REUTERS/Tomas Bravo
REUTERS/Tomas Bravo

O mundo em tempo de juros negativos

Se para o tomador do empréstimo ideia é atrativa, autoridades dos países escandinavos veem com preocupação os excessos na procura por crédito

DOW JONES NEWSWIRES

04 Julho 2016 | 10h29

Hans Peter Christensen recebeu uma notícia incomum ao abrir a última declaração de seu financiamento imobiliário. O seu pagamento de juros trimestral estava negativo em 249 coroas dinamarquesas. Em vez de pagar juros sobre o empréstimo que tomou há dez anos para comprar uma casa na cidade de Aalborg, no norte da Dinamarca, o banco de Christensen lhe pagou o equivalente a US$ 38 em juros pelo trimestre. Em 31 de dezembro, a taxa do financiamento de Christensen, excluindo as tarifas, estava negativa em 0,0562%.

Já faz quase quatro anos que a Dinamarca entrou na política monetária negativa, e mutuários e credores ainda estão tentando entender como funciona esse mundo de cabeça para baixo. “Meus pais dizem que eu deveria emoldurar a declaração para servir de prova para as próximas gerações de que isso aconteceu”, afirmou Christensen, consultor financeiro de 35 anos.

A Dinamarca não é o único lugar onde o banco central está testando os juros negativos. O Banco Central Europeu e o Banco do Japão também estão usando taxas abaixo de zero para tentar estimular o crescimento. Na Suíça e na Suécia, assim como na Dinamarca, as autoridades monetárias estão usando juros negativos para manter suas moedas alinhadas com o euro.

A Dinamarca, cujas taxas de juros estão em -0,65% ao ano, vive no campo negativo há quatro anos, mais tempo que qualquer outro país. A Suécia já completou 16 meses abaixo de zero, em -0,5%, e o seu banco central já avisou que pode abaixar as taxas ainda mais, caso seja necessário. Enquanto isso, na Noruega ainda se trabalha com juros positivos, mas a autoridade monetária do país está considerando a ideia de recorrer às taxas negativas para escorar a economia, que foi atingida em cheio pela queda prolongada dos preços do petróleo.

A experiência da região escandinava deu aos economistas a possibilidade de estudar o que acontece quando as taxas de juros caem abaixo de zero – que por muito tempo foi considerado um limite inviolável. De prontidão, há preocupações com efeitos colaterais negativos. Um boom no número de empréstimos imobiliários levantou temores de que os problemas vão começar a aparecer quando as taxas voltarem ao campo positivo.

“Se há alguns anos atrás você dissesse que isso aconteceria, seria considerado um maluco”, afirmou Torben Andersen, professor da Universidade de Aarhus e que integra o conselho econômico do governo.

Os bancos centrais se apoiam em taxas de referência para estimular ou arrefecer suas economias. Eles querem que a inflação seja baixa, mas estável. Quando os preços sobem excessivamente devagar, eles diminuem as taxas para tornar os empréstimos mais baratos, com o objetivo de elevar preços. As autoridades monetárias na Europa e em Tóquio, ao encarar preços estagnados, decidiram que a única maneira de alavancar suas economias é atravessar a barreira do zero e entrar no território negativo.

Apesar disso, o Nationalbanken da Dinamarca não tem uma meta de inflação. Seu objetivo é manter a moeda local estável ante o euro para proteger o comércio com a zona do euro. 

O Riksbank, da Suécia, o banco central mais antigo do mundo, entrou no campo negativo pela primeira vez em fevereiro do ano passado, com a intenção de estimular a inflação.

Tanto as autoridades da Suécia como as da Dinamarca temem que taxas baixas tenham feito as famílias tomarem empréstimos que não conseguirão pagar caso os juros aumentem ou o preço dos imóveis caia. “É perigoso”, afirmou o presidente do Riksbank, Stefan Ingves.

As autoridades também temem que as taxas negativas prejudiquem os bancos ao minar sua capacidade de gerar dinheiro. Taxas negativas fazem os bancos comerciais pagarem tarifas, em vez de coletarem juros, quando deixam dinheiro no BC – algo que eles precisam fazer por razões regulatórias e para facilitar o empréstimo entre eles mesmos. 

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