STRINGER|MEXICO | REUTERS
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O México contra o bilionário Carlos Slim

Novas regras no país impuseram concorrência à maior empresa do bilionário; os lucros da América Móvil já caíram 44% neste ano

THE NEW YORK TIMES

14 de agosto de 2016 | 05h00

Nem tudo vai bem no reino de Carlos Slim. Por mais de 25 anos, ele ditou as regras da indústria de telecomunicações do México e construiu um império, tornando-se um dos homens mais ricos do mundo. Seus anos de esplendor lhe permitiram inundar as Américas com empresas que enquadram quase todos os aspectos da vida moderna, como telecomunicações, bancos, construção, varejo e mídia. Mas no país de Slim as coisas estão mudando.

Determinados a acabar com seu domínio, líderes dos três grandes partidos políticos do México deixaram de lado nos últimos anos suas animosidades e se reuniram em sessões secretas. Agora, o plano que traçaram para incrementar a concorrência nas telecomunicações, transformado em lei dois anos atrás, começa a funcionar. Os lucros da principal empresa de Slim, América Móvil, caíram 24% em 2015 e quase 44% no primeiro semestre deste ano em relação a períodos anteriores equivalentes.

Em Wall Street, as ações da companhia caíram 39% em 2015. A companhia admitiu que a concorrência está reduzindo seus lucros. Sob a nova legislação, a Móvil, como empresa dominante de telefonia, tem de se submeter a regras especiais. Não pode cobrar de competidores menores quando seus usuários entrarem na rede da empresa e tem de compartilhar sua infraestrutura, incluindo repetidoras de celular, levando Slim a se queixar de ter de subsidiar gigantes como a AT&T. “O que mais mudou foram as autoridades e sua atitude com o império”, disse Ernesto Piedras, diretor da consultoria Competitive Intelligence Unit. “Pela primeira vez, Slim não tem cópia de todas as chaves.”

Órgãos reguladores do México, às vezes indo contra diretrizes do governo, tentaram por décadas controlar, sem sucesso, o poder de Slim. Seu império era tão dominante que custou aos mexicanos US$ 13 bilhões a mais por ano entre 2005 e 2009, segundo a OCDE.

A riqueza de Slim, seu exército de advogados e suas conexões no governo o mantinham à frente dos fracos órgãos reguladores. Mas quando o Partido Revolucionário Institucional (PRI) retomou a presidência, em 2012, tratou de fazer valer de novo seu poder num país em que o Estado – não os grandes negócios – era rei. E Slim era um alvo ideal para ganhos políticos: os mexicanos estavam descontentes com o que consideravam serviços caros e nem sempre confiáveis.

Rever o setor de telecomunicações era parte essencial da investida do presidente Enrique Peña Nieto para mudar a imagem do México e do PRI, que governou o país por 70 anos antes de perder a eleição, em 2000. Ele prometeu um novo PRI, dedicado a reformular a economia. Declarou que aquela era “a hora do México”. A euforia durou pouco, com escândalos de corrupção jogando sua aprovação para o mais baixo índice de um presidente em 25 anos. Mas a reforma econômica prosseguiu.

O México está convidando empresas petrolíferas para fazer prospecção. O sistema escolar está sendo mudado. Slim enfrenta competição de verdade pela primeira vez. “Este governo investiu nas reformas econômicas, mas não investiu em reformas no sistema judiciário e contra a corrupção”, disse Enrique Krauze, historiador mexicano. As mudanças ainda não chegaram a abalar a participação de Slim no mercado. Ele detém perto de 70% do setor de celulares e 65% da telefonia fixa.

Slim negou a ideia de que sua empresa exigiu regulamentação especial ou que, no passado, tenha impedido regulamentações. “Vejam a regulamentação que nos impuseram. Cada vez que reclamam de alguma coisa, tratam de impor uma regulamentação.”

Slim reconhece que os lucros caíram. Os percalços monetários da América Latina cobraram um duro preço. A recente entrada da AT&T, que prometeu investir bilhões para competir com sua empresa ajudou a baixar significativamente os preços dos planos de celulares.

No geral, Slim parece otimista com suas perspectivas. “Já disse várias vezes: telecomunicações são o sistema nervoso da nova civilização. É preciso ter visão de médio e longo prazo. Não dá para pensar em prazos curtos.” Para analistas do setor, o pior ainda não chegou./ TRADUÇÃO DE ROBERTO MUNIZ

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