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José Roberto Mendonça de Barros
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Mudança ambiental é a grande ameaça para o agro

Elevação da variabilidade climática, que afeta o mundo todo, produz quebra de safras, perdas de patrimônio e prejuízos

José Roberto Mendonça de Barros, O Estado de S.Paulo

19 de setembro de 2021 | 04h00

Os pilares do crescimento agrícola produziram um sistema resiliente e que cresce sem parar. Nunca é demais repeti-los: bons recursos naturais, gente disposta, constante desenvolvimento tecnológico – com consequente ganhos de produtividade – e inserção intensa nas cadeias globais de suprimento.

A agenda tecnológica em curso já aponta para a continuidade deste processo. Digitalização, big data e inteligência artificial levando a agricultura de precisão; integração lavoura/pecuária/florestas; rápido desenvolvimento de biodefensivos, biofertilizantes e maior atenção à vida microbiológica do solo, especialmente pela técnica de plantio direto e pela crescente utilização de condicionadores e outros microrganismos produzidos em biofábricas, muitas das quais nas próprias fazendas; desenvolvimento de novos produtos na geração de energia, como biometano, nanocelulose, farneseno, novas moléculas para dermatologia e perfumaria, além de produtos tradicionais, com atributos especiais (leite A2A2, produtos de origem controlada, leite de origem vegetal, produtos orgânicos e muitos outros). 

Nesse último item, iremos observar nos próximos anos avanços notáveis, alongando a cadeia de valor de forma significativa e avançando na integração agricultura/indústria/serviços. 

Entretanto, existe uma verdadeira ameaça à continuidade desse ciclo virtuoso, que está ligada às mudanças no meio ambiente e que se apresenta por quatro caminhos. 

Elevação da variabilidade climática, que afeta o mundo todo e que produz quebras de safra, perda de patrimônio e prejuízos. Aqui mesmo no Brasil tivemos três geadas em um único mês e grandes variações de temperatura e precipitações.

Consolidação de um problema na oferta de água, expressa pela maior seca que estamos vivendo em nove décadas e pela crise hídrica resultante do esvaziamento dos reservatórios no Sudeste. Esse processo é o resultado da destruição de mananciais, da lenta morte de rios (como o São Francisco) e da destruição da floresta Amazônica, que aparentemente resulta em menor movimento de nuvens que trazem umidade do Norte para o Sudeste. 

Nosso risco comercial está em elevação, ao contrário do que pensam, de forma arrogante, várias lideranças do setor. No último dia 12, aqui no Estadão, Roberto Rodrigues explorou riscos associados à grande dependência que temos do mercado chinês (Ninguém é insubstituível). Outro risco comercial está ligado ao péssimo nome que, hoje, o País tem na área de gestão ambiental, o que pode levar a restrições às nossas exportações. Basta pensar no que acontecerá com o governo alemão se o Partido Verde vier a participar da coalizão governante que sucederá Angela Merkel. Já vimos também muitas empresas europeias ensaiarem boicote a produtos brasileiros. Essa ameaça está muito mais próxima de nós do que muitos imaginam. 

Por fim, o aquecimento global está possibilitando que áreas mais frias no hemisfério Norte comecem a produzir grãos. Por exemplo, em Manitoba (no centro do Canadá), em pouco mais de uma década, algo como 530 mil hectares de terra estão sendo cultivados com soja e 150 mil hectares com milho. O mercado local de terras está atraindo novos investidores. O mesmo processo está acontecendo em áreas da Rússia, nos países escandinavos e no norte da China. 

Simplesmente não é verdade que os chineses e outros terão, obrigatoriamente, de comprar de nós quando se olha mais de cinco anos adiante.

Temos de mudar essa equação muito rapidamente. 

* * * * *

João Sayad e eu fomos colegas na FEA-USP, na graduação e no mestrado. Nossa amizade consolidou-se quando fui fazer um pós-doutorado em Yale, onde ele fazia o PhD, e desde então se manteve. 

Sempre inteligente, João foi um economista original e um grande homem público. Mais que tudo, uma pessoa maravilhosa, culta, gregária e dono de um grande senso de humor. 

Nestes tempos já tão pedregosos, o mundo vai ficar um pouco menos iluminado. 

ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS. ESCREVE QUINZENALMENTE

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