Gabriela Biló/Estadão
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O mundo está cada vez mais dependente do crescimento

Se não houver avanços significativos no campo econômico mundial, a primeira vítima poderá ser a democracia

Celso Ming, O Estado de S.Paulo

15 de agosto de 2019 | 20h00

A economia mundial se transformou numa bicicleta. Tem de seguir rodando. Se parar, desaba.

E é esse o medo que varreu o mundo nesta semana quando a Alemanha, principal economia da Europa, apontou queda do PIB de 0,1% no segundo trimestre e a China, segunda economia do mundo, acusou o mais baixo crescimento industrial desde 2002, de 4,8%. Foi o suficiente para a derrubada das bolsas e para a fuga dos capitais em direção aos portos seguros habituais.

Não é acontecimento inesperado. Há meses, o Fundo Monetário Internacional vem alertando para os riscos de uma recessão mundial e, com base nessa expectativa, os grandes bancos centrais passaram a adotar uma política monetária mais frouxa (de juros mais baixos).

Alguns analistas vêm associando esse desempenho ruim da economia mundial à guerra comercial deflagrada pelo presidente Trump contra a China. Esse jogo protecionista está contribuindo para a desaceleração da economia chinesa, mas não deve ser tomado como causa da recessão mundial. Ele já é consequência da baixa expansão da renda nos países de economia madura, atingindo em cheio as classes médias e sendo a principal causa das políticas populistas e das manifestações de descontentamento nos Estados Unidos e na Europa.

A busca quase compulsiva do crescimento econômico e do progresso é relativamente recente. Até o século 18, não existia o conceito de PIB e ninguém se preocupava com medidas da evolução da riqueza das nações. Simplificadamente, com a revolução industrial passou a ser necessária a expansão da demanda para dar conta do aumento da produção e para garantir o emprego da população que migrou do campo para as cidades. De lá para cá, sempre que houve desequilíbrio entre oferta e demanda de bens e serviços, houve crise, que, por sua vez, impõe mecanismos de ajuste.

A última grande crise foi deflagrada em 2008, a partir da quebra do banco de investimentos Lehman Brothers. Durou cinco anos, mas há quem entenda que não terminou; apenas tomou outra forma. Em 2008, os grandes bancos centrais despejaram dinheiro para recolocar a roda em movimento. Se a economia mundial entrar de fato em depressão, como alguns vêm advertindo, dificilmente eles poderão atuar com a mesma força porque os juros estão muito próximos do campo negativo. Mais dinheiro solto exigiria juros ainda mais baixos.

É por isso que alguns economistas avisam que a reação à crise tem de vir do lado fiscal, como aconteceu com o New Deal, a resposta do então presidente americano Franklin D. Roosevelt à Grande Depressão dos anos 30. Tem de vir do aumento das despesas dos governos e de mais investimentos públicos.

O diabo é que os Tesouros públicos são laranjas espremidas demais. Estão excessivamente endividados, não têm de onde tirar mais recursos para despejar em obras públicas e em contratações.

Enfim, a economia mundial ficou excessivamente dependente do crescimento econômico. Sem avanços significativos do PIB, a arrecadação baqueia, o desemprego aumenta e as dívidas crescem. Se esse cenário prevalecer, a primeira vítima poderá ser a democracia, porque a população tenderá a buscar um líder (ou um duce) que volte a por a bicicleta sobre as rodas.

CONFIRA

» Dívidas demais

Um dos fatores que empurram a economia mundial para a recessão é o excessivo endividamento dos governos, das empresas e das famílias. O problema não é a falta de crédito, mas os limites técnicos ao levantamento de novos créditos por parte dos devedores. No gráfico, você tem a evolução do endividamento em porcentagem do PIB. As estatísticas são do BIS, Bank for International Settlements, instituição com sede em Basileia (Suíça) que opera como espécie de banco central dos bancos centrais.

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