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O ministro independente por trás de Merkel

Veterano na política, Wolfgang Schaeuble cuida das Finanças e, às vezes, enfrenta a chanceler

NOAH BARKIN, ERIK KIRSCHBAUM , REUTERS / BERLIM, O Estado de S.Paulo

17 de dezembro de 2011 | 03h08

Era quase meia-noite num iate clube na Riviera Francesa, a certa distância da reunião de cúpula do G-20. A chanceler alemã Angela Merkel estava contando aos repórteres sobre sua decisão de bloquear um empréstimo à Grécia quando, subitamente, o ministro alemão de Finanças a interrompeu para explicar melhor a situação.

Wolfgang Schaeuble disse aos jornalistas que a interrupção do envio de ajuda a Atenas tinha sido ideia dele. Foi essa decisão que ajudou a convencer Atenas a abrir mão dos controvertidos planos para a realização de um referendo sobre as novas medidas de austeridade, acalmando os mercados financeiros. Schaeuble tinha dado a notícia pessoalmente ao ministro grego, Evangelos Venizelos, na época hospitalizado em decorrência de dores estomacais.

"É verdade, de fato foi o ministro de Finanças que interrompeu as remessas de ajuda", reconheceu Merkel, um pouco desconcertada. "Ele foi o primeiro a reagir." Os repórteres olharam uns para os outros, surpresos. Ali estava a mais poderosa líder europeia tendo sua atenção chamada em público por um de seus ministros. Em vez de rechaçar o comentário de Schaeuble, Merkel concordou com ele, reconhecendo que o ministro tinha razão.

Esse momento incomum no início de novembro nos dá uma ideia do complexo relacionamento entre Merkel e Schaeuble. Antes suplente dele, Merkel é agora sua chefe. O elo entre eles sobreviveu a duas décadas de cutucões e revogações - e é agora central para a crise de endividamento da zona do euro.

A Alemanha é a principal potência da Europa, e a França vem em segundo lugar. Durante meses, os mercados e a mídia se concentraram nos laços entre Merkel e o presidente francês, Nicolas Sarkozy, enxergando aí a chave para a salvação da moeda comum, ameaçada de esfacelamento. A mídia apelidou a dupla de "Merkozy".

Mas um exame do relacionamento entre a líder alemã e seu ministro de opiniões fortes - cujas contrastantes opiniões sobre a Europa espelham tensões no eleitorado mais amplo - sugere que o toma lá dá cá entre eles pode ser absolutamente crucial para o futuro do continente. "A chanceler pode contar com a minha lealdade", disse Schaeuble em entrevista à Reuters. "Mas isso não significa que vou manter a boca fechada, que vou facilitar as coisas. Tenho liberdade de fazer aquilo que considero correto."

Veterano

Schaeuble, de 69 anos, é um veterano da política que foi confinado a uma cadeira de rodas depois de ter sido baleado por um homem desequilibrado na semana seguinte à reunificação alemã. Há muito comprometido com a causa da unidade europeia, ele influenciou muito a resposta britânica à crise. Algumas fontes informadas quanto à situação na Europa dizem que ele pode ser o único político capaz de pressionar Merkel, uma política avessa ao risco vinda da Alemanha Oriental, a adotar as medidas que podem ser necessárias para salvar o bloco monetário.

"Acho que, nas próximas semanas, Schaeuble será um dos principais arquitetos de uma solução para a crise na zona do euro", disse Klaus Tschuetscher, primeiro-ministro e ministro de Finanças de Liechtenstein. "Ele é renomado e respeitado por apresentar ideias sem temer as possíveis reações políticas. Não acho que devamos subestimar esta qualidade." Desde o início dos problemas na zona do euro, há pouco mais de dois anos, o Ministério de Finanças de Schaeuble tem sido uma verdadeira fábrica de ideias. A marca dele pode ser encontrada em muitas das principais decisões tomadas pelo bloco mais amplo.

No coração da crise estão as imensas dívidas dos governos da zona do euro e a disseminação da crença de que os investidores que compraram as obrigações desses países não serão totalmente pagos. Nos primeiros estágios da crise, Schaeuble propôs a criação de um fundo monetário europeu para sustentar os membros enfraquecidos. Na época, a ideia pareceu radical. Merkel logo a vetou, insistindo que o Fundo Monetário Internacional, com sede em Washington, deveria ser envolvido em todas as formas de resgate da zona do euro.

Mas, 18 meses depois, o bloco criou um dispositivo permanente de resgate - o Fundo Europeu de Estabilidade Financeira - que, no fim, deve ser muito parecido com o fundo monetário de Schaeuble.

Em junho, Schaeuble causou confusão ao escrever a seus colegas da zona do euro dizendo que os detentores particulares de obrigações gregas deveriam fazer uma contribuição substancial para um pacote de alívio do endividamento. Ele sugeriu que isso poderia ser feito por um swap de obrigações que reduziria a parte da dívida do governo grego. Muitos desconsideraram a ideia, chamando-a de pouco realista, mas a proposta de swap de obrigações foi agora adotada pela zona do euro.

Apesar de ter sido alertada com antecedência das intenções de Schaeuble de enviar a carta, Merkel não a leu antes do envio da mensagem, dizem os assessores dela - sinal da liberdade do ministro de Finanças, especialmente se comparado a outros ministros.

"Merkel sabia desde o começo que, se escolhesse Schaeuble para o Ministério de Finanças, seu controle sobre ele seria limitado, e também que ele teria as próprias ideias e as defenderia abertamente", disse um dos principais assessores de Merkel. "Ele é uma anomalia no gabinete." Para políticos e investidores de fora da Alemanha, as propostas de Schaeuble foram às vezes motivo de confusão: nem sempre fica claro se ele conta com o apoio da chancelaria.

Em março, por exemplo, o ministro fechou um acordo com seus colegas da zona do euro para o financiamento do Fundo Europeu de Estabilidade Financeira, mas Merkel o vetou, reabrindo as negociações dias mais tarde.

Mas a liberdade de Schaeuble também favorece Merkel. Ele pode apresentar ideias enquanto ela avalia a reação dos parceiros da zona do euro e dos mercados antes de se comprometer com a sua implementação. Trata-se também de uma parte da estrutura do governo alemão, cuja abertura para os escalões inferiores encoraja os ministérios a apresentarem propostas e submetê-las à avaliação do gabinete.

Independência

"Todos os funcionários do governo desempenham um papel importante", disse Schaeuble no seu espartano escritório no Ministério de Finanças, uma estrutura do período nazista que abrigou o Ministério da Aviação, de Hermann Goering, durante a 2.ª Guerra. "Estou na política há muito tempo, sou relativamente velho, e isso me confere certo grau de independência."

Sob certos aspectos, a liberdade de Schaeuble se torna mais gritante diante de suas óbvias limitações físicas. A tentativa de assassinato quase teve sucesso. Há pouco mais de um ano, complicações decorrentes de duas décadas passadas na cadeira de rodas estavam levando o ministro ao hospital com regularidade, e os médicos recomendaram a ele que diminuísse o ritmo de trabalho. Em setembro de 2010, depois de faltar a importantes reuniões de cúpula, ele disse a Merkel que poderia ser obrigado a renunciar por motivos de saúde. A chanceler disse a ele que tirasse um mês de folga, mas insistiu para que permanecesse no cargo.

"Em certos momentos de 2010, estive mais doente do que me dispus a crer", disse Schaeuble. "Ela disse que, se fosse possível, queria que eu continuasse com meu trabalho. Disse-me para recuperar a saúde e continuar no posto." Agora ele diz que se sente melhor. Schaeuble ganhou peso e voltou a se exercitar por duas ou três horas na cadeira de rodas na floresta de Grünewald, na parte oeste de Berlim, para se manter em forma.

Merkel e Schaeuble se conheceram nos meses seguintes à queda do Muro de Berlim, em 1989. Advogado militante, parecia ser o herdeiro do chanceler da Alemanha Ocidental Helmut Kohl e era considerado por muitos o maior talento político de sua geração. Merkel era uma tímida mulher de 35 anos vinda do outro lado do muro, e trabalhava como porta-voz de Lothar de Maiziere, líder interino da Alemanha Oriental no período anterior à reunificação.

Mas, menos de seis meses após o primeiro contato entre eles, o mundo de Schaeuble foi posto de cabeça para baixo. Era outubro de 1990, e a Alemanha recém-unificada estava num clima de alegria. A Alemanha Ocidental tinha acabado de ganhar a Copa do Mundo.

Três tiros

O país estava a poucos meses da primeira eleição pan-germânica em mais de meio século. Conforme o século 20 entrava na década final, um país que sofreu com duas guerras mundiais, hiperinflação, a assassina ditadura nazista e décadas de divisão durante a Guerra Fria pôde finalmente olhar para o futuro com otimismo. Schaeuble, então ministro do Interior, estava deixando um evento de campanha numa taverna em Oppenau, perto da fronteira francesa, quando um homem de 37 anos sacou uma arma e disparou três tiros, atingindo-o no rosto e na coluna. "Não posso mais sentir as pernas", teria dito antes de perder a consciência.

Schaeuble foi levado ao centro médico de uma universidade em Freiburg, sua cidade natal, onde os médicos trabalharam a noite toda para salvar-lhe a vida. Kohl visitou seu braço direito na unidade de terapia intensiva. Horas depois, numa entrevista coletiva improvisada, o chanceler teve de conter as lágrimas.

Além de sobreviver, Schaeuble retornou ao seu posto em Bonn alguns meses depois, apesar dos apelos de sua família pedindo-lhe que abandonasse a política. Sua aparência era frágil, mas Kohl manteve a fé no leal aliado. Para os alemães que indagavam se um paraplégico seria capaz de governar o país, Kohl costumava responder que Franklin Roosevelt, de sua cadeira de rodas, liderou os Estados Unidos durante a Grande Depressão e a 2.ª Guerra.

A confiança do chanceler foi recompensada. Após voltar ao cargo por pequena margem de votos em 1994, a pequena maioria de centro-direita de Kohl foi mantida intacta graças aos esforços de Schaeuble. "Ele manteve unida a coalizão governante", lembra Peter Hausmann, porta-voz de Kohl nos anos 90 e atual editor de um jornal na Baviera.

"A maioria era tênue, mas ele manteve a disciplina e não deixou ninguém escorregar." Se Kohl tivesse renunciado antes das eleições de 1998, permitindo que Schaeuble concorresse contra o social-democrata Gerhard Schroeder, o combativo advogado de Freiburg poderia ter se tornado chanceler. Mas Kohl estava determinado a liderar o país no rumo da moeda única, um projeto ambicioso que ele fez avançar apesar das objeções de muitos compatriotas, concorrendo a um quinto mandato sem precedentes.

Kohl perdeu para Schroeder, e Schaeuble assumiu o lugar dele como líder da conservadora União Democrática Cristã. Schaeuble nomeou a ascendente Angela Merkel como sua suplente. Tratava-se de uma dupla que duraria menos de um ano e meio. Em dezembro de 1999, Kohl foi apanhado num escândalo envolvendo o financiamento de sua campanha. Merkel escreveu um artigo para o Frankfurter Allgemeine Zeitung que atingiu a política alemã como um tsunami. No texto, ela insistia ao partido que seguisse adiante "sem o seu velho corcel de guerra", Kohl.

O padrinho dos democratas cristãos não pôde acreditar que a jovem protegida que ele tinha arrancado da obscuridade tivesse escrito o artigo sem a aprovação de seu chefe, Schaeuble. Kohl lançou uma destrutiva campanha nos bastidores para prejudicar aquele que antes era apontado como seu sucessor. Menos de dois meses depois, quando surgiram discrepâncias no relato de Schaeuble sobre uma doação ao partido, ele foi obrigado a renunciar.

'Cara limpa'

Sobrou apenas Merkel. Celebrada como "cara limpa" dos democratas cristãos, ela foi alçada à liderança do partido. "Para Schaeuble, tratou-se de uma situação extremamente difícil", disse um ex-ministro do governo de Kohl que testemunhou o drama e conhece bem tanto Merkel quanto Schaeuble. "Na época, a UDC ansiava muito por algo novo, por alguém que não estivesse na órbita de Kohl, como era o caso de Schaeuble. Ela lucrou com o escândalo envolvendo Kohl." Em My Way, livro de entrevistas com Merkel publicado em 2004, ela confirma que Schaeuble nada sabia sobre o artigo antes da sua publicação. Merkel diz que um dos motivos que a levaram a escrevê-lo foi dar a ele a liberdade de liderar um partido que ainda vivia sob a marcante sombra de Kohl.

Schaeuble disse não acreditar que Merkel buscava derrubá-lo quando escreveu o artigo. Ele descreve em bons termos o relacionamento de trabalho entre os dois, ao mesmo tempo deixando claro que não são amigos. Schaeuble minimizou a importância de outros cutucões ao longo dos anos, como a recusa de Merkel a manifestar seu apoio a ele para a presidência alemã em 2004.

Foi Schaeuble quem pressionou muito a UDC a demonstrar seu compromisso com a Europa num congresso do partido realizado em Leipzig no mês passado sob o lema "Pela Europa, pela Alemanha". Numa importantíssima votação no Parlamento realizada em fins de setembro, ele também ajudou a convencer os aliados do partido a defender o reforço do fundo de resgate da zona do euro, evitando uma crise governamental que prejudicaria Merkel.

Mas as diferenças de opinião entre Schaeuble e Merkel com relação à Europa são às vezes difíceis de ocultar. Enquanto Merkel parece concentrada em limitar os estragos da crise da dívida para a Alemanha, Schaeuble vê a crise como uma oportunidade de concluir a integração política da Europa, algo que não existia quando o euro foi lançado.

Em público, ele se atém à linha do partido com relação às controvertidas propostas de combate à crise. Indagado no mês passado, se imaginava títulos comuns para a dívida dos países da zona do euro - uma ideia à qual Merkel se opõe enfaticamente -, a reação inicial de Schaeuble foi: "Preciso tomar o cuidado de dizer o mesmo que a chanceler". Ele então disse que ainda era cedo para pensar numa medida como essa.

Mas as pessoas que o conhecem dizem que Schaeuble provavelmente estaria disposto a apoiar ideias do tipo, se a alternativa fosse o esfacelamento do bloco monetário.

"Ele defende os eurobônus", disse o ex-ministro do gabinete de Kohl que trabalhou com ambos durante anos. "Schaeuble não pode dizer isso abertamente, mas, se analisarmos cuidadosamente aquilo que ele tem dito veremos que ele não exclui a ideia dos eurobônus, como fazem outros. Com a linguagem empregada, ele deu dicas substanciais de qual seria a sua posição."

Numa reunião de cúpula em Bruxelas na semana passada, os líderes da UE concordaram em avançar na formação da "união fiscal" que Schaeuble há muito defende, sob a qual os membros da zona do euro abririam mão do controle de sua política orçamentária. Eles também liberaram mais recursos ao FMI para ajudar países da zona do euro em dificuldades, como Itália e Espanha, e decidiram antecipar em um ano o lançamento do seu fundo permanente de resgate.

Mas essas medidas podem ser insuficientes. E a pressão para que a Alemanha adote medidas mais ousadas pode aumentar nas próximas semanas.

Se for grande a ameaça de um esfacelamento da zona do euro, Schaeuble terá novamente de decidir se exporá suas ideias, desafiando Merkel como ocorreu de maneira bem humorada em Cannes. Como Dick Cheney no governo do presidente americano George W. Bush, ele não tem nada a perder, não tem cargos mais elevados em vista, e conta apenas com a sua própria visão daquilo que precisa ser feito. "Quando as coisas ficam realmente difíceis... subitamente, soluções que pareciam impossíveis tornam-se possíveis", disse Schaeuble.

"Por causa disso, a crise representa uma oportunidade. Não estou dizendo que gosto de estar numa crise, mas não estou preocupado. A Europa sempre avançou em momentos de crise. Às vezes, é preciso certa pressão para que certas decisões sejam tomadas." / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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