O mundo à mercê do corner financeiro?

Se conselhos valessem alguma coisa, seriam vendidos e não dados de graça... é o que diz o povo, que, em geral, não sabe que alguns conselhos - os dos consultores, por exemplo - são vendidos, sim, e a muito bom preço. Os gratuitos é que nunca são aceitos. Que o diga o Fundo Monetário Internacional (FMI).Na semana passada se repetiu, em Washington, o ritual anual de preparação para a assembléia da entidade no segundo semestre. E se ouviram muitas reprimendas ao FMI pelo fato de a organização não ter previsto, não ter alertado nem ter tomado nenhuma providência para exorcizar - enquanto se formava - essa famosa crise dos bancos internacionais, nascida da crise do crédito hipotecário nos EUA.Bem, em primeiro lugar, não é verdade que o FMI não tenha percebido que havia algo de errado na exuberância creditícia com que os grandes bancos americanos, e alguns não-americanos, se comportavam. Em seus vários relatórios, até de quase dois anos atrás, não só se apercebeu de que o facilitário do crédito poderia "dar com os burros n?água" (como deu), mas ainda cansou de aconselhar moderação, muito mais rigor nas análises da capacidade dos mutuários e muito maior prudência nas avaliações do comprometimento do seu próprio equilíbrio econômico-financeiro como fornecedor de crédito. Se algum banco privado internacional tivesse pedido que alguém do FMI monitorasse seus procedimentos, por certo as famosas regras de Basiléia II (regras de segurança financeira em relação às quais a maioria dos bancos americanos simplesmente deu de ombros) teriam sido aplicadas ipsis litteris.Em segundo lugar, não compete ao FMI policiar o que os bancos privados estejam fazendo com o dinheiro dos seus depositantes, nem a quem estão emprestando, por quanto, em que prazos. Isso é atribuição das autoridades econômicas de cada país, principalmente dos seus bancos centrais. Estes, sim, imbuídos das suas funções e alertados pelo que se podia ler nos relatórios do FMI deveriam ter puxado as rédeas do sistema bancário, se não para evitar a trombada com a queda livre no valor dos imóveis, ao menos para restringir seus efeitos perturbadores sobre o resto da economia, particularmente sobre o mercado de ações, que, a rigor, não tinha muito que ver com a debacle imobiliária.Mas não foi o que fizeram. Ficaram na expectativa, como é próprio de bancos centrais. Incluído aí o mais importante deles, o Federal Reserve (Fed, o banco central dos EUA), cujo ex-presidente Alan Greenspan, tão vociferante e profetizante no que não lhe dizia propriamente respeito (lembram-se das advertências que ele fazia sobre a "exuberância irracional" dos preços das ações em bolsa?), ficou mudo naquilo que lhe era dado (e exigido) palpitar: a exuberância - esta sim, muito irracional - do crédito hipotecário.Lembremos que investimentos em ações, particularmente nos chamados mercados "futuros" das bolsas internacionais, são, por definição, investimentos de risco (alguns, de altíssimo risco, como nos fundos que se dizem "agressivos"). O investidor que entra nessa ciranda sabe que pode sair no "preju" ou, simplesmente, frustrado. Sabe, também, que pode abocanhar um jack-pot, como dizem os americanos, ou a sorte grande. E sabe, ainda, que, se for cuidadoso e calmo, pode ir juntando, aos poucos, uma boa fonte de receita para a velhice. Mas, em qualquer hipótese, não tem como se assegurar, firmemente, do retorno da sua aplicação.Já o investidor no mercado hipotecário - no caso, em geral, os bancos - tem mil e uma formas de se garantir, a começar pelo exame cuidadoso e criterioso de quem é candidato a hipotecar seu imóvel ou qualquer outro ativo hipotecável. Em seguida, pela avaliação do próprio bem que está sendo oferecido, do prazo da hipoteca, da capacidade de pagamento do devedor, etc., etc., etc. Em suma, são abundantes e bastante objetivos os meios de circunscrever e reduzir os riscos do negócio, e é elevada a probabilidade de que ele será levado a bom termo.Então, o risco em que incorreram os financiadores de hipotecas imobiliárias nos EUA, e que acabou desencadeando a crise toda, foi, a rigor, turbinado por eles próprios. Acicatados, de um lado, por excessiva liquidez financeira que os tornava frenéticos garimpadores de oportunidades de aplicação (para o dinheiro não ficar parado); de outro lado, pelo espírito de manada, em que ninguém quer ser o último a chegar numa chance (supostamente boa) de negócio; e, finalmente, pela crença (embora infundada) na continuação dos bons ventos da economia, que haviam anabolizado os preços dos imóveis - espargiram levianamente o maná do crédito. E quem é que resiste a ofertas de dinheiro farto e barato? Os aposentados brasileiros não estão também se fartando perigosamente, e com juros muito maiores do que os dos americanos?Na prática, o que houve foi uma repetição de 1973. Com a formidável alta dos preços do petróleo naquela época, os bancos internacionais começaram a absorver um tsunami de dinheiro dos sheiks. Passaram a oferecer crédito abundante e barato para os novos clientes - a saber, países em desenvolvimento mal administrados, entre eles o Brasil, candidatos à inadimplência. A quebradeira veio a partir de 1978, quando as fontes de "petrodólares" começaram a secar e os juros internacionais foram para as nuvens.A repetição do mesmo clima de irresponsabilidade financeira, em escala mundial, no curto período de 35 anos está a pedir algum remédio, também em escala mundial. Isso tem estimulado a idéia de que a atividade financeira moderna precisaria ser monitorada por algum tipo de organização reguladora, a exemplo da que tem o comércio, na OMC, pois, ao que tudo indica, o jogo financeiro mundial se tornou sério demais para ficar entregue apenas aos financistas. *Marco Antonio Rocha é jornalista.E-mail: marcoantonio.rocha @grupoestado.com.br

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