Ueslei Marcelino/ Reuters
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O mundo está girando descontroladamente

Esperamos que o mundo se acalme antes que desapareça todo o vestígio de normalidade

Albert Fishlow*, O Estado de S.Paulo

16 de maio de 2021 | 04h00

Nessa semana, circunstâncias novas e antigas se somaram para produzir a aparência de um mundo sem direção. O Oriente Médio se vê mergulhado em uma crescente onda de caos, enquanto a maior parte do mundo precisa lidar com uma pandemia global cujas dimensões variam de país para país. Os maiores e os menores lutam para responder à míngua do globalismo econômico e a uma complicada busca por coerência internacional.

No Oriente Médio, Israel e Hamas estão envolvidos em ações militares diretas, com ataques de foguetes feitos a partir do Líbano. Os acontecimentos são mais graves do que o visto no passado recente. Arábia Saudita e Irã defendem intervenções militares opostas no Iêmen e em outros lugares. O Iraque vive instabilidade. Será possível um novo acordo com o Irã, especialmente se Ahmadinejad voltar ao poder?

Os EUA estão reabrindo com o avanço da vacinação. Mas, politicamente, os esforços para garantir os mais de US$ 4 trilhões solicitados por Biden para o investimento em amplos esforços de melhoria do transporte interno, do ensino e da pesquisa e desenvolvimento enfrentam uma virtual oposição total por parte dos republicanos. A continuidade da imigração de menores de idade desperta uma forte resistência, bem como os esforços para restringir a compra de armas. Trump se recuperou bem da derrota para Biden, e deve depender dele uma recuperação nas eleições de 2022 e a tentativa de renovar as maiorias parlamentares. Se isso ocorrer, o progresso será detido.

Enquanto isso, a China continua seu retorno a um crescimento econômico mais rápido e as tentativas de ampliar sua influência na Europa e na África. O líder Xi Jinping expandiu muito seu poder ao longo da década. Ele supervisiona uma política externa mais agressiva, sustentada por mudanças tecnológicas impressionantes, e inevitavelmente mais competitiva em relação aos EUA e ao Ocidente. Diferentemente do indiano Modi, do americano Trump e do brasileiro Bolsonaro, a reação dele à pandemia foi imediata, direta e, aparentemente, bastante bem-sucedida. A China é hoje uma fonte de vacinas para muitos outros países.

Agora, no Brasil, com a CPI transmitindo pela TV suas audiências, o público pôde contemplar uma reprise constante das desastrosas políticas adotadas por Bolsonaro ao longo de um ano que resultaram em mais de 400.000 mortes. Com a chegada do outono e do inverno, a possibilidade de nova onda é real. A vacinação está ocorrendo, mas em um ritmo muito mais lento do que o anunciado anteriormente, e as razões das dificuldades na importação de insumos serão esclarecidas essa semana com o depoimento do ex-ministro das Relações Exteriores.

O ex-ministro da saúde Pazuello terá sua oportunidade na terça-feira. O governo já tentou garantir para ele o direito de evitar responder às perguntas. Isso pode incluir sua insistência na fabricação doméstica de qualquer vacina, negando a disponibilidade de importações da Pfizer em setembro de 2020, bem como a potencial disponibilidade de doses chinesas. A Índia acabou ficando sem excedentes para exportar. 

Talvez ele queira evitar a ênfase em seus meses de insistência na cloroquina como tratamento correto. Essa foi a contribuição científica de Bolsonaro para a questão. Além de importar 3 milhões de doses dos EUA, o Brasil ainda encomendou ao Exército a produção de mais 3 milhões de doses, desviando dinheiro do orçamento do SUS para financiar a iniciativa durante os meses de primavera e verão.

Talvez alguns brasileiros tenham perdido a entrevista do ex-presidente Lula na PBS News Hour na quinta-feira passada. Lula insistiu que seu foco será o total fracasso de Bolsonaro em lidar com a pandemia. Indagado a respeito de seu interesse em concorrer à presidência em 2022, ele deixou a questão de lado, mas reconheceu as grandes contribuições da experiência de Biden para a política americana atual, ao mesmo tempo reconhecendo que ele próprio seria mais novo se eleito. Em resumo, buscou rapidamente se posicionar no centro em vez de enfatizar suas origens no PT.

O resultado de pesquisa recente de intenção de voto mostra Lula com uma ampla vantagem em relação a Bolsonaro, diferentemente de pesquisa anterior que identificou quase um empate entre os dois. Mesmo supondo um candidato alternativo que atraísse o restante do eleitorado, esta figura teria que se lançar sozinha. A probabilidade disso é certamente baixa.

Ninguém poderá concluir que é um mês fácil de interpretar. Esperamos que o mundo se acalme antes que desapareça todo o vestígio de normalidade./ TRADUÇÃO DE AUGUSTO CALIL

 

* ECONOMISTA E CIENTISTA POLÍTICO, PROFESSOR EMÉRITO NAS UNIVERSIDADES DE COLUMBIA E DA CALIFÓRNIA EM BERKELEY. 

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