O milagre de Mario?

Anúncio do estímulo monetário animou investidores, os mercados globais subiram e quatro Bolsas da zona do euro registraram ganhos de dois dígitos

O Estado de S.Paulo

14 de março de 2015 | 02h03

Mais uma vez, Mario Draghi, o presidente do Banco Central Europeu, faz jus ao seu apelido Super Mario. Em 2012, ele estabilizou o mercado com a promessa de fazer tudo o que fosse preciso para salvar o euro. Este ano, ele usou um estratagema semelhante ao adotar o afrouxamento quantitativo (QE, na sigla em inglês) - a impressão de dinheiro para a compra de ativos.

Esta semana, o BCE começou comprando títulos do governo. E já estava comprando títulos garantidos por ativos e obrigações hipotecárias.

O anúncio do QE, no fim de janeiro, contribuiu para reanimar os investidores depois de um início de ano complicado. Os mercados acionários globais subiram 5,3% em fevereiro, segundo a Standard & Poor's, e quatro bolsas da zona do euro (Áustria, Grécia, Portugal e Irlanda) registraram ganhos de dois dígitos.

A maior flexibilização da política monetária não é o único fator que explica a recuperação. Os investidores ficaram aliviados quando a Grécia e seus credores concordaram com uma extensão do seu programa de empréstimos. Isso reduziu o risco de a Grécia sair da zona do euro (embora a saúde financeira do país continue debilitada).

A queda acentuada do preço do petróleo também funcionou como um corte de impostos para os consumidores europeus, aumentando as esperanças de que a economia do continente consiga escapar da depressão. O índice de surpresa econômica do Citigroup para a zona do euro, que mostra se os dados tiveram um desempenho inferior ao do mercado ou se superaram as expectativas, saltou de -57,3 em meados de outubro para +49,5 no dia 9. O BCE elevou sua previsão de crescimento para este ano de 1% para 1,5% e a Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico (OCDE) afirma ver "tímidos sinais de uma mudança positiva no impulso para o crescimento da zona do euro".

Ninguém prevê um crescimento capaz de fazer inveja aos chineses. Mas os dados recentes aparecem num contexto de anos de desânimo constante, quando os investidores pareciam duvidar de que a zona do euro pudesse crescer.

Outra notícia positiva veio do setor bancário europeu. Desde 2008, os bancos vêm se preocupando mais com o fortalecimento de seus balancetes do que com a concessão de empréstimos a empresas. Esse aperto do crédito foi ruim para o crescimento, mas a situação está melhorando. A medida geral da massa monetária (M3) cresceu 4,1% no ano até janeiro; 12 meses antes, a taxa de crescimento anual foi de apenas 1,2%. O M1, uma medida mais limitada, indica a tendência: no mesmo período, saltou de 6,2% para 9%.

As grandes corporações também conseguiram se beneficiar com os baixíssimos rendimentos nos mercados de títulos da Europa. O BCE influiu nesse caso também: os investidores anteciparam o lançamento do QE baixando significativamente os rendimentos dos títulos do governo.

Na França, Alemanha e Holanda, entre outros países, os rendimentos dos títulos de dois anos são negativos. O rendimento dos títulos de dez anos na Alemanha é de apenas 0,23%, o que significa que suplantou o Japão como país cujos empréstimos custam menos em relação ao resto do mundo.

Com isso, os investidores à caça de retornos se precipitaram sobre a dívida corporativa; o rendimento dos títulos do grupo Nestlé, também foi negativo. As companhias europeias não foram as únicas a se beneficiar. Nos dois primeiros meses do ano, as companhias americanas emitiram títulos da dívida denominados em dólares por 18 bilhões, com um aumento de 160% em relação ao mesmo período de 2014. A Coca-Cola sozinha vendeu títulos no valor de 8,5 bilhões. Os investidores apresentaram ordens por 20 bilhões pelos papéis, embora a companhia oferecesse rendimentos de apenas 1,65% para os títulos de 20 anos.

O resto do mundo talvez não seja tão otimista a respeito da outra consequência da medida do BCE: a queda acentuada do euro. A moeda baixou US$ 1,06 no dia 11 deste mês, seu patamar mais baixo desde o início de 2003. Não se trata apenas de debilidade do euro, o dólar também subiu em relação ao iene, e os investidores preveem que, mais para o fim do ano, o Federal Reserve (banco central americano) determinará o primeiro aumento da taxa de juros desde a crise financeira. O dólar agora chegou ao seu nível mais elevado ponderado com base no comércio, em relação às moedas mais fortes, desde 2003.

Um fato importante para os exportadores dos EUA. Embora seu déficit comercial ainda se beneficie com o aumento da produção nacional de petróleo e gás de xisto, o déficit comercial, excetuando-se o petróleo, chegou a quase US$ 50 bilhões em janeiro, US$ 10 bilhões mais que no mesmo mês do ano passado. Além disso, o lucro das companhias americanas sofrem quando seus ganhos no exterior se traduzem em dólares; de ato, as estimativas de crescimento dos lucros este ano foram corrigidas para baixo, de 9,1% para 2,1% nos últimos meses.

Para que o QE europeu seja algo positivo para o mundo, e não apenas na zona do euro, terá de reanimar a demanda, e não apenas se apoderar da parcela de mercado em nome dos exportadores do continente. O exemplo do QE japonês é bastante incompleto a esse respeito: três dos últimos cinco trimestres apresentaram um declínio da atividade econômica (embora o seu efeito seja ofuscado pelo aumento do imposto sobre o consumo). Os investidores confiam que o plano do Super Mario funcionará melhor.

© 2015 THE ECONOMIST NEWSPAPER LIMITED. DIREITOS RESERVADOS. TRADUZIDO POR ANNA CAPOVILLA, PUBLICADO SOB LICENÇA. O TEXTO ORIGINAL EM INGLÊS ESTÁ EM WWW.ECONOMIST.COM

Foco. Atenções se voltam mais uma vez para Draghi, presidente do BC

Tudo o que sabemos sobre:
theeconomistBanco Central Europeu

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.