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O menosprezo dos EUA

Se Trump viesse ao Peru colocaria líderes latinos em saia justa, pois pediria ação deles contra a China

Monica de Bolle*, O Estado de S.Paulo

11 Abril 2018 | 04h00

Não é de hoje que a política externa americana esqueceu-se da América Latina. Sob Obama, o máximo de atenção dispensada à região foi a aproximação com Cuba, imediatamente repudiada por Trump. Portanto, não surpreende que o controvertido presidente norte-americano tenha desistido de viajar para Lima no próximo fim de semana para participar da oitava Cúpula das Américas. Depois de fazer certo alarde sobre sua primeira viagem ao quintal dos EUA, Trump resolveu que era melhor ficar aqui por Washington mesmo, cuidando de seus problemas com a Síria e com a Rússia. Em seu lugar enviará o vice Michael Pence, figura meio apagada ante a exuberância trumpista. O resto da delegação tampouco promete animar os líderes locais.

Farão parte da trupe a secretária do Departamento de Homeland Security, Kirstjen Nielsen, e o assessor da Casa Branca Stephen Miller, ambos ferrenhos defensores da deportação em massa de latinos dos EUA. É verdade que durante o governo Obama houve muitas deportações silenciosas, mas houve também a criação do programa para proteger indivíduos trazidos ilegalmente por seus pais para os EUA quando eram ainda menores de idade – o programa conhecido como DACA que Trump resolveu eliminar no ano passado. Desde então, há cerca de 800 mil jovens no limbo, sem saber se o único país onde cresceram e passaram a maior parte de suas vidas continuará a permitir que trabalhem e estudem. A imensa maioria desses jovens são de origem latina, muitos mexicanos, outros tantos da América Central. No início desse ano, senadores republicanos e democratas tentaram encontrar alguma saída, alguma forma de proteger essas pessoas da deportação. Trump, incentivado pelo antipático Miller derrubou todas as tentativas de legislação. Coube às cortes interromper as inevitáveis deportações desses jovens até que alguma solução seja encontrada. Nada há no horizonte.

Nielsen, ex-vice de John Kelly – espécie de chefe da casa civil de Trump – continuou a apertar a perseguição a imigrantes iniciada por Kelley. Todos os dias há pelo menos algumas notícias nos jornais sobre pais separados de filhos, invasões por agentes da imigração em igrejas e cortes de justiça, prisões em centros de detenção por tempo indeterminado. A maior parte dessas ações tem atingido em cheio os latinos que aqui vivem, muitos há décadas. Portanto, a presença de Nielsen e Miller em Lima não deve ser lá muito bem vinda.

Acompanhando esses dois, estarão também o Secretário do Departamento de Comércio Wilbur Ross, e o novo assessor econômico de Trump – substituto de Gary Cohn – Larry Kudlow. Ross é um dos arquitetos do protecionismo trumpista, sobretudo das tarifas sobre o aço e o alumínio das quais o Brasil recebeu isenções temporárias. As tarifas foram mal recebidas em todo o mundo, como já havia discutido nesse espaço, sobretudo por aliados e grandes produtores latino-americanos. A isenção temporária concedida ao Brasil e à Argentina, e também ao México e ao Canadá, terá de enfrentar negociações para tornar-se permanente. O único país até agora que conseguiu a isenção permanente foi a Coreia do Sul, e para isso teve de aceitar salgada cota sobre suas vendas de aço para os EUA. Portanto, a presença de Ross, o homem do aço, deve causar algum mal-estar durante esse encontro.

Por fim Larry Kudlow. Para quem não o conhece, sua maior credencial é ter sido – até recentemente – comentarista econômico do canal a cabo favorito de Trump, a Fox News. Dizem dele que é defensor do livre comércio, mas até agora não proferiu palavra crítica sobre as sobretaxas de aço e alumínio ou sobre as ameaças de guerra comercial com a China. Como outras trocas recentes no entorno de Trump, parece que o economista foi promovido para concordar com todas as ideias do presidente, o que em nada atenuará a linha protecionista dessa administração. 

Mas, é possível que o menosprezo de Trump pela região e sua recente desistência de passear nos trópicos seja um “mal” que veio para o bem. Caso Trump estivesse presente em Lima, provavelmente pediria aos líderes latinos que a ele se aliassem em sua cruzada contra a China. Estaria assim a América Latina entre a cruz e a espada: de um lado, arriscada a sofrer com a ira de Trump; de outro tentando não danificar relações com o país asiático do qual tantos dependem não só como parceiros comerciais, mas como fonte de investimentos. Portanto, agradecemos o desdém. Que assim continue. 

* ECONOMISTA, PESQUISADORA DO PETERSON INSTITUTE FOR  INTERNATIONAL ECONOMICS E  PROFESSORA DA SAIS/JOHNS HOPKINS UNIVERSITY 

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