da fome e da guerra”.

A primeira descrição de sintomas, desdobramentos e dos efeitos da peste que quase destruiu Atenas no século 4.º antes de Cristo foi feita pelo historiador grego Tucídides em sua História da Guerra do Peloponeso

Na Idade Média (e também depois), a peste bubônica, ou peste negra, era flagelo que produzia seus estragos, parecia sumir, mas, anos depois, voltava. Atingia as pessoas em qualquer situação, em qualquer lugar, como flechas disparadas do alto. São mortes fulminantes. Por uma dessas associações inexplicáveis, foi durante as epidemias de peste que se popularizou a devoção a São Sebastião, que foi martirizado a flechadas. Surgiu, assim, o mais conhecido “santo antipestilento”.

Na sua tipologia do medo da peste, Delumeau mostra que, no início do processo, na ânsia de impedir que o pânico se instale na sociedade, quase sempre as autoridades ocultam e distorcem os fatos, como mostrou o filme Morte em Veneza, dirigido por Luchino Visconti, por ocasião do alastramento do vibrião do cólera. Mas logo os desastres ficam irremediavelmente expostos. É também dessa omissão que estão sendo hoje acusadas autoridades da China.

Esse ocultamento piora tudo, porque a falta de informações e a quebra de confiança se tornam principais fatores de alastramento de fake news e de insegurança, e impedem a adoção de providências que, de alguma maneira, poderiam deter a calamidade.

“As pessoas temem até o ar que se respira. Têm medo dos defuntos, dos vivos e de si mesmo.” Grandes pintores retrataram a desolação e a desagregação das cidades atacadas (veja imagem acima). Os defuntos eram despejados nas ruas para que eventualmente fossem recolhidos e transportados, amontoados uns sobre os outros, nas tais carroças da morte. Nessas condições, os funerais e os rituais do luto perdiam razão de ser.

A sociedade em decomposição deixava de respeitar quaisquer autoridades e até mesmo apareciam agrupamentos que se entregavam a desregramentos e festivais de orgia, como reação à sensação de que a morte inevitável estava próxima e de que era preciso aproveitar o tempo que ainda sobrava.

Outra resposta recorrente às deflagrações da peste eram as fugas em massa: “Um par de botas era o mais seguro dos remédios”. Repentinamente, as cidades se esvaziavam, como acontece agora com a chinesa Wuhan, que em uma semana registrou o sumiço de 4 milhões de seus habitantes.

São situações em que se instaura implacável procura por culpados. A procura de bodes expiatórios pode variar de lugar para lugar e de tempos em tempos. Mas frequentemente ataca os suspeitos de sempre: muçulmanos, judeus, mendigos, desafetos da hora ou, simplesmente, estrangeiros. Em algumas cidades, como Riom, em 1631, uma ordem superior impôs a morte em massa de animais, que nada têm a ver com a doença. Na Londres de 1665, teriam sido abatidos “40 mil cães e um número cinco vezes maior de gatos”.

Embora a medicina tenha avançado e a educação tenha desenvolvido maior capacidade de dar respostas racionais, de quando em quando se alastra, como agora, em velocidade surpreendente, não apenas uma doença nova, mas principalmente o medo da morte em massa.

O maior risco não parecem ser os efeitos desse coronavírus, mas o pânico que se espalha por aí, como foi observado nos mercados nesta semana. Como se viu ao longo da História, nessas horas fica difícil manter a serenidade.

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.