O mundo dos desperdícios

Tenho repetido à exaustão o grave problema que afeta hoje o mundo inteiro: o fato de que a humanidade demanda recursos naturais em quantidade muito maior (30% a mais) do que a capacidade de reposição do globo terrestre. E o que é pior: nem por isso a humanidade tem um nível satisfatório de vida. Basta ver que há 1,4 bilhão de pessoas vivendo abaixo do nível de pobreza para concluir que, se superarmos esse nível, o desgaste dos recursos naturais será ainda mais insuportável.Urge reduzir drasticamente o consumo de recursos naturais, o que equivale a alterar profundamente os hábitos de vida. Não é possível continuar a gastar, em cada deslocamento por automóvel na região metropolitana de São Paulo, 26 vezes mais energia do que se o transporte fosse feito por metrô. Além disso, como o rendimento térmico dos motores de automóveis é muito baixo, cerca de 75% ou mais do combustível que ele consome se transforma em poluição, que exige mais recursos para reduzir os seus efeitos.A consequência do fato apontado é que a Região Metropolitana de São Paulo perde, anualmente, só com problemas de transporte e trânsito, o equivalente a todo o seu orçamento anual. Pior ainda é verificar, em estudos feitos em 1958, que há 50 anos, todos os anos, esses prejuízos correspondem a cerca de um orçamento municipal. Assim, neste meio século a sociedade metropolitana jogou fora algo como US$ 1 trilhão!Ter consciência disso já foi um grande avanço. Mas estamos ainda querendo enxergar os fenômenos econômicos segundo as relações de custo-benefício. Vale dizer que, se a receita e a despesa do transporte se equilibram, a despeito da enorme demanda de combustíveis e da utilização de processos altamente danosos ao meio ambiente, está tudo bem. É assim que historicamente a cidade de São Paulo tem avaliado os seus transportes, optando pelo uso dos ônibus a diesel (de tecnologia ultrapassada) e erradicando o sistema de trólebus. Na verdade, os custos ambientais, na sua maior acepção, são jogados na conta das "externalidades negativas", suportadas por toda a comunidade. Hazel Henderson mostra, em seu livro Mercado Ético, que tais externalidades são mero eufemismo para encobrir custos reais, que cumpre reduzir.Em 1982, eu me preocupava com o fato de que, na Central de Abastecimento (Ceasa), jogavam-se fora 80 toneladas de alimentos vegetais por dia. Levei então o Instituto Mauá de Tecnologia a desenvolver uma sopa, enriquecida com proteínas, a ser enlatada para garantir um ano de durabilidade e distribuída à população pobre. Chegou-se a bom termo e até se montou na Ceasa uma pequena fábrica, hoje desativada, com o apoio da Fundação Ayrton Senna. E por que foi desativada? Eles chegaram à conclusão de que, produzida em pequena escala, a sopa custaria o mesmo que outros alimentos enlatados, fabricados pela indústria. Então, a viabilidade econômica estava comprometida. Pareceu verdade.Empolgado com nossos estudos, o engenheiro e jornalista Roberto Muylaert, então presidente da Fundação Padre Anchieta, mandou fazer reportagem sobre as diversas formas dos desperdícios brasileiros, editando, em 1992, um filme chamado Brasil - País dos Desperdícios. É chocante o documentário, do qual extraio um depoimento estarrecedor. Um pequeno produtor de milho de Minas Gerais, entrevistado, disse ter, habitualmente, perdas de 70%! São os carunchos, os ratos, a umidade, o transporte, etc., etc., que causam isso.Espantada, a jornalista perguntou: "Mas o senhor não pode melhorar o seu processo de armazenamento e transporte?" Ao que ele respondeu: "Fica muito caro." E ela retrucou: "Para isso você conta com o financiamento do Banco do Brasil." A resposta foi triste: "Aí eu perco minha terra..."Esse pequeno produtor - e as nossas grandes safras dependem muito dos pequenos produtores - encontrava, afinal, o seu equilíbrio econômico. Perdia 70% de sua safra, mas conseguia sobreviver, sem o risco de empenhar a sua terra para se modernizar. A famosa "viabilidade econômica", acoplada à "taxa interna de retorno", estava resolvida.O sitiante perdia 70% de seu produto, a Ceasa jogava fora 80 toneladas de alimentos todos os dias. Mas, no frigir dos ovos, estava tudo nos conformes. (Por falar em ovos, o município de Bastos, o maior produtor do Brasil, perdia 10% de sua produção de ovos por falta de pavimentação de uma estrada de 15 quilômetros que, quando feita, reduziu as perdas para 2%...). Tudo estava na conformidade de um conceito econômico que não leva em conta as perdas ambientais, pois são meras externalidades negativas.Veja que, se o pequeno agricultor perdesse só 10% de seu milho, ele poderia realizar a mesma produção em um terço da área, consumindo um terço dos fertilizantes, da água e da própria força de trabalho. Nossos descendentes, beneficiados porque o mundo não acabou, agradeceriam.Os milhares de toneladas de alimentos que se perdem na Ceasa, nos transportes, etc., etc., significam demandas feitas à natureza, sem nenhum retorno.Resolver esses problemas da produtividade nacional não é apenas uma questão econômica, mas, acima de tudo, um "problema ético", como bem demonstrou o cientista Samuel Murgel Branco em seu livro Meio Ambiente, Uma Questão Moral.Mas a economia do País também agradeceria. Afinal, segundo os autores do livro Produtividade no Brasil: a Chave do Desenvolvimento Acelerado, a produtividade do trabalho no País equivale a apenas 27% da dos EUA. Nada mais importante hoje, diante da crise financeira mundial, do que investir na infraestrutura para elevar a produtividade. E, vice-versa, é de extrema importância elevar a produtividade para ter recursos para a infraestrutura.Isso significa que não é salvando a indústria de automóveis que vamos salvar o mundo. Melhor será investir na produtividade dos bens essenciais à vida - da educação à agricultura, passando pelos transportes sustentáveis. É no metrô, nas sobras da Ceasa, na roça do caboclo que vamos encontrar saída para o nosso elevado nível de pobreza, sem desgastar o planeta e, vale dizer, sem comprometer a vida das gerações futuras.Esses pensamentos me levam a considerar que uma "nova engenharia" deve surgir (pode-se dizer que está surgindo), preocupada com os projetos que levem em conta a viabilidade econômica, a sustentabilidade ambiental e, mais ainda, a equidade social. Se uma das versões viáveis e sustentáveis de um dado projeto favorecer a superação dos problemas da fome africana (ou mesmo a nossa), é esse o projeto que deve ser escolhido. *Adriano M. Branco, engenheiro e administrador, Eminente Engenheiro do Ano de 2008, foi secretário de Estado dos Transportes (governo Montoro) e diretor de trólebus da CMTC (governo Setúbal) E-mail: ambranco@uol.com.br

Adriano M. Branco*, O Estadao de S.Paulo

19 de janeiro de 2009 | 00h00

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