O momento Mitchell

Em 1913, o economista norte-americano Wesley Mitchell publicou sua obra clássica sobre os ciclos econômicos. Desde então, até a sua morte em 1948, procurou analisar as sequências que ocorrem em todas as reativações econômicas, períodos de prosperidade, crises e depressões.

Paulo R. Haddad, O Estado de S.Paulo

26 de novembro de 2011 | 03h07

Para ele, todo ciclo econômico, a rigor, é constituído de uma série única de acontecimentos e tem uma única explicação, porque é fruto de uma série de acontecimentos anteriores igualmente únicos em termos históricos amplos. O seu trabalho estimulou um conjunto de estudos e pesquisas sobre os ciclos econômicos que são característica recorrente das economias capitalistas modernas. Esse conjunto levou a alguns fatos estilizados definidos como "grandes regularidades observadas e identificadas a partir de propriedades estatísticas das séries temporais macroeconômicas".

Entre esses fatos se destacam alguns sobre os quais há maior grau de consenso científico: os movimentos cíclicos são comuns a todos os setores da economia; o investimento flutua muito mais que o consumo; o salário real e a produtividade média do trabalho são procíclicos; etc. Contudo, Mitchell sempre procurou enfatizar que há setores econômicos e localidades que participam com maior ou menor avanço ou atraso dos benefícios de uma reativação econômica ou das perdas e danos de uma desaceleração da economia, pelo menos até que o caráter cumulativo do ciclo se torne dominante na dinâmica geral da economia de setores e regiões.

Ora, agora que se vai caracterizando uma desaceleração econômica no Brasil, cabe perguntar: que regiões e setores produtivos poderão ser mais atingidos, se houver tempos sombrios? A resposta preocupa especificamente tanto as autoridades econômicas subnacionais responsáveis pelos níveis de renda e de emprego nos Estados e municípios quanto as entidades que coordenam associações de empregados e de empresários responsáveis pela geração de resultados econômicos e financeiros positivos para as suas organizações.

Como explicar que para alguns setores produtivos e regiões a profundidade e a velocidade da desaceleração econômica poderão ser mais intensas do que em outros? Em primeiro lugar, o fator predominante será o rebatimento específico dos instrumentos da política econômica anticíclica que estiverem sendo adotados. Uma política monetária mais flexível que resulte em menores taxas de juros pode favorecer a capacidade de resistência à queda da demanda agregada de setores produtivos de bens de capital e de bens duráveis de consumo. Consequentemente, as regiões onde as estruturas produtivas tiverem um peso maior desses setores poderão estar crescendo acima do crescimento médio nacional, ainda que este seja mais lento.

Se, por exemplo, se optar por uma desvalorização cambial visando a expandir as exportações de bens e serviços, é bastante provável que as empresas e regiões que se especializaram em atividades nas quais o País dispõe de melhores vantagens comparativas ou de vantagens competitivas poderão ter crescimento relativamente maior.

Além do rebatimento setorial e espacial das políticas macroeconômicas, é preciso considerar que o desempenho das organizações produtivas de um mesmo setor ou de um mesmo ramo de atividade varia muito de região para região.

Há organizações brasileiras que se reestruturaram, modernizaram-se e se tornaram competitivas globalmente no período pós-abertura econômica dos anos 90. Outras, permaneceram na economia tradicional, com excesso de confiança em fatores básicos ou não especializados (clima, posição geográfica, mão de obra de baixo custo, recursos naturais, etc.), incapazes de conhecer sua posição relativa nos mercados em que atuam e de ajustar seus níveis de competitividade. É possível que as organizações mais dinâmicas possam alavancar o crescimento econômico dos setores e das regiões em que se situam, ampliando o seu market share até mesmo em mercados nacionais e globais em ambiente de retração econômica.

 

PROFESSOR DO IBMEC/MG. FOI MINISTRO DO PLANEJAMENTO, DA FAZENDA DO GOVERNO ITAMAR FRANCO

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