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O muito pior e o nem tanto

Na área das despesas públicas, as surpresas negativas vão se sucedendo, mas as contas externas seguem apontando forte melhora

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

23 de outubro de 2015 | 22h57

Na área das despesas públicas, as surpresas negativas vão se sucedendo. A sensação é de que o País está no meio de um rodamoinho, girando cada vez mais rapidamente. Em contrapartida, as contas externas seguem apontando forte melhora. E isso conta.

Quinta-feira, o ministro-chefe da Casa Civil, Jaques Wagner, reconheceu que o rombo fiscal de 2015 irá a R$ 70 bilhões. Ele se referiu à necessidade de zerar o estoque de pedaladas herdadas de 2014, avaliadas em R$ 40 bilhões, que têm de ser somadas ao déficit pré-existente de R$ 30 bilhões. Essas pedaladas nada mais são do que as dívidas do Tesouro com os bancos que foram obrigados, mês após mês, a cobrir despesas do governo.

Logo se viu que esses R$ 70 bilhões podem, na verdade, saltar para R$ 97 bilhões, quando se leva em conta o comportamento decepcionante da arrecadação e a falta de sentido de urgência do Congresso para aprovação do ajuste.

Esses números são ainda mais estonteantes quando se considera que, no início do ano, o governo se comprometera a entregar um superávit primário (sobra de arrecadação para pagamento da dívida) de apenas 1,2% do PIB ou de algo em torno de R$ 66 bilhões. Em julho, apresentou para este ano números mais realistas, um superávit de apenas 0,15% do PIB ou de R$ 8,7 bilhões, mas nunca essa cratera fiscal de quase R$ 100 bilhões. 

Como esse horror vai ser enfrentado é coisa que ainda se terá de saber, desde que se definam as pendências complicadas da área política a que os analistas vêm se referindo todos os dias.

Felizmente, as contas externas caminham em direção oposta. E isso não é pouca coisa, dentro do princípio que o então ministro da Fazenda Mário Henrique Simonsen enunciava ao longo dos anos 70: “A inflação aleija, mas o câmbio mata”. Naqueles tempos, a encrenca principal era aproximação de risco de morte. Hoje, é um baita aleijão fiscal que, menos mal, não vem acompanhado de forte deterioração das contas externas, como então. A existência de reservas externas de US$ 370 bilhões não deixa de ser cacife de respeito para enfrentar o jogo contra.

O ano de 2014 terminou apontando um buracão nas contas externas (Transações Correntes) de nada menos que US$ 103,6 bilhões, ou 4,4% do PIB. (Essa conta registra entradas e saídas de moeda estrangeira com mercadorias, serviços, rendas e transferências. Só não entram aí os movimentos de capital.) Pois as mais recentes projeções mostram que, neste 2015, o déficit cairá 37,3%, para US$ 65 bilhões, ou  3,7% do PIB.

Em grande parte, esse resultado melhor se deve à recessão que derrubou importações de mercadorias e serviços, incluídas aí as despesas com turismo externo. Portanto, tem a ver com o empobrecimento do brasileiro, o que é fator negativo. Mas precisa ser encarado como parte bem-sucedida do ajuste, pelo menos até agora. Essa ressalva (“até agora”) é importante porque o rebaixamento dos títulos da dívida pública pelas agências de classificação de risco é fator que, por si só, deverá afugentar investimentos externos no Brasil e, de alguma maneira, impedir uma melhora ainda mais acentuada do setor externo.

CONFIRA:

Aí está a evolução do emprego formal (com carteira assinada) nos últimos 12 meses.

Desemprego

Os números do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que mede a situação do emprego formal, seguem ruins. Setembro foi o sexto mês seguido de queda. No período de 12 meses terminado em setembro fechou-se 1,24 milhão de postos de trabalho, queda de 2,96%. Como a recessão tende a se aprofundar, a situação tende a se agravar, com certas contratações temporárias para cobrir o movimento de Natal e fim de ano.

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