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O meu pirão primeiro

Quando Donald Trump trombeteia '(put) America first', está dizendo a mesma coisa: em primeiro lugar os americanos – e ele próprio

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

22 de maio de 2019 | 21h00

Farinha pouca, meu pirão primeiro. Quando cantou esse ditado, o sambista Bezerra da Silva o atribuiu aos “tempos de cativeiro”. Mas pode ter sido inventado antes. E, no entanto, em proporções globais, está sendo repetido aí pelos líderes dos movimentos nacionalistas.

Quando Donald Trump trombeteia em seus discursos e no Twitter “(put) America first”, está dizendo a mesma coisa, é o pirão em primeiro lugar para os americanos – e para ele próprio.

Mas veja os brados alardeados pelos movimentos populistas, nacionalistas e/ou xenófobos. Os defensores do Brexit traduzem a mesma exigência por “take back control”. A direita francesa grita “la France pour les français”. Os italianos liderados por Matteo Salvini: “Prima gli italini”. Os separatistas da Catalunha atendem ao slogan “Fem la Republica Catalana”. E a base de governo de Viktor Orban, outro líder direitista, é, em tradução livre, “a Hungria primeiro, e depois todo o resto”.

E é por aí, o resto é resto. A redução da farinha na cozinha dessas classes médias ressentidas e indignadas tem paradoxalmente a ver com amplo movimento global de distribuição de renda. Tem a ver com o atendimento de um dos princípios da Revolução Francesa, que é o da Igualdade. Nessas condições, também paradoxalmente, são frutos (provisoriamente) ruins produzidos por árvore boa.

Na medida em que a China passou a incorporar mais de 400 milhões de chineses antes marginalizados do mercado de trabalho e de consumo e em que outros tigres asiáticos passaram a fazer o mesmo, o aumento do comércio global, o avanço das tecnologias, das comunicações e dos transportes e de tantos fatores mais acabaram por viabilizar economicamente o processo. Mais emprego na China, na Coreia do Sul e na Índia implicaram a multiplicação de bens de consumo e de serviços a baixo preço no Ocidente. Com isso, empresas migraram para a Ásia e para a Europa do Leste em busca de mais baixos custos de mão de obra. Mas o desemprego aumentou nos países de origem dessas empresas, o salário ficou mais curto no Ocidente, grande número de governos passou a enfrentar constrangimentos orçamentários que solaparam o cumprimento dos compromissos dos Estados com o bem-estar social, tais como educação, saúde básica, aposentadoria e seguro-desemprego.

A reação visceral dessas classes médias é a repulsa aos imigrantes e aos acordos internacionais que, de alguma maneira, limitam a vida boa e o acesso às benesses esperadas. Daí também a aversão generalizada à liberação do comércio e às instituições democráticas. Em geral, esses movimentos nacionalistas e populistas não têm um projeto claro. Querem a remoção de “tudo o que está aí”, como pregam os coletes amarelos da França. E condenam a atual ordem mundial e as instituições globais: a ONU, a OMC, o Fundo Monetário Internacional, os bancos centrais, os administradores da União Europeia incrustados em Bruxelas, etc.

Querem, sim, mais salário, mais empregos com redução de jornada de trabalho, aposentadoria mais cedo e mais benefícios públicos, mas não dizem como tudo isso se proverá.

É sabido que não dá para conter a migração da indústria nem dá para destruir as cadeias globais de suprimento, produção e distribuição. Daí a aversão, ainda que vaga, aos acordos comerciais que liberalizam o mercado doméstico para produtos importados, que dão emprego para os outros, sem antes suprir o próprio pirão.

Para essa gente, ainda não caiu a ficha de que a globalização e praticamente tudo o que vem junto aumentam a produtividade, reduzem os custos globais e internacionalizam o bem-estar. Só que isso nem sempre acontece no ritmo que satisfaça simultaneamente todos os nós da rede enorme. Basta que um bloco de países caminhe mais rapidamente, como acontece hoje com os asiáticos, para que alhures a distribuição de farinha enfrente oscilações surpreendentes.

Como serão atendidas as reivindicações desses movimentos socioegoístas ou em que praia eles desembocarão ainda não se sabe. Não é com guerras, não é com mais nacionalismo nem com mais autonomia e menos globalização que tudo se acomodará. Ao contrário, a História ensina que as autocracias e o fechamento de fronteiras tendem a se inviabilizar, dada a crescente interdependência entre os povos e as nações.

A História também ensina que a melhor resposta econômica a esses momentos de depressão é um conjunto de obras públicas e sociais que, nos anos 30, foi chamado de New Deal. Mas ainda não se vislumbram saídas desse tipo, porque, com farinha de menos, os Estados também estão quebrados.

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