O mistério da inflação
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O mistério da inflação

Presidente do Federal Reserve, Janet Yellen reconheceu que, nos EUA, a inflação prostrada é “um mistério"; no seu Relatório de Inflação, o Banco Central do Brasil apontou o caráter surpreendente do movimento no nível de preços também por aqui

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

21 Setembro 2017 | 21h00

A inflação baixa no mundo civilizado e agora também no Brasil ainda não foi totalmente explicada, embora alguns fatores desse mergulho sejam notórios.

Ontem, a presidente do Federal Reserve (Fed, o banco central dos Estados Unidos), Janet Yellen, reconheceu que, nos EUA, essa inflação prostrada é “um mistério”, embora entendesse que essa fraqueza fosse “provavelmente temporária”. Hoje, no seu Relatório de Inflação, o Banco Central do Brasil apontou o caráter surpreendente da inflação também por aqui. E divulgou tabela interessante, que mede a surpresa inflacionária, entendida esta como a diferença entre a inflação esperada e a que aconteceu de fato.



Surpresa com a prostração não é coisa nova. No final dos anos 90 e início deste século, por exemplo, a cada reunião do Fomc (o Copom deles) o então presidente do Fed, Alan Greenspan, externava sua perplexidade em relação ao comportamento achatado da inflação. Os juros seguiam baixos, a procura por mão de obra aumentava, o desemprego caia e, no entanto, apesar do avanço da demanda por produtos e serviços, a inflação seguia rastejante. “Não entendo o que está acontecendo”, reconhecia Greenspan. Até que, lá pelas tantas, se fez uma luz. A explicação para isso era o emprego crescente de tecnologia de informação.


Em estudos do próprio Fed, o fenômeno era explicado como mudança de paradigma. O sistema produtivo convencional precisava operar com altos estoques, para poder atender à demanda nos momentos de pico. Se não houvesse, a empresa perderia mercado para a concorrência. Esses estoques exigiam almoxarifado, controles e tal. Todos os dias, por exemplo, um grupo de funcionários percorria as prateleiras do supermercado para avaliar quanto havia lá de xampu, creme dental, óleo de cozinha, etc. Um departamento analisava as planilhas e encarregava o departamento de compras do novo pedido ao fornecedor. A carta levava dias para chegar a seu destino. A partir de então, o departamento de vendas da indústria se encarregava de despachar a encomenda.

O sistema exigia mais área operacional, mais pessoal, mais burocracia e mais tempo. O fornecedor, por sua vez, precisava de estoque de produto final e de matérias-primas, mais equipamentos e máquinas (para acionar nos picos de demanda), mais capital de giro, etc. Ninguém estranhava essa necessidade de mais de tudo, porque as coisas supostamente eram assim.

Hoje, no entanto, o sistema produtivo e a cadeia de produção têm outra trajetória. Quando o consumidor final passa suas compras no caixa do supermercado, o fornecedor pode ser informado online sobre as necessidades do cliente. As duas pontas não precisam mais de tanto estoque, de tanto almoxarifado, de tanto pessoal e de tantos equipamentos. Os custos mergulharam... e a inflação passou a registrar isso.

A tecnologia de informação é apenas um fator de explicação. Há outros: a incorporação de mão de obra da Ásia que derrubou os preços finais no mundo inteiro; o forte aumento da produção agrícola, especialmente no Brasil, que vem contribuindo para a queda dos preços dos alimentos; a abundância de capitais nos mercados que derrubou (menos por aqui) o custo do crédito e a inflação.

Isso provavelmente não é tudo. Yellen sabe do impacto de todos esses fatores que, no entanto, não explicam a nova quota de “mistério” que ela identifica entre o céu e a terra e na origem da inflação.

CONFIRA

» Nova surpresa da inflação



O mercado espera para setembro uma inflação de 0,23%, conforme mostra a Pesquisa Focus, do Banco Central. No entanto, o IPCA-15 divulgado hoje, indicador que mede a inflação de 30 dias, mas contados da metade do mês à metade do mês seguinte, registrou 0,11%. Vai aumentando a probabilidade de que a inflação de 2017 feche abaixo de 3,0%. Se assim for, o Banco Central terá de rever a disposição de não derrubar os juros básicos (Selic) abaixo dos 7,0% ao ano.

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