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O mundo bizarro dos juros negativos

Pois é neste mundo que nos encontramos hoje: 30% do estoque da dívida pública global (US$17 trilhões) têm rentabilidade negativa

Paulo Leme, O Estado de S. Paulo

01 de setembro de 2019 | 05h00

A perspectiva para a economia global vem se deteriorando rapidamente. Em breve, nos aproximaremos do horizonte do evento, onde o mundo financeiro será sugado pelo buraco negro e cairá no mundo bizarro dos juros negativas.

No dia 21 de agosto, o governo alemão emitiu €824 milhões em um bônus de 30 anos com um cupom de 0% e uma rentabilidade de -0,1%. A incerteza global aumentou tanto que investidores pagam para estacionar durante 30 anos a sua poupança com o governo alemão. O investidor paga um prêmio para comprar o título e resgatá-lo abaixo do seu valor de face. O retorno só será positivo no caso em as taxas de juros fiquem mais negativas ainda.

Pois é neste mundo que nos encontramos hoje: 30% do estoque da dívida pública global (US$17 trilhões) têm rentabilidade negativa. Além disso, o estoque de bônus de empresas com retornos negativos chegou a US$1 trilhão. Almoço grátis? Depende, para o emissor, no caso de uma deflação de 50%, em termos reais o valor da sua dívida dobraria.

Esta forte demanda por bônus com juros positivos aumenta o seu preço e comprime a sua rentabilidade, expandindo o universo de bônus com rentabilidade negativa. Este fenômeno é patológico: os bancos centrais estão corroendo a base da intermediação bancária e criaram uma bolha que pode ser o epicentro de uma crise financeira. 

É possível voltar para o mundo de taxas de juros positivas? Esta foi a grande preocupação compartilhada pelos presidentes dos bancos centrais na reunião anual de Jackson “Black” Hole no fim da semana passada. Eles concluíram que o problema não é monetário e, portanto, a responsabilidade recai sobre os líderes políticos do G-7. 

O crescimento mundial vem se desacelerando e, com exceção da Europa, onde a desaceleração é mais pronunciada, os níveis de atividade, emprego e inflação ainda são satisfatórios. Mas o que realmente assusta é a imperícia dos governantes pilotando as principais economias, aproximando-nos de forma irresponsável do horizonte do evento.

Os líderes do G-7 geraram dois grandes choques reais de oferta, e ambos podem ser evitados facilmente. O pior choque é a contração do comércio internacional causada pela guerra comercial e seus desdobramentos em termos de retaliações tarifárias e intervenção cambial. O segundo choque de oferta é o Brexit, afetando a Inglaterra e Europa.

O terceiro choque é a dilapidação da arquitetura financeira global e as instituições políticas. Conduzir a política econômica através de tuítes e desrespeitar o Fed desancorou as expectativas e dobrou a volatilidade do mercado de ações americano (medida pelo índice VIX) de 10% para 20%. Os outros dois choques que potencialmente poderiam agravar ainda mais o quadro atual são a crise política na Itália e um choque inesperado no mercado de petróleo. Se todos eles ocorrerem ao mesmo tempo, teremos a tempestade perfeita. 

O lado positivo do cenário atual é que é fácil evitar o buraco negro. A primeira iniciativa seria bloquear algumas contas específicas do Twitter. A segunda seria abandonar a ideia que com taxas de juros negativas os bancos centrais podem evitar a próxima recessão. Juros negativos representam um grande risco para o sistema financeiro e a economia mundial. O problema é que os convidados de Jackson não sabem sair do Hole. 

Em terceiro lugar, a liderança do G-7 e do G-20, junto com o apoio do FMI e do BIS deveriam formular medidas para reverter a guerra comercial e preparar um conjunto de medidas de estímulo fiscal, principalmente para a Europa. Em quarto lugar, anunciar um programa crível para que, ao longo do tempo, os bancos saiam da armadilha de liquidez que eles mesmo criaram em seu mundo de taxas de juros negativas. Por último, as economias desenvolvidas deveriam implementar reformas estruturais que estimulem a produtividade. Estas medidas reduziriam a incerteza, estimulariam o investimento e o consumo e, desta forma, evitaríamos uma recessão e deflação. 

No momento, nada indica que o centro de controle da missão de voo tem noção da magnitude dos riscos aos quais eles estão expondo desnecessariamente a economia global. Mas como disse o físico teórico Stephen Hawking: “Se você acha que entrou num buraco negro, não desista – há sempre uma saída.” 

PROFESSOR DE FINANÇAS  NA UNIVERSIDADE DE MIAMI 

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