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O mundo finito

Os mercados de commodities estão nos dizendo que vivemos num mundo no qual o crescimento rápido dos emergentes exerce pressão sobre os suprimentos

Paul Krugman, O Estado de S.Paulo

28 de dezembro de 2010 | 00h00

O petróleo voltou a ficar acima de US$ 90 o barril. O cobre e o algodão atingiram preços recordes. O trigo e o milho estão subindo. Em geral, os preços das commodities mundiais subiram 25% nos últimos seis meses.

O que significa essa alta? Será a especulação tresloucada? Será o resultado de uma criação excessiva de dinheiro, o prenúncio de uma inflação descontrolada dobrando a esquina? Não e não.

O que os mercados de commodities estão nos dizendo é que vivemos num mundo finito no qual o crescimento rápido de economias emergentes está exercendo pressão sobre os suprimentos limitados de matérias-primas, empurrando os preços para cima.

Alguns antecedentes: a última vez em que o preço do petróleo e de outras commodities esteve alto assim, há dois anos e meio, muitos comentaristas relativizaram a alta acelerada dos preços como uma aberração causada por especuladores. Se consideraram justificados quando os preços despencaram no segundo semestre de 2008.

Mas aquele colapso coincidiu com uma severa recessão global, que provocou uma forte queda na demanda por matérias-primas. O grande teste viria quando a economia mundial se recuperasse. As matérias-primas ficariam novamente caras? Bom, as coisas ainda estão um tanto recessivas nos EUA, mas, graças aos países em desenvolvimento, a produção industrial mundial recentemente superou o pico anterior - e, evidentemente, os preços das commodities estão subindo de novo.

Isso não significa necessariamente que a especulação não teve nenhum papel em 2007-08. Nem devemos rejeitar tampouco a ideia de que a especulação jogue algum papel nos preços atuais. Mas o fato de a recuperação econômica mundial ter trazido também uma recuperação nos preços das commodities sugere que as flutuações recentes refletem, sobretudo, fatores fundamentais.

E quanto à questão de os preços das commodities serem um prenúncio de inflação? Muitos comentaristas de direita vinham prevendo há anos que o Federal Reserve (Fed, o banco central americano), ao imprimir montes de dinheiro - ele não está fazendo isso atualmente, mas essa é a acusação - está nos levando a uma severa inflação.

O leitor deve estar se perguntando o que essas pessoas pensavam há dois anos, quando os preços das matérias-primas despencaram. Se o aumento do preço das commodities dos últimos seis meses prenuncia uma inflação descontrolada, por que a queda de 50% no segundo semestre de 2008 não prenunciou uma deflação descontrolada?

Inconsistência à parte, porém, o problema dos que culpam o Fed pela alta dos preços das commodities é que eles sofrem ilusões de grandeza econômica americana. Os preços das commodities são estabelecidos globalmente. O que os EUA fazem não pesa tanto assim.

Hoje, em particular, como em 2007-08, a principal força motriz por trás do aumento dos preços das commodities não é a demanda americana. É a demanda da China e de outros emergentes. Conforme um número crescente de pessoas de países anteriormente pobres entra na classe média, começam a guiar carros e comer carne, exercendo pressão sobre os suprimentos.

E esses suprimentos não estão acompanhando o ritmo da demanda. No ano passado, condições climáticas extremas - em especial o calor intenso e as secas severas em algumas regiões agrícolas importantes - jogaram um papel importante no aumento dos preços dos alimentos. E, sim, há razão para acreditar que a mudança climática está tornando esses episódios climáticos mais comuns.

Então, quais são as implicações do recente aumento dos preços das commodities? São, como eu disse, sinal de que vivemos num mundo finito. Isso não dará fim ao crescimento nem levará a um colapso estilo Mad Max. Requererá, antes, que mudemos gradualmente a maneira como vivemos, adaptando nossa economia e nossos estilos de vida à realidade de recursos naturais mais caros. / TRADUÇÃO DE CELSO M. PACIORNIK

PRÊMIO NOBEL DE ECONOMIA

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