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'O mundo ainda se recupera da crise'

Para economista, Europa foi o lugar que mais sentiu os efeitos da crise financeira

Entrevista com

Kenneth Rogoff, economista-chefe do FMI entre 2001 e 2003

DENISE CHRISPIM MARIN, O Estado de S.Paulo

05 de janeiro de 2015 | 02h02

A economia mundial ainda vive o impacto da mais severa crise financeira da história, adverte Kenneth Rogoff, professor de Economia da Universidade Harvard e ex-economista-chefe do Fundo Monetário Internacional. Os Estados Unidos se recuperam de maneira sólida. Mas a Europa continua longe de seguir uma política correta, a China se vê atormentada pelo fim do ciclo de expansão da força de trabalho e por problemas de longa data, e os demais emergentes, como o Brasil, precisam de mudanças profundas para retomar a curva de expansão econômica.

Esse cenário, para Rogoff, não corresponde ao da hipótese de estagnação secular, defendida especialmente pelo ex-presidente do Conselho de Economia da Casa Branca Lawrence Summers. De acordo com essa hipótese, a economia mundial já estava mergulhada em um ciclo de redução de sua taxa de crescimento antes da última crise financeira.

"Eles confundem a recessão de 2008 com uma tendência de longo prazo. A análise correta é que o mundo continua se recuperando de uma crise muito severa", sustentou Rogoff ao Estado. A seguir, os principais trechos da entrevista.

O sr. concorda com a hipótese de estagnação secular para explicar o baixo crescimento mundial?

Creio que essa hipótese não tem sentido. Reconheço que o aspecto demográfico dessa hipótese é importante. Alguns países com alto endividamento veem seu crescimento econômico ser engolido pelo envelhecimento da população, que é um elemento secular. Os proponentes da hipótese de estagnação secular confundem a grande recessão de 2008 com uma tendência de longo prazo. Como mencionei no meu trabalho com Carmen Reinhart (Oito Séculos de Delírios Financeiros), quando uma crise financeira afeta muito mais sua economia do que uma recessão típica, o crescimento baixo continua amedrontando as pessoas mesmo depois de ela ter passado. As pessoas continuam nervosas demais para investir e para consumir. A análise correta é que o mundo ainda está se recuperando de uma crise financeira muito severa.

Mesmo em recuperação, o crescimento da economia hoje está bem mais lento que o esperado há dois ou três anos?

Não, de acordo com o meu trabalho com Carmen Reinhart. O crescimento dos EUA está normal, assim como o do Reino Unido. A Europa foi o lugar onde a crise se mostrou mais severa. Isso não se deveu apenas à crise financeira, mas também à crise de governança europeia. A Europa não foi capaz de reagir de forma adequada toda volatilidade que sofreu porque não tem uma estrutura federal. O continente precisa chegar em um ponto de virada para decidir se vai adiante na integração - e eu penso que vai - ou se vai continuar a desmoronar.

O que está faltando para a Europa dar essa virada?

O mais importante seria uma atitude generosa dos países do Norte para abater a dívida das economias do Sul. Isso deveria ter sido feito, mas não foi. Há níveis de desemprego depressivos na Espanha e na Grécia e muito severos em Portugal e na Irlanda. Não há outro meio de resolver essa crise sem as transferências do Norte para o Sul. A inflação mais alta também pode ajudar, ao elevar a demanda e beneficiar os países endividados em vez dos países credores. Mas o Banco Central Europeu continua cauteloso. Eu diria ainda que Itália e França precisam de profundas reformas estruturais para reenergizar suas economias e para resolver seus problemas de demanda e de oferta. A zona do euro também precisa se mover na direção de uma maior união política. O bloco tem de responder aos choques como um país.

A ideia de tornar a UE uma federação sempre sofreu resistência política, por envolver concessão ainda maior de soberania. O sr. culpa os alemães?

Eu culparia muito mais os franceses, por fracassarem em suas reformas econômicas, sobretudo por se recusarem a fazer a reforma trabalhista e a desistir de parte de sua soberania, além de terem insistido no ingresso da Grécia na zona do euro. Se os franceses tivessem feito sua parte, Berlim teria visto na França um parceiro e não mais um país suplicante. Nesse país, é muito difícil demitir trabalhadores, e o salário mínimo discrimina jovens e imigrantes. Além disso, o tamanho do governo francês é enorme, muito maior do que no resto da Europa. Equivale a 57% PIB, o que não é nada bom para o seu crescimento econômico.

Segundo a OCDE, a economia europeia deverá crescer 0,8% em 2014. Não se trata de uma rota de recuperação?

A Europa está muito longe de ter a política econômica correta. Parece que toda vez que a Europa precisa mover-se para a frente, só se convence disso depois de uma nova crise. Até mesmo a Alemanha terá problemas se a China não crescer mais porque sua economia tornou-se extremamente dependente das exportações para o mercado chinês.

A recuperação americana se deveu basicamente aos afrouxamentos quantitativos (QE) adotados pelo Fed?

Os QEs ajudaram, mas não foram as principais medidas. Primeiro, a economia americana é muito mais flexível e diversificada do que a europeia. Segundo, o gás de xisto teve também um imenso efeito positivo sobre a economia. Se pudéssemos tirar a revolução do gás de xisto dos EUA e passá-la para a Europa, o resultados relativos em ambos teriam mudado dramaticamente. Terceiro, foi importante os EUA terem superado a sua crise bancária muito mais rapidamente do que a Europa, que ainda não resolveu a sua. Quarto, os EUA tiveram mais sucesso ao estabilizar a relação de sua dívida pública em relação ao PIB. Na Europa, essa dívida continua a aumentar, em vez de encolher, e isso não é uma boa dinâmica.

Recentemente, a diretora-gerente do FMI, Christine Lagarde, declarou que um quarto afrouxo quantitativo não se faz necessário no curto prazo. Mas que pode vir a acontecer em médio prazo.

O cenário mais provável é de os EUA não lançarem mão de um novo QE. Mas os tomadores de decisão devem estar sempre preparados para a possibilidade de as coisas piorarem, em vez de melhorarem. Por enquanto, há uma tendência de recuperação sólida, mas a gente nunca sabe.

O sr. mencionou com entusiasmo a revolução do gás de xisto. Como isso pode afetar projetos de investimento nos setores de petróleo e de gás convencional, como os do pré-sal, no Brasil?

Haverá impacto nesses mercados. Mas não os superestimaria porque os projetos brasileiros, por exemplo, devem se prolongar por décadas. A revolução do gás de xisto, ao contrário, deve se esgotar em algum momento. Não vai durar por muito tempo. A queda dos preços do petróleo e do gás natural não se deve à concorrência com o gás de xisto, mas à redução do crescimento da China.

O sr. disse que a China cresce menos do que os dados oficiais. O ritmo de adoção das reformas tem influência nisso?

Creio que a economia chinesa recuou muito mais dramaticamente do que os números oficiais mostram. Podemos ver isso no preço do petróleo e nas exportações da Alemanha para a China. As estatísticas oficiais chinesas não são confiáveis. O governo está tentando tornar o crescimento mais sustentável e lidar com problemas antigos, como o fim do ciclo de expansão da força de trabalho. A China enfrentou problemas severos e teve grande habilidade em gerenciá-los, ano após ano. Os problemas que enfrenta agora, porém, tornam o cenário de redução gradual do crescimento mais difícil de se concretizar.

Se a China conseguir concluir a reforma de sua economia nos próximos dez anos, os preços das commodities voltarão a subir novamente?

Pode ser. A China esteve em tão intenso modo de crescimento e de investimento nos últimos anos que pode, certamente, provocar a elevação dos preços do petróleo em longo prazo. A queda nos preços, porém, vai durar por enquanto. Eu posso apostar que vai voltar a subir em cinco anos, mas o quão rápido isso vai acontecer, eu não sei.

O sr. mencionou o envelhecimento da população mundial. Por que está no centro de sua preocupação?

Claro que esse fator vai abrir muitas oportunidades de negócios e investimentos hoje não demandados. Mas ter uma maior população idosa tornará a economia menos flexível. E isso não está muito longe de acontecer. O aumento da longevidade também é outro fator com forte impacto para a previdência social.

Interessante que a China tenta, neste momento de reforma econômica e de mudança demográfica, criar um sistema de previdência social.

Mas continua muito distante disso. O país tem poucos hospitais e investimento no sistema educacional. China tem uma linda tendência de progredir em velocidade de bala, mas sua infraestrutura para prover educação e saúde é menos impressionante e vai demorar muito tempo para tê-las prontas.

As economias emergentes foram incensadas na década passada como o motor da economia mundial. Agora muitas delas, inclusive o Brasil, vêm sofrendo as consequências de não ter feito as reformas necessárias ou investido suficientemente em infraestrutura. Acabou o sonho do Brics?

Não. China, Brasil e Índia serão muito influentes no futuro. A China tenta reestruturar seu crescimento para torná-lo mais sustentável. Na Índia e no Brasil, os governos adotaram políticas de redução da pobreza, algumas delas muito intervencionistas e contraprodutivas. O FMI tem insistido na necessidade de esses países fazerem suas reformas estruturais. Não é tão simples. Na Índia, depois das eleições no Congresso, há possibilidade de substancial mudança para recuperar o crescimento. No Brasil, há recursos naturais e humanos vastos, mas a eleição não trouxe mudança de governo. Mas o cenário continua bom, no longo prazo, para os emergentes. A Rússia, claro, vive uma situação excepcionalmente instável e tem muito a recuperar. O Brics ainda está crescendo. O Brasil, talvez, seja a exceção.

No Brasil há um pouco de cansaço com a percepção de ser o eterno país do futuro. Por futuro ou longo prazo, o sr.magina quantos anos?

Nas próximas três décadas, o Brasil estará muito bem. Nos próximos três anos, vai requerer muita melhora nas suas políticas.

O Japão está novamente em uma encruzilhada para vencer a estagflação. Qual a falha da Abenomics?

O fracasso na condução das reformas estruturais. Isso foi mais prejudicial do que o impacto do aumento do imposto sobre consumo, em abril. O Japão tem de encontrar um meio de reverter o declínio da força de trabalho, estimulando o trabalho feminino e o da imigração. Eles falharam em fazer isso. Claro que o aumento do imposto foi um erro. Entendo a necessidade da receita desse imposto em longo prazo, mas quando se está tentando combater a deflação e a recuperação da economia, colocar mais 5% de imposto não é a melhor ideia. A desvalorização do iene foi outro problema. Ao fazê-lo, o Japão prejudicou muitos países de sua vizinhança, como a Coreia do Sul. Uma das razões para a China cortar sua taxa de juros foi essa. Se tiver sucesso e crescer, o Japão ajudará todo o mundo. No momento, porém, todo o mundo está sendo paciente com o Japão e com sua taxa de câmbio.

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