IARA MORSELLI - Estadão
IARA MORSELLI - Estadão

finanças

E-Investidor: "Você não pode ser refém do seu salário, emprego ou empresa", diz Carol Paiffer

‘O mercado não resolve tudo sozinho’

Embora defenda redução de amarras à atividade econômica, Luiza diz que empresário não pode fechar olhos para o social

Entrevista com

Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza

Fernando Scheller e Sonia Racy, O Estado de S.Paulo

10 de junho de 2018 | 05h00

Embora defenda medidas que ajudem a economia a funcionar livre de amarras, Luiza Trajano, presidente do conselho do Magazine Luiza, afirma que o empresário brasileiro não pode pensar nas próximas eleições apenas pelo lado da política econômica. Segundo ela, a questão social precisa ser enfrentada. “Não podemos continuar com o desnível social atual”, diz. “Precisamos ter em mente que 60% das famílias brasileiras ganham menos de R$ 2 mil por mês.”

Apesar de não pretender apoiar nenhum candidato explicitamente nas eleições deste ano, Luiza diz ver o movimento do empresariado – incluindo a candidatura de Flávio Rocha, da Riachuelo – como positivo. “Nem estou falando que o empresário precisa sair candidato, mas deve sim assumir posições políticas”, afirma ela. Leia a seguir os principais trechos da entrevista.

Com o mercado financeiro volátil e as eleições se aproximando, qual sua visão da economia?

Acho que o crescimento poderia estar mais rápido. A decisão do Copom (Comitê de Política Monetária) de não baixar os juros atrapalhou um pouco, assim como a alta do dólar. Estou sentindo que o mercado começa a reagir, apesar do susto com o dólar mostrar que a estabilidade não está tão forte. De qualquer forma, o fundo do poço da crise passou, e eu sinto que a economia está se distanciando da política. Não acho que o desemprego esteja muito menor. Por outro lado, as pessoas estão com menos medo de ficar desempregadas e já pagaram suas dívidas. 

O que a economia precisa para deslanchar de vez?

O tripé é emprego, renda e crédito. O emprego tem aumentado muito devagar, mas a insegurança das pessoas diminuiu. A renda não aumentou muito. Nos últimos anos, no entanto, as pessoas pagaram suas dívidas e entraram menos endividadas (em 2018). Os bancos abriram um pouco mais o crédito, ampliando o acesso para mais gente. Foi o crédito que trouxe mais gente para a economia.

E como a sra. vê o momento político?

Está um ponto de interrogação. Ninguém sabe, pode ter uma virada grande. As pessoas falam que o brasileiro está passivo. Acho que a população está observando, sentindo. A sociedade civil está mais consciente de seu papel. Não dá para falar nada do que vai acontecer na eleição neste momento. Talvez a gente vá descobrir melhor em agosto e setembro.

Qual a sua visão da greve dos caminhoneiros?

A greve dos caminhoneiros se materializou porque o Brasil não ouviu os sinais que apontavam para as consequências da falta de planejamento em infraestrutura. O e-commerce teve algum atraso, mas as lojas físicas não sentiram porque tinham estoque. O que mais aprendi em todos esses dias de paralisação é que temos de ficar muito atentos aos sinais que são dados para atuar rapidamente para evitar conflitos.

A sra. já teve vontade de entrar na política?

Eu me considero uma política sem partido. Nunca me filiei a nenhum partido. Eu sou muito política, mas não com um cargo (público).

E o que dá para fazer de prático a partir dessa posição?

Está na hora de a sociedade civil assumir a responsabilidade, de definir aonde quer ir. Eu não quero mais diagnóstico, quero ação. É o que o movimento Mulheres do Brasil (do qual é uma das criadoras) tem feito. Não criamos uma ONG para discutir a violência contra a mulher, nós nos associamos à Maria da Penha. E queremos resolver problemas práticos, como o fato de as delegacias da mulher não abrirem aos sábados. Eu não quero que nenhuma mulher, dentro de um ano, ganhe menos do que um homem. Esse tipo de coisa é fácil de se resolver, porque depende de uma “canetada”. Basta uma decisão do presidente da empresa. 

O que a senhora tem achado da movimentação de empresários nessa eleição?

Acho que o empresário tem de assumir posições. Eu acho que o Flávio Rocha (da Riachuelo), meu amigo pessoal, está saindo para presidente com uma coragem muito grande. É uma pessoa que está fazendo porque quer mudar o Brasil mesmo. Nem estou falando que o empresário precisa sair candidato, mas deve assumir posições políticas.

As posições de empresários geralmente estão ligadas às regras de mercado. Dá para ignorar a questão social no Brasil?

O empresário precisa pensar que 60% das famílias brasileiras ganham menos de R$ 2 mil por mês, que o sertão tem gente sem água. E que existem pessoas que não têm oportunidades nem emprego, e não porque não querem trabalhar. O empresário precisa entender que (tem de enfrentar essa situação) caso queira deixar um país melhor para os filhos e netos. Ele não pode terceirizar o Brasil, tem de assumir o Brasil como dele, entender que não podemos continuar com o desnível social atual. Isso não é bom para a questão da violência, não é bom para nada.

Como fica o “mercado”, como dizem os empresários, nessa equação?

O mercado realmente precisa trabalhar, mas a gente tem uma passagem (a fazer), que é atender as pessoas que não têm o que comer. São 20 milhões e tantos de pessoas nessa situação. Eu concordo que não se pode amarrar a atividade econômica. Mas não sou tão radical de achar que tudo o mercado resolve.

E a questão das reformas estruturais da economia?

Eu defendi a reforma trabalhista por dez anos. Ela não mexeu em nada do que as pessoas já tinham (como direito). Foi uma vitória da democracia da vontade. A pessoa continua a trabalhar oito horas por dia. Mas, antes, se um funcionário trabalhasse num domingo, precisava dar folga para ele naquela semana. Ele não poderia, nem se quisesse, esperar 15 dias. A mesma coisa vale para as férias. Agora, é possível ter os mesmos 30 dias de férias, só que divididos em dez dias. 

E a reforma da Previdência?

A reforma da Previdência é necessária, mas precisa ser mais discutida com o povo. Com a longevidade de hoje, não vai dar para pagar as contas (da Previdência) com as pessoas se aposentando cedo. Daqui a 20 anos não vai ter aposentadoria (para ninguém). Mas, ao mesmo tempo, temos de olhar os trabalhadores rurais e especialmente as mulheres do campo, e algumas exceções talvez possam ser feitas. Precisamos ouvir todo mundo e chegar a uma conclusão rápida. E temos de discutir isso como uma coisa boa para o Brasil.

A senhora pretende apoiar algum candidato?

Eu não posso, porque o Mulheres do Brasil não pode apoiar candidatos explicitamente. É um grupo apartidário, é algo inegociável. Eu recebo todos, posso ter minha preferência, mas não posso apoiar ninguém em nome do grupo.

O seu nome foi citado para ser do conselho da BRF. Como foi esse processo?

Eu tinha sido do conselho antes da fusão. E agora, o Luiz (Fernando Furlan) me chamou para ajudá-lo. Ele mandou um WhatsApp e eu disse sim. Mas, num primeiro momento, o Furlan seria o presidente do conselho. Eu iria só para ajudar um amigo. Depois eu vi que virou um compromisso muito maior e que chamaram o Pedro Parente (ex-presidente da Petrobrás). E eu achei válido eles fazerem isso, mas eu saí antes (de Parente ser indicado ao comando do conselho).

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.