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O modelo esgotado

Dilma passou um recado para a principal facção do seu partido, o PT, que, embora base do governo, inicia ampla manobra de oposição à sua atual política econômica

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

29 Setembro 2015 | 21h00

Quando reconheceu nessa segunda-feira, em pronunciamento na Assembleia-Geral da ONU, que o modelo de crescimento econômico do Brasil, adotado após a crise de 2008, “chegou no limite”, a presidente Dilma pretendeu avisar os investidores internacionais que este é um momento de transição “para um novo ciclo de expansão”. No fundo, pediu paciência com o País, até que reencontre seu rumo.

Sem querer, Dilma também passou um recado para a principal facção do seu partido, o PT, que, embora base do governo, inicia ampla manobra de oposição à sua atual política econômica. O recado subjacente é o de que não cabe o retorno da orientação conhecida como Nova Matriz Macroeconômica, que pretendeu ser uma resposta contracíclica do seu primeiro período de governo e que deu miseravelmente errado.

É improvável que seja ouvida, porque ela própria emite sinais de vacilação. Reluta em se entregar de corpo e alma à nova estratégia de ajuste fiscal em curso.

Um documento de 144 páginas, denominado “Por um Brasil justo e democrático”, lançado nessa segunda-feira pela Fundação Perseu Abramo, ligada ao PT, elaborado por mais de cem especialistas, refuga veementemente a atual opção de resposta à crise, comandada pelo ministro Joaquim Levy, “porque não funciona” e “porque defende os interesses dos bancos”.

Pede mudança radical de orientação e exige a volta à política econômica anterior, baseada em mais despesas públicas, aumento dos impostos e derrubada dos juros. São propostas que, na sua essência, pedem a volta do modelo anterior praticado ao longo do primeiro período deste governo e que, no entanto, “chegou no limite”.

O empenho com que essa corrente majoritária do PT se atira à oposição ao ajuste reflete a aflição com a perda crescente de apoio popular do atual governo e com a perspectiva de desastres eleitorais em 2016 e em 2018.

O erro principal desse diagnóstico é atribuir os atuais estragos da economia ao ajuste fiscal, que nem foi votado no Congresso e que, portanto, ainda não pode ter produzido seus efeitos.

A derrubada do PIB, a inflação de quase 10% ao ano, o desemprego que ultrapassa os 8% ao ano, o definhamento da indústria, a asfixia da Petrobrás, a prostração do setor do etanol e a desorganização do sistema elétrico – tudo isso e tanta coisa mais foram produzidos pela política econômica anterior.

Desde dezembro, o ministro Joaquim Levy vem pregando a estratégia de crescimento econômico baseada na recuperação dos fundamentos da economia e da confiança. Como ainda ontem esclareceu no evento “Empresas Mais”, promovido pelo Estadão, a execução desse programa se compõe de três fases: ajuste das contas públicas (sem o que nada acontece), retomada da confiança e do crédito e reformas de base, especialmente a da Previdência.

Não basta reconhecer que o modelo anterior esteja esgotado. A presidente Dilma precisa escolher – e defender com todas as forças – o que de fato pretende. A divulgação da proposta do PT tem o mérito de apontar o atalho alternativo. Se corresponde a um modelo esgotado, é preciso também rejeitá-lo sem ambiguidades.

CONFIRA:

Contas públicas e juros

“Enquanto não acertarmos a área fiscal, será muito difícil os juros caírem”, disse nesta terça-feira o ministro Joaquim Levy. Isso já mostra a trombada de pontos de vista: os da orientação atual e os do PT. Para o ministro, os juros são o resultado do nível de confiança que, por sua vez, tem a ver com o equilíbrio fiscal. Para os economistas do PT, é preciso derrubar os juros, porque os juros altos aumentam as despesas da dívida, portanto, concorrem para aumento do rombo. Não há meio-termo.

 

 

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