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José Roberto Mendonça de Barros
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O mundo do petróleo está mudando

Recentemente, a Agência Internacional de Energia (AIE), divulgou sua revisão semestral do mercado de petróleo para os próximos anos (Medium Term Oil Market Report 2013). A demanda mundial continuará crescendo, atingindo 96,7 milhões de barris/dia em 2018, um crescimento de 7,7% em relação a 2012. O consumo global de petróleo será cada vez mais determinado pelos países emergentes por duas razões. Nos países ricos, o consumo vem caindo por efeito de medidas de conservação e de melhores equipamentos, como é o caso da frota de veículos americano e europeia. Ao mesmo tempo, o crescimento do mundo rico será bastante limitado, como é o caso da Europa.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, O Estado de S.Paulo

26 de maio de 2013 | 02h07

Em paralelo, o mundo emergente vai elevar sua participação no mercado. Neste ano, já temos duas indicações deste comportamento: em fevereiro, pela primeira vez na história, a China importou mais petróleo do que os EUA; enquanto isso, a AIE projeta, que já neste segundo trimestre, a demanda dos países em desenvolvimento e emergentes já será maior do que a dos países avançados. Esta projeção também incorpora certo arrefecimento no crescimento da China e uma expansão rápida da demanda africana.

Mas as maiores alterações estão do lado da oferta, onde as novas técnicas de produção do "shale gas" (gás de rocha) e de petróleo leve, nas mesmas formações geológicas, estão promovendo um forte crescimento na produção americana, que provavelmente se espalhará para outros países fora da Organização dos Países Exportadores de Petróleo (Opep). De fato, o crescimento fora da Opep é projetado para ser de mais de 6 milhões de barris/dia, servindo toda a expansão da demanda.

Como consequência, a Agência projeta uma capacidade ociosa na Opep da ordem de 7 milhões de barris/dia. A Agência chama a atenção que não se trata apenas do crescimento da produção de petróleo e gás fora da Opep, mas, também, uma forte mudança na própria cadeia produtiva como um todo, onde está se alterando a localização da capacidade de refino (mais próxima das regiões produtoras) e da capacidade de tancagem e terminais de exportação, com um crescimento maior nos países em desenvolvimento e emergentes.

Finalmente, o trabalho aponta duas outras observações. As tecnologias inovadoras desenvolvidas para o "shale gas" serão utilizadas em outros países e mesmo na melhora da captura de petróleo convencional, reforçando o aumento da oferta. O México, por exemplo, é um forte candidato à elevada produção, uma vez que já se disse que a geologia não conhece fronteiras e as formações, hoje, exploradas no sul dos Estados Unidos se estendem para o país vizinho. É por isso que o novo presidente mexicano está tão empenhado em mudar a legislação e reduzir as restrições ao investimento estrangeiro na área petrolífera no país.

A segunda observação é que o novo óleo de rocha (Tight Oil - TO) é muito leve e doce, o que tende a reduzir a demanda de óleo pesado como o da Venezuela. O comércio internacional também mudará com a alteração da localização das novas refinarias, resultando num crescente comércio de derivados, como gasolina e outras frações, às custas de certa redução no comércio do óleo cru.

Caso os receios ainda existentes com relação à questão ambiental sejam completamente superados, inclusive por mudanças tecnológicas, o novo cenário terá grandes implicações para o mundo.

A Opep perderá a importância estratégica que tem hoje, especialmente, porque os EUA caminham para a autossuficiência de petróleo. Neste grupo perde também a Venezuela, com seu petróleo pesado. As exportações de gás da Rússia terão concorrência nova vinda dos EUA e do próprio Oriente Médio, que é o que explica a corrida da Gazprom para dar descontos e refazer contratos com clientes europeus. Finalmente, o preço do petróleo tende a cair como resultado de todas essas forças. O conflito, cada vez mais sangrento e profundo, no Oriente Médio é que está impedindo baixa mais pronunciada nas cotações.

O Brasil será naturalmente afetado por este novo cenário. Antes de tudo, creio que a observação mais relevante é que fica ainda mais claro o enorme custo da mudança do regime de concessões para o regime de partilha na exploração do chamado pré-sal. Isso porque as impossíveis demandas feitas para a Petrobrás implicaram um forte atraso na exploração de nossas reservas, retratada nestes quatro anos de estagnação da produção de petróleo, mesmo com grandes gastos da Petrobrás.

Já colocamos aqui, mas não custa repetir, que o governo criou um modelo que pedia à companhia que elevasse muito e rapidamente a produção numa área difícil, arriscada e desconhecida. O governo pedia mais, a utilização de tecnologia de ponta, a obrigatoriedade da companhia de ser a grande operadora dos novos campos, tudo isso a um custo razoável, mas com a utilização obrigatória de 65% de fornecedores nacionais.

Como se não fosse suficiente, o preço dos derivados ficou populisticamente congelado por vários anos, reduzindo a geração de caixa da companhia. Era claramente uma missão impossível e a gigantesca perda de valor na Petrobrás revela isso. Pior ainda, se o novo cenário desenhado pela Agência Internacional de Energia for verdadeiro, o preço do petróleo vai cair, reduzindo em certa medida o retorno dos investimentos. O valor presente de nossa riqueza, certamente, é hoje, menor do que há cinco anos.

O ponto positivo do cenário de petróleo no Brasil é que, mansamente, as principais loucuras do modelo de partida estão sendo amenizadas. Na semana retrasada, tivemos o grande sucesso de um leilão de novas áreas, realizado com as regras do regime de concessão, antes tão criticado. Ao mesmo tempo, a nova presidente da Petrobrás vem trabalhando tecnicamente, com toda a liberdade, sem o populismo da gestão anterior. O resultado trimestral da companhia mostrou um avanço nos parâmetros de eficiência e uma melhora significativa nas demais variáveis. Ainda há muito que se avançar, mas é possível que, nos próximos anos, a melhora se consolide.

JOSÉ ROBERTO MENDONÇA DE BARROS, ECONOMISTA E SÓCIO DA MB ASSOCIADOS

 

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