Yoan Valat/Pool via Reuters
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O modelo econômico chinês: homem-forte da China tem uma nova pauta econômica

Xi Jinping está reinventando o capitalismo de estado e não deve ser subestimado nesse processo; também não se pode esperar que a força de US$ 14 trilhões do país desapareça

The Economist, O Estado de S.Paulo

16 de agosto de 2020 | 10h00

O enfrentamento dos Estados Unidos com a China está se intensificando perigosamente. Na semana passada a Casa Branca anunciou o que pode ser uma proibição iminente ao TikTok e ao WeChat, dois aplicativos chineses, impôs sanções aos líderes de Hong Kong e enviou um membro do gabinete a Taiwan. Esse aumento na pressão reflete em parte objetivos eleitorais: o posicionamento duro diante da China é um ponto-chave da campanha do presidente Donald Trump. É em parte ideológico, sublinhando a urgência dos falcões do governo em reagir em todas as frentes a uma China cada vez mais assertiva. Mas reflete também uma suposição que esteve por trás da atitude do governo Trump em relação à China desde o início da guerra comercial: a ideia segundo a qual essa abordagem dará resultados, porque o capitalismo de estado da China movido a anabolizantes é mais fraco do que parece.

A lógica é de uma simplicidade sedutora. Sim, a China produziu crescimento, mas somente ao apostar em uma insustentável fórmula de endividamento, subsídios, clientelismo e roubo de propriedade intelectual. Se pressionada o bastante, sua economia pode ceder, obrigando suas lideranças a fazerem concessões e, finalmente, abrir algum espaço em seu sistema de comando estatal. Nas palavras do secretário de estado Mike Pompeo, “os países do mundo que amam a liberdade devem induzir a China a mudar".

Simples, mas errado. A economia da China foi menos afetada pela guerra de tarifas do que o esperado. O país demonstrou muito mais resiliência diante da pandemia da covid-19 (o FMI prevê para a China crescimento de 1% em 2020 e, para os EUA, contração de 8%). O mercado de ações com melhor desempenho do mundo este ano é o de Shenzhen, e não o de Nova York. E, como diz o título, o líder da China, Xi Jinping, está reinventando o capitalismo de estado para a década de 2020. Esqueça as siderúrgicas poluentes e as cotas de produção. A nova pauta econômica de Xi é fazer os mercados e a inovação funcionarem melhor dentro de limites bem definidos e sujeitos à vigilância ilimitada do Partido Comunista. Não é a fórmula de Milton Friedman (economista norte-americano defensor do liberalismo), mas essa mistura implacável de autocracia, tecnologia e dinamismo pode impulsionar o crescimento por anos.

Não é de hoje que a economia da China é subestimada. Desde 1995 a fatia da China do PIB em valores de mercado aumentou de 2% para 16%, apesar das ondas de ceticismo ocidental. Chefões do Vale do Silício desmereceram as empresas de tecnologia chinesas como meras imitadoras; especuladores de Wall Street disseram que cidades-fantasma de apartamentos vazios trariam um crash bancário; estatísticos temeram a manipulação dos números do PIB e foi dito que uma fuga de capitais desencadearia uma crise monetária. A China desafiou os céticos porque seu capitalismo de estado se adaptou, mudando de forma. Vinte anos atrás, por exemplo, a ênfase era no comércio, mas agora as exportações respondem por apenas 17% do PIB. Na década de 2010 as autoridades deram a empresas de tecnologia como Alibaba e Tencent espaço o suficiente para que se tornassem gigantes e, no caso da Tencent, criassem um aplicativo de mensagens, WeChat, que também funciona como instrumento de controle do partido.

Agora, a próxima fase do capitalismo de estado da China está em andamento — vamos chamá-la de "Xinomics". Desde o momento em que assumiu o poder, em 2012, o objetivo político de Xi tem sido consolidar o controle do partido e esmagar as dissidências no país e no exterior. Sua pauta econômica é pensada para aumentar a ordem e a resistência contra ameaças. E há motivos para isso. O endividamento público e privado aumentou muito desde 2008, chegando a quase 300% do PIB. Os negócios se dividem entre firmas estatais antiquadas e um setor privado que lembra o Velho Oeste, onde há inovação, mas também autoridades predatórias e regras nebulosas. Conforme o protecionismo se dissemina, as empresas chinesas correm o risco de serem excluídas de alguns mercados, perdendo o acesso à tecnologia ocidental.

São três os elementos principais da "Xinomics". Primeiro, um controle mais rigoroso do ciclo econômico e da máquina de endividamento. Os dias de crédito generoso e isenções desproporcionais são coisa do passado. Os bancos foram obrigados a reconhecer a atividade fora dos balanços patrimoniais e criar proteções. O crédito é oferecido em um mercado de obrigações mais limpo. Diferentemente da sua reação à crise financeira de 2008-09, a resposta do governo à covid-19 foi contida, com um estímulo equivalente a cerca de 5% do PIB, menos da metade daquele aprovado nos EUA.

O segundo elemento é um estado administrativo mais eficiente, cujas regras se apliquem de maneira mais uniforme na economia. Mesmo com Xi usando leis impostas pelo partido para semear o medo em Hong Kong, ele construiu um sistema jurídico comercial no continente que reage muito melhor às empresas. Antes raros, pedidos de recuperação judicial e processos de quebra de patentes aumentaram 500% desde o início do governo dele, em 2012. A burocracia foi reduzida: agora são necessários nove dias para a abertura de uma empresa. Regras mais previsíveis devem permitir um melhor funcionamento dos mercados, estimulando a produtividade da economia.

O elemento final é apagar a fronteira entre empresas estatais e privada. Empresas administradas pelo governo são estimuladas a melhorar o retorno financeiro e atrair investidores privados. Enquanto isso o governo exerce controle estratégico de empresas privadas, por meio de células do partido dentro destas. Um sistema de lista de proibição ao crédito castiga as empresas pelo eventual mau comportamento. Em vez de uma política industrial indiscriminada, como a campanha “Made in China 2025” lançada em 2015, Xi está dedicando os esforços aos pontos de gargalo da cadeia de suprimento nos quais a China seja vulnerável à coerção estrangeira ou possa exercer sua influência no exterior. Isso significa alcançar a autossuficiência em tecnologias chave, como semicondutores e baterias.

A "Xinomics" trouxe bom desempenho no curto prazo. O ritmo de acúmulo de endividamento diminuiu antes da chegada da covid-19 e o choque duplo da guerra comercial e da pandemia não levou a uma crise financeira. A produtividade das estatais está aumentando e investidores estrangeiros estão injetando dinheiro em uma nova geração de empresas chinesas de tecnologia. Mas o verdadeiro teste virá com o tempo. A China espera que sua nova forma tecnocêntrica de planejamento central consiga sustentar a inovação, mas a história indica que um processo difuso de tomada de decisões, fronteiras abertas e liberdade de expressão seriam os ingredientes mágicos.

Uma coisa está clara: a esperança de um confronto seguido de capitulação é equivocada. Os EUA e seus aliados devem se preparar para uma disputa muito mais longa entre as sociedades abertas e o capitalismo de estado da China. Uma estratégia de contenção não vai funcionar: diferentemente da União Soviética, a imensa economia da China é sofisticada e está integrada ao restante do mundo. Em vez disso, o Ocidente deve reforçar sua capacidade diplomática e criar novas regras estáveis permitindo a cooperação com a China em determinadas áreas, como o combate à mudança climática e às pandemias, e preserve o comércio ao lado de proteções melhores para os direitos humanos e a segurança nacional. Não se pode esperar que a força da economia de US$ 14 trilhões do capitalismo de estado da China desapareça. É hora de abandonar essa ilusão. / TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

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